quarta-feira, 26 de maio de 2010

O justo de Habacuque em Romanos 1

Começo meus palpites pelo livrinho de Habacuque. gosto de ver o livro de Habacuque como uma espécie de auto-psicoterapia, uma espécie de catarse religiosa diante da inconcebível percepção de que YHWH é o deus dos exércitos - babilônicos! O juízo está às portas, quem poderá sobreviver? Basta para "contexto", você pode completar à vontade.

No TM de Hc 2,4 há um contraste entre dois tipos de pessoas: a (?) e a justa. Por que a fórmula (?)? Porque a palavra hebraica usada em Hc 2,4 é um hapax legomenon (OK, há em Nm 14,44 o uso do hifil do verbo) - sua forma é a de um particípio pual, com função de adjetivo. ARA traduz por "soberbo", talvez por vinculação com uma palavra parecida que significa torre ou montanha (mas também pode significar tumor ou praga). No Lexico mais recente a palavra é traduzida por "ser impudente, ser tolo". Na NIV o verbo é traduzido por "estar inflado", na Biblia de las Américas por "o orgulhoso", e assim vai. A pista que o verso oferece, porém, é que o (?) tem a garganta torta, ou, traduzindo para nossas categorias de pensamento: seu desejo é pervertido, o que anima sua vida é um alvo errado, injusto; ou se quisermos uma expressão do NT: seu tesouro é mal escolhido e nessa má escolha está o seu coração. Quer mais concretude? Leia os versos seguintes de Hc 2 - essa pessoa, o contrário da pessoa jsuta, é aquela que acumula para si riquezas, poder, prestígio - e o faz de forma violenta... Uma tentação me acossa neste instante: traduzirei Hc 24, assim: "Eis o capitalista, seu projeto de vida não presta...".

E a pessoa justa? A pessoa justa é aquela que pratica a emunah - a fidelidade, amizade, companheirismo, parceria, solidariedade, etc. Embora até possamos traduzir essa palavra hebraica por fé (a LXX a traduz em Hc por pistis), o termo está tão sobrecarregado de significados religiosos institucionais que prefiro abandonar tal tradução. Ao contrário da pessoa (?), a justa sobreviverá ao juízo de YHWH porque ela é fiel a Ele e ao Próximo. A idéia do "remanescente justo" tem raízes aqui. Hc (o livro-discurso, não a pessoa física) sabe que os babilônios deportam reis, sacerdotes, ricos, generais, etc. Sabe que eles deixam os "pobres da terra" em suas próprias terras (os que sobreviveram à guerra, é claro). Sabe que, ironicamente, os babilônios fazem a reforma agrária que o rei judaíta não faz ...

E Paulo? Em Rm 1,17 ele usa a LXX com exceção da palavra mou (que faz Deus ser o sujeito da fidelidade). A pessoa justa é uma pessoa ativa - exerce pistis. Que justo? Aquele em quem se manifesta a justiça de Deus ... Que pistis? A fidelidade solidária para com o próximo ... Daí eu tenho de mudar também o verso 16 - libertação para toda pessoa fiel, ao invés de "que crê"!

Para escapar da protestantização de Rm 1,16-17 minha sugestão inicial é: não traduza pistise pisteuw por fé e crer, mas por fidelidade ... Não traduza swterian por "salvação", mas por livramento ou libertação ... Em outras palavras, leia Paulo a partir de Habacuque e não Habacuque a partir do Paulo protestantizado.

6 comentários:

  1. Portanto, o evangelho é o poder de Deus para a justificação de todo aquele que é fiel!!!

    Nossa, quanta diferença! E a doutrina da justificação pela fé de Paulo, há fundamentos para ela já que este texto, uma de suas mais tradicionais colunas, acaba de ruir (pelo menos aqui no blog)? Outros textos a confirmam ou essa leitura deve servir para nos orientar na interpretação de outros textos como esse na obra paulina?

    É uma daquelas exegeses difícieis de engolir para tanta gente, mas que recebo-a com alegria e até alívio!

    Parabéns prof. Julio!

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  2. A "justificação pela fé" foi uma boa interpretação do texto nos tempos da Reforma, ajudando a igreja cristã a construir melhor a sua compreensão do ato salvífico. Entretanto, como qualquer doutrina, sua validade contextual se esgotou. isso não quer dizer que ela não tenha mais nenhum papel a desempenhar na reflexão teológica. Penso, porém, que vivemos em uma época que demanda outra formulação da compreensão do que significa "ser salvo".

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  3. Kharis kai eirene

    Ao ler o referido texto, diferente do Anderson Oliveira, não vejo uma desconstrução da sola fides, muito menos "ruir" a doutrina da justificação pela fé. Vejo possibilidade libertadora mediatizada com uma releitura de um texto clássico. O mesmo também pode acontecer se na leitura de Jo 15.2, o verbo "airo" em vez de ser traduzido por "tira", "arranca", etc., fosse traduzido pelo seu equivalente semântico mais próximo, "levanto", "tomo". Quantas "doutrinas" não são desafiadas com essa releitura?

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  4. Kharis kai eirene

    Prezado Júlio, não concordo com o amigo quando afirma que a "'justificação pela fé' foi uma boa interpretação dos textos nos tempos da Reforma"...e que sua "validade contextual se esgotou". Gostaria de discutir tais proposições, mas prefiro esperar o desenvolvimento do assunto pelo estimado professor, bem como os olhares dos outros rapsodos. Acredito que além das justificativas lexicais e semiológicas apresentadas, teremos mais informações a respeito de vossa interpretação, razão pela qual prefiro aguardar o desenvolvimento do assunto até sua conclusão.
    Apenas para não dar-me como esquecido: contestar a validade da justificação pela fé e tudo o que a Bíblia ensina sobre o assunto parece (para não ser mais enfático) heresia.

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  5. Caro Esdras, o termo "validade contextual" é, de fato, pouco explicativo. O que tenho em mente é a distinção entre uma certa perenidade tradicional de doutrinas intereclesiasticamente assumidas no Cristianismo e a inevitável historicidade de suas formulações. A questão em jogo pode ser assim formulada: o conceito "justificação pela fé" visava explicar o quê? Em função das mudanças sócio-culturais, de que maneira podemos, hoje, explicar melhor esse "o quê", sem incorrermos nas limitações históricas de períodos anteriores e sem deixar de nos apropriarmos criticamente da tradição.
    Em outros termos, estou tentando formular um modo de compreensão da doutrina e da teologia que nos livre do essencialismo dogmático defendido pela Igreja Católica, através da afirmação "a essência do dogma é imutável, não sua formulação".
    Continuemos a debater ...

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  6. José Luiz Izidoro15 de junho de 2010 10:54

    Olá pessoal, o pensamento paulino se compreende a partir de diferentes perspectivas teológicas e antropológicas que apontam à uma nova compreensão judaico-helênica do cristianismo primitivo. Que tal uma olhada em Gálatas 3,28?

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