O post do Leonel me deu uma deixa para entrar na discussão. Ele afirmou a importância da estrutura familar não-nuclear para o desenvolvimento do cristianismo primitivo, e a ausência de estrutura similar em nossos dias, que seria reponsável pelo insucesso do cristianismo. Não vou discutir com o que o Leonel nos apresentou. Darei um passo a mais na conversa.
Por que igrejas têm fracassado tão redondamente na vivência concreta do Evangelho especialmente nesta primeira década do século XXI? Porque suas estruturas institucionais são cópias descaradas das estruturas excludentes do sistema capitalista. As igrejas se tornaram em postos de arrecadação de fundos - fac-símiles de agências bancárias. Não para a benemerência, mas para a acumulação. Não para a partilha, mas para o lucro. Não para a missão, mas para legitimar a omissão. Os templos não são lugares de comunhão, mas de ajuntamento de invidíduos isolados em si mesmos - todos com os olhos voltados para o poderoso Messias que dirige a coisa que chamamos de culto.
Porque suas estruturas discursivas são arremedos do Evangelho. A boa-nova é tão misturada com a falsidade de Mamom que não se trata mais da mensagem da vida, e sim da mensagem da morte. Esse "evangelho" culpabiliza as vítimas e glorifica os vitimadores. Reduz a fé a uma espécie de obra meritória ou ao esforço sacrificial de dar seu dinheirinho para receber um dinheirão do papai do céu - afinal, não somos todos filhos do rei? Reduz a santidade à moral pequeno-burguesa de ser honesto, trabalhar duro, não fazer mal ao vizinho, não entrar em conflito com ninguém, especialmente com as impessoais estruturas de morte e seus representantes empresariais e pessoais. Reduz a missão à ilusão de "subir na vida" pelo próprio esforço, com Deus como alavanca e consolo em meio ao árduo trabalho de trilhar os caminhos de Mamom, o grande mágico que faz do "dinheiro na mão: solução", escondendo de todos que "dinheiro na mão é vendaval" (Paulinho da Viola "Pecado Capital", 1976).
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Filemon e a estrutura eclesiológica do cristianismo primitivo
Se no post anterior discorri sobre os aspectos frágeis que envolviam o cristianismo nascente e que podem ser discernidos na pequena carta a Filemon, neste irei focar, por outro lado, um aspecto estrutural positivo desse cristianismo. Isso significa que os primeiros cristãos viviam em uma espécie de dialética existencial, se equilibrando entre elementos sensíveis e frágeis, por um lado, e usufruindo de estruturas estáveis, por outro.
Abordo a organização eclesiológica do cristianismo daqueles tempos. Não em termos de dons, funções, teologia etc. Mas de um ponto de vista mais concreto: a existência e vivência real dos grupos cristãos. Para isso, tomo especificamente o papel de Filemon como exemplo.
Inicialmente, alguns dados: Filemon é um colaborador de Paulo (v. 1); recebe uma igreja em sua casa (v. 2); tem reanimado o coração dos santos (v. 7); deverá hospedar Paulo no futuro e deveria receber com frequência outros pregadores itinerantes (v. 22).
Essas informações permitem concluir com uma boa dose de certeza que ele era o responsável, o líder da igreja doméstica em sua casa. Ele seria, então, o pastor dessa comunidade. Ou, para usar o termo neotestamentário, o presbítero dela.
E aqui abordo a questão estrutural. O cristianismo primitivo herdou a estrutura das famílias grego-romanas e hebraicas. Era costume do apóstolo Paulo se hospedar em casas e geralmente seus membros eram convertidos (At 16.15, 33; 18.8). São comuns também as citações a igrejas domésticas em seus escritos (Rm 16.5 [os "irmãos que se reúnem com eles" também diz respeito às igrejas domésticas - Rm 16.14, 15], Cl 4.15).
É necessário dizer primeiramente que essas famílias eram diferentes de nossa família nuclear organizada a partir de pai-mãe-filhos. Elas eram constituídas pelo páter-família, o chefe e responsável; pela esposa e filhos; por escravos; por parentes; e por amigos. Em geral essa família possuía um comércio que funcionava na própria casa, que era grande e comportava entre 40 a 60 pessoas.
O que me ajuda entender esse tipo de família são a famílias de coronéis do ciclo do café paulista do sec. XIX e início do XX. A estrutura era semelhante. Tanto nesta quanto na família greco-romana os parentes e amigos poderiam participar do negócio da família ou então serem prestadores de serviço em troca de acolhimento e proteção.
Isso significa que esse tipo de família não funcionava unicamente a partir de laços de sangue, mas de relações sociais e econômicas que traziam estabilidade e segurança ao grupo.
O cristianismo, como disse, assumiu essa estrutura e isso foi muito importante. Vejam como as figuras de páter-família e presbítero são praticamente idênticas em 1 Tm 3.1-7 (ali "bispo" é sinônimo de "presbítero", como ocorre em Tt 1.1-7). O governo e liderança familiar são centrais, também o testemunho da sociedade é fundamental. Notem como se dá a relação no v. 5: o presbítero precisa saber governar sua casa para poder governar a igreja de Deus. Por quê? Simplesmente por que a casa se torna a igreja!
Por isso mesmo o relacionamento de Timóteo com os crentes deve ser aquele das relações familiares (1 Tm 5.1-2), e as orientações familiares visam todos: maridos, mulheres, filhos e escravos. Por quê? Por que essas relações se estruturam dentro da família/igreja e elas podem definir o sucesso ou insucesso de ambas.
Como fiz referência anteriormente, quando o páter-famílias se convertia todos os membros da casa o seguiam: esposa, filhos, parentes, amigos e escravos. Toda a estrutura da casa era afetada. No entanto, havia casos raros em que alguém não adotava a religião da casa, ou então, um membro de uma casa não cristã se tornava cristão. Isso gerava tensões, como pode ser visto em 1 Pe 2.18-19; 3.1.
Bem, voltemos a Filemon. Provavelmente ele era o presbítero/pastor da igreja doméstica de sua casa (embora o título não seja usado para ele, possivelmente pelo fato de que Paulo não queria enfatizar esse aspecto). Onésimo, exceção à regra, não aderiu à fé e, o que é pior, fugiu. O que fazer?
A questão não era apenas de relacionamento entre senhor - escravo. Era entre um líder cristão e alguém que estava submetido à estrutura dirigada por ele. A decisão de Filemon, castigar o escravo fugido ou perdoá-lo e recebê-lo como irmão em Cristo afetaria todo o grupo familiar/cristão reunido em sua casa. Afinal, se houvesse outros escravos, como eles reagiriam? Como os outros membros da casa julgariam a atitude de Filemon?
Nesse caso, a estrutura da igreja doméstica era muito importante. Qualquer que fosse a decisão de Filemon, provavelmente ela não seria questionada, nem pelo apóstolo Paulo. Ele possuía o direito espiritual que provinha de uma estrutura já estabelecida e central para toda a sociedade. Nesse caso, posso dizer mesmo que a autoridade espiritual derivava e tinha como suporte a autoridade familiar e social.
Essa estrutura foi responsável pelo desenvolvimento do cristianismo. Ela proveu estruturas para os cristãos, segurança para pregadores e apóstolos itinerantes, e mesmo respeito social diante de outras famílias.
Penso em nós hoje e acho que a inexistência de tal estrutura (e julgo ser impossível resgatá-la) é um dos pontos responsáveis por insucessos da igreja.
Abordo a organização eclesiológica do cristianismo daqueles tempos. Não em termos de dons, funções, teologia etc. Mas de um ponto de vista mais concreto: a existência e vivência real dos grupos cristãos. Para isso, tomo especificamente o papel de Filemon como exemplo.
Inicialmente, alguns dados: Filemon é um colaborador de Paulo (v. 1); recebe uma igreja em sua casa (v. 2); tem reanimado o coração dos santos (v. 7); deverá hospedar Paulo no futuro e deveria receber com frequência outros pregadores itinerantes (v. 22).
Essas informações permitem concluir com uma boa dose de certeza que ele era o responsável, o líder da igreja doméstica em sua casa. Ele seria, então, o pastor dessa comunidade. Ou, para usar o termo neotestamentário, o presbítero dela.
E aqui abordo a questão estrutural. O cristianismo primitivo herdou a estrutura das famílias grego-romanas e hebraicas. Era costume do apóstolo Paulo se hospedar em casas e geralmente seus membros eram convertidos (At 16.15, 33; 18.8). São comuns também as citações a igrejas domésticas em seus escritos (Rm 16.5 [os "irmãos que se reúnem com eles" também diz respeito às igrejas domésticas - Rm 16.14, 15], Cl 4.15).
É necessário dizer primeiramente que essas famílias eram diferentes de nossa família nuclear organizada a partir de pai-mãe-filhos. Elas eram constituídas pelo páter-família, o chefe e responsável; pela esposa e filhos; por escravos; por parentes; e por amigos. Em geral essa família possuía um comércio que funcionava na própria casa, que era grande e comportava entre 40 a 60 pessoas.
O que me ajuda entender esse tipo de família são a famílias de coronéis do ciclo do café paulista do sec. XIX e início do XX. A estrutura era semelhante. Tanto nesta quanto na família greco-romana os parentes e amigos poderiam participar do negócio da família ou então serem prestadores de serviço em troca de acolhimento e proteção.
Isso significa que esse tipo de família não funcionava unicamente a partir de laços de sangue, mas de relações sociais e econômicas que traziam estabilidade e segurança ao grupo.
O cristianismo, como disse, assumiu essa estrutura e isso foi muito importante. Vejam como as figuras de páter-família e presbítero são praticamente idênticas em 1 Tm 3.1-7 (ali "bispo" é sinônimo de "presbítero", como ocorre em Tt 1.1-7). O governo e liderança familiar são centrais, também o testemunho da sociedade é fundamental. Notem como se dá a relação no v. 5: o presbítero precisa saber governar sua casa para poder governar a igreja de Deus. Por quê? Simplesmente por que a casa se torna a igreja!
Por isso mesmo o relacionamento de Timóteo com os crentes deve ser aquele das relações familiares (1 Tm 5.1-2), e as orientações familiares visam todos: maridos, mulheres, filhos e escravos. Por quê? Por que essas relações se estruturam dentro da família/igreja e elas podem definir o sucesso ou insucesso de ambas.
Como fiz referência anteriormente, quando o páter-famílias se convertia todos os membros da casa o seguiam: esposa, filhos, parentes, amigos e escravos. Toda a estrutura da casa era afetada. No entanto, havia casos raros em que alguém não adotava a religião da casa, ou então, um membro de uma casa não cristã se tornava cristão. Isso gerava tensões, como pode ser visto em 1 Pe 2.18-19; 3.1.
Bem, voltemos a Filemon. Provavelmente ele era o presbítero/pastor da igreja doméstica de sua casa (embora o título não seja usado para ele, possivelmente pelo fato de que Paulo não queria enfatizar esse aspecto). Onésimo, exceção à regra, não aderiu à fé e, o que é pior, fugiu. O que fazer?
A questão não era apenas de relacionamento entre senhor - escravo. Era entre um líder cristão e alguém que estava submetido à estrutura dirigada por ele. A decisão de Filemon, castigar o escravo fugido ou perdoá-lo e recebê-lo como irmão em Cristo afetaria todo o grupo familiar/cristão reunido em sua casa. Afinal, se houvesse outros escravos, como eles reagiriam? Como os outros membros da casa julgariam a atitude de Filemon?
Nesse caso, a estrutura da igreja doméstica era muito importante. Qualquer que fosse a decisão de Filemon, provavelmente ela não seria questionada, nem pelo apóstolo Paulo. Ele possuía o direito espiritual que provinha de uma estrutura já estabelecida e central para toda a sociedade. Nesse caso, posso dizer mesmo que a autoridade espiritual derivava e tinha como suporte a autoridade familiar e social.
Essa estrutura foi responsável pelo desenvolvimento do cristianismo. Ela proveu estruturas para os cristãos, segurança para pregadores e apóstolos itinerantes, e mesmo respeito social diante de outras famílias.
Penso em nós hoje e acho que a inexistência de tal estrutura (e julgo ser impossível resgatá-la) é um dos pontos responsáveis por insucessos da igreja.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Filemon e as estruturas frágeis do cristianismo
Como disse na mensagem anterior, a carta a Filemon, por constar como último escrito de Paulo, ocupa igual papel de importância. Afinal, pensariam os responsáveis pelo fechamento do cânon cristão: " - o que teria um texto de cunho pessoal a dizer dentro da Escritura Sagrada?"
Tem, e muito a dizer. Não em uma perspectiva teológica abstrata, ocupada em determinar e descobrir o que passa pela mente de Deus e quais suas ordenanças para os seres humanos. Tem a dizer quando pensamos o cristianismo como um grupo de seguidores de Jesus que vivem historicamente em tensão dialética com a sociedade e consigo mesmo, como indivíduos e como um grupo com identidade própria.
É nesse contexto que vale a pena analisar Filemon. O Júlio seguiu um caminho: a relação pessoal - institucional. Eu tomo outra trilha. A das relações frágeis do cristianismo apresentadas na carta.
E aqui há um dado importante, que é reconhecer como o social é incorporado no literário. Em outras palavras, como os dados de contexto e determinação histórica e social são inseridos e, portanto, manipulados, retrabalhados no texto que lemos, propondo, a partir daí, outra realidade social.
Vejam o termo "prisioneiro". Paulo utiliza-o para referir-se a si mesmo como "prisioneiro de Cristo" (v.1 e 9), embora ele seja, de fato, prisioneiro do império romano. O termo é usado também em relação a Epafras, "prisioneiro comigo" (v. 23). Em que sentido? Prisioneiro em Cristo como Paulo? Ou prisioneiro do império, assim como Paulo? Nesse campo semântico podemos mencionar "escravo" (v. 16), atribuído a Onésimo em sentido concreto.
Mas o "prisioneiro" Paulo pode ter um "servo" (v. 13), referindo-se à gratidão da qual Filemon lhe é devedor, mas que é vivenciada por Onésimo, pelo menos por um tempo. Paulo, prisioneiro, sente "liberdade" para "ordenar" algo a Filemon. Ao mesmo tempo, o "escravo" Onésimo deve ser recebido por seu senhor como "irmão caríssimo" (v. 16).
As referências acima demonstram como os elementos concretos são retrabalhados por Paulo gerando, por vezes, novos sentidos, e às vezes sentidos ambíguos. O que determina essas escolhas? A visão "teológica" que coloca todos em um mesmo nível, como cristãos e, ao mesmo tempo, apresenta escala de valores, sendo Paulo, apóstolo, alguém com autoridade sobre outros cristãos.
Essas relações teológicas, no entanto, não são fixas, determinantes. Elas também assumem aspectos dinâmicos e tensos. O apóstolo espera "obediência" de Filemon ao receber novamente Onésimo. Mas ele "espera". Não pode exigir. Filemon ainda detém o poder supremo sobre seu escravo a partir das leis romanas. Cabe a ele decidir se abrirá mão de seu direito ou não. Mesmo o apelo a Filemon para que lembre que deve serviço de gratidão a Paulo é apenas um "apelo", sem força de ordenança.
Portanto, a carta releva que o cristianismo opera a partir dos elementos contextuais em que vive, sejam eles concretos ou simbólicos. Sobre ou ao lado deles, constrói uma visão própria de mundo que, para existir e funcionar, "depende" da adesão dos seguidores. Por isso mesmo, o cristianismo se constrói a partir de "estruturas frágeis" que não podem ser negadas.
Isso é muito importante em tempos em que o denominacionalismo, com suas doutrinas, definições e cargos tem se tornado mais importante do que o cristianismo; em tempos em que profetas, apóstolos e sei lá mais o quê tem se dado o direito de dirigir vidas de pessoas e determinar o que devem fazer ou não. Tudo isso é uma negação do caráter frágil do caminho de Jesus em que somos chamados a seguir.
Por isso mesmo é necessário fé, tolerância, humildade e amor. De todos para com todos. Quando essas características cristãs são abandonadas, surge a sombra negra e tenebrosa das instituições religiosas a oprimirem os cristãos e a sociedade.
Tem, e muito a dizer. Não em uma perspectiva teológica abstrata, ocupada em determinar e descobrir o que passa pela mente de Deus e quais suas ordenanças para os seres humanos. Tem a dizer quando pensamos o cristianismo como um grupo de seguidores de Jesus que vivem historicamente em tensão dialética com a sociedade e consigo mesmo, como indivíduos e como um grupo com identidade própria.
É nesse contexto que vale a pena analisar Filemon. O Júlio seguiu um caminho: a relação pessoal - institucional. Eu tomo outra trilha. A das relações frágeis do cristianismo apresentadas na carta.
E aqui há um dado importante, que é reconhecer como o social é incorporado no literário. Em outras palavras, como os dados de contexto e determinação histórica e social são inseridos e, portanto, manipulados, retrabalhados no texto que lemos, propondo, a partir daí, outra realidade social.
Vejam o termo "prisioneiro". Paulo utiliza-o para referir-se a si mesmo como "prisioneiro de Cristo" (v.1 e 9), embora ele seja, de fato, prisioneiro do império romano. O termo é usado também em relação a Epafras, "prisioneiro comigo" (v. 23). Em que sentido? Prisioneiro em Cristo como Paulo? Ou prisioneiro do império, assim como Paulo? Nesse campo semântico podemos mencionar "escravo" (v. 16), atribuído a Onésimo em sentido concreto.
Mas o "prisioneiro" Paulo pode ter um "servo" (v. 13), referindo-se à gratidão da qual Filemon lhe é devedor, mas que é vivenciada por Onésimo, pelo menos por um tempo. Paulo, prisioneiro, sente "liberdade" para "ordenar" algo a Filemon. Ao mesmo tempo, o "escravo" Onésimo deve ser recebido por seu senhor como "irmão caríssimo" (v. 16).
As referências acima demonstram como os elementos concretos são retrabalhados por Paulo gerando, por vezes, novos sentidos, e às vezes sentidos ambíguos. O que determina essas escolhas? A visão "teológica" que coloca todos em um mesmo nível, como cristãos e, ao mesmo tempo, apresenta escala de valores, sendo Paulo, apóstolo, alguém com autoridade sobre outros cristãos.
Essas relações teológicas, no entanto, não são fixas, determinantes. Elas também assumem aspectos dinâmicos e tensos. O apóstolo espera "obediência" de Filemon ao receber novamente Onésimo. Mas ele "espera". Não pode exigir. Filemon ainda detém o poder supremo sobre seu escravo a partir das leis romanas. Cabe a ele decidir se abrirá mão de seu direito ou não. Mesmo o apelo a Filemon para que lembre que deve serviço de gratidão a Paulo é apenas um "apelo", sem força de ordenança.
Portanto, a carta releva que o cristianismo opera a partir dos elementos contextuais em que vive, sejam eles concretos ou simbólicos. Sobre ou ao lado deles, constrói uma visão própria de mundo que, para existir e funcionar, "depende" da adesão dos seguidores. Por isso mesmo, o cristianismo se constrói a partir de "estruturas frágeis" que não podem ser negadas.
Isso é muito importante em tempos em que o denominacionalismo, com suas doutrinas, definições e cargos tem se tornado mais importante do que o cristianismo; em tempos em que profetas, apóstolos e sei lá mais o quê tem se dado o direito de dirigir vidas de pessoas e determinar o que devem fazer ou não. Tudo isso é uma negação do caráter frágil do caminho de Jesus em que somos chamados a seguir.
Por isso mesmo é necessário fé, tolerância, humildade e amor. De todos para com todos. Quando essas características cristãs são abandonadas, surge a sombra negra e tenebrosa das instituições religiosas a oprimirem os cristãos e a sociedade.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Filemon - pessoal versus institucional
Gosto de ler essa pequena cartinha - um bilhete - sob a ótica da polêmica pessoal versus institucional. Isto tem a ver com minha biografia cristã. Em minha conversão, tornei-me membro de uma igreja evangélica cuja ideologia era basicamente a "mude a pessoa que a sociedade muda junto". Uma ideologia confusa - que confundia o pessoal e o institucional, subordinando este àquele. Depois, ao longo da minha trajetória no cristianismo, fui ficando ecumênico e "latino-americano", descobrindo uma nova ideologia: "não basta mudar a pessoa, é preciso transformar a sociedade". Então, o institucional subordinava o pessoal. Posições opostas, mas dentro do mesmo binarismo. Dois fracassos.
Agora estou aprendendo - tenho certeza que uma alternativa àquelas ideologias é possível, mas não posso descrevê-la contundementemente - um outro jeito de pensar e viver a fé cristã na sociedade globalizada. Pessoal e institucional se sobredeterminam o tempo todo, um tentando incorporar e assimilar o outro à sua lógica. Não conseguem, por isso sempre se posicionam contra, um é o verso-reverso-anverso do outro.
Volto ao bilhete paulino. A polêmica é simultaneamente institucional e pessoal. Paulo, na cadeia, escravo do Império, escreve um bilhetinho ao dono de um escravo fugido - Filemon, carcereiro existencial de Onésimo (útil), inútil servidor. Reconhece o direito do proprietário. A instituição da escravidão não é condenada, não é denunciada, não é demonizada. Apenas é reconhecida como um dado, como elemento da facticidade social no império. Paulo brinca, joga com a facticidade. O vocabulário do bilhete flutua o tempo todo entre o pedir e o ordenar, entre o pessoal e o institucional. Não se trata de negar o institucional pelo pessoal.
É diferente. Trata-se de pensar o institucional a partir do pessoal (e vice-versa). A questão é a dos limites. Paulo pede a Filemon que faça o bem. O bem não pode ser imposto, não pode ser institucionalizado. Bondade é ação pessoal, é paixão humana. Instituições são impessoais, desumanas, apesar de feitas e dirigidas por seres humanos - demasiadamente humanos, brincando com Nietzsche. O pessoal não pode invadir o institucional e vice-versa. Por isso, Paulo pede, suplica, roga, apela ao coração de Filemon. Assim, estabelece limites: quando lidamos com pessoas, sempre temos de tratá-las de modo pessoal, nunca institucional.
A instituição dá a Onésimo uma identidade: escravo. Paulo oferece outra: irmão. O contrato social despersonaliza e desumaniza ao tentar humanizar. A aliança divina personaliza e humaniza ao dizer à instituição: fique dentro de seus limites - não use as pessoas, não as abuse, não faça delas escravas. Mas a instituição, embora despersonalizadora, não é demonizada. Eu diria, tem um lugar (lugarzinho????). Pois em um mundo marcado pelo pecado, é preciso também despersonalizar e institucionalizar os mecanismos de sujeição, de dominação, de opressão, de exclusão. Senão, teríamos de ser bonzinhos com as instituições dominadoras. Mas, instituições não são pessoas. Têm de ser tratadas institucionalmente, e não pessoalmente. Que a escravidão permaneça enquanto instituição. Que a irmandade permaneça como modo de ser e de viver em conjunto.
Pessoas são seres vivos, cujo direito à vida é insuperável. Instituições não. Elas não são seres, são coisas, efeitos de ações e relações. Assim, podem morrer. Melhor, devem morrer. E morrem!
Agora estou aprendendo - tenho certeza que uma alternativa àquelas ideologias é possível, mas não posso descrevê-la contundementemente - um outro jeito de pensar e viver a fé cristã na sociedade globalizada. Pessoal e institucional se sobredeterminam o tempo todo, um tentando incorporar e assimilar o outro à sua lógica. Não conseguem, por isso sempre se posicionam contra, um é o verso-reverso-anverso do outro.
Volto ao bilhete paulino. A polêmica é simultaneamente institucional e pessoal. Paulo, na cadeia, escravo do Império, escreve um bilhetinho ao dono de um escravo fugido - Filemon, carcereiro existencial de Onésimo (útil), inútil servidor. Reconhece o direito do proprietário. A instituição da escravidão não é condenada, não é denunciada, não é demonizada. Apenas é reconhecida como um dado, como elemento da facticidade social no império. Paulo brinca, joga com a facticidade. O vocabulário do bilhete flutua o tempo todo entre o pedir e o ordenar, entre o pessoal e o institucional. Não se trata de negar o institucional pelo pessoal.
É diferente. Trata-se de pensar o institucional a partir do pessoal (e vice-versa). A questão é a dos limites. Paulo pede a Filemon que faça o bem. O bem não pode ser imposto, não pode ser institucionalizado. Bondade é ação pessoal, é paixão humana. Instituições são impessoais, desumanas, apesar de feitas e dirigidas por seres humanos - demasiadamente humanos, brincando com Nietzsche. O pessoal não pode invadir o institucional e vice-versa. Por isso, Paulo pede, suplica, roga, apela ao coração de Filemon. Assim, estabelece limites: quando lidamos com pessoas, sempre temos de tratá-las de modo pessoal, nunca institucional.
A instituição dá a Onésimo uma identidade: escravo. Paulo oferece outra: irmão. O contrato social despersonaliza e desumaniza ao tentar humanizar. A aliança divina personaliza e humaniza ao dizer à instituição: fique dentro de seus limites - não use as pessoas, não as abuse, não faça delas escravas. Mas a instituição, embora despersonalizadora, não é demonizada. Eu diria, tem um lugar (lugarzinho????). Pois em um mundo marcado pelo pecado, é preciso também despersonalizar e institucionalizar os mecanismos de sujeição, de dominação, de opressão, de exclusão. Senão, teríamos de ser bonzinhos com as instituições dominadoras. Mas, instituições não são pessoas. Têm de ser tratadas institucionalmente, e não pessoalmente. Que a escravidão permaneça enquanto instituição. Que a irmandade permaneça como modo de ser e de viver em conjunto.
Pessoas são seres vivos, cujo direito à vida é insuperável. Instituições não. Elas não são seres, são coisas, efeitos de ações e relações. Assim, podem morrer. Melhor, devem morrer. E morrem!
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Relações literárias, teológicas e sociais em Filemon
Proponho um novo texto para discussão.
Neste caso, opto pela pequenina carta do apóstolo Paulo a Filemon, última de suas cartas no cânon cristão.
Cabe lembrar aqui seu espaço canônico. As cartas paulinas estão divididas, certamente por um critério de importância implícito, em dois grandes grupos: cartas para comunidades e cartas pessoais. Aquele começa com Romanos e termina com 2 Tessalonicenses. O grupo das pessoais inicia com 1 Timóteo e termina com Filemon.
As cartas às igrejas são mais importantes do que aquelas a indivíduos. E, entre estas, a de Filemon ocupa o último lugar.
Talvez sua desimportância tenha motivos razoáveis. Talvez não. O fato é que é um texto muito interessante para ser analisado a partir de diversos ângulos. Aqui proponho alguns deles.
O literário, ligado à estrutura das cartas greco-romanas.
O teológico, vinculado à discussão a respeito da relação do apóstolo com seus discípulos e amigos, e de seu caráter bivalente como "prisioneiro".
O social, que engloba o papel de Paulo dentro do cristianismo, e, principalmente, sua relação com outro cristão, Filemon, a partir do escravo fugitivo e agora tornado cristão, Onésimo. Reside aqui o principal e mais interessante assunto desta cartinha.
Como o cristianismo, com uma mensagem libertadora, se movia entre os grilhões da escravidão tão comum naqueles tempos? Como o cristianismo geria as tensões internas entre senhores e escravos? E muitas outras perguntas.
Como podem ver, esta primeira mensagem é meramente provocadora. O objetivo é propor um diálogo.
Neste caso, opto pela pequenina carta do apóstolo Paulo a Filemon, última de suas cartas no cânon cristão.
Cabe lembrar aqui seu espaço canônico. As cartas paulinas estão divididas, certamente por um critério de importância implícito, em dois grandes grupos: cartas para comunidades e cartas pessoais. Aquele começa com Romanos e termina com 2 Tessalonicenses. O grupo das pessoais inicia com 1 Timóteo e termina com Filemon.
As cartas às igrejas são mais importantes do que aquelas a indivíduos. E, entre estas, a de Filemon ocupa o último lugar.
Talvez sua desimportância tenha motivos razoáveis. Talvez não. O fato é que é um texto muito interessante para ser analisado a partir de diversos ângulos. Aqui proponho alguns deles.
O literário, ligado à estrutura das cartas greco-romanas.
O teológico, vinculado à discussão a respeito da relação do apóstolo com seus discípulos e amigos, e de seu caráter bivalente como "prisioneiro".
O social, que engloba o papel de Paulo dentro do cristianismo, e, principalmente, sua relação com outro cristão, Filemon, a partir do escravo fugitivo e agora tornado cristão, Onésimo. Reside aqui o principal e mais interessante assunto desta cartinha.
Como o cristianismo, com uma mensagem libertadora, se movia entre os grilhões da escravidão tão comum naqueles tempos? Como o cristianismo geria as tensões internas entre senhores e escravos? E muitas outras perguntas.
Como podem ver, esta primeira mensagem é meramente provocadora. O objetivo é propor um diálogo.
sábado, 23 de outubro de 2010
Cantares. Amor público ou privado?
O texto que temos discutido, assim como o livro que o contém devem, necessariamente, despertar uma série de questionamentos de nossa parte, como cristãos do século XXI.
Obviamente elas se inserem, antes mesmo de aspectos técnicos de interpretação, como a exegese do texto hebraico, em uma história da leitura e da interpretação do livro. Essa faceta já foi abordada, mas aproveito para destacar apenas um aspecto. O fato de que toda leitura é uma releitura, é uma apropriação que gera sentidos a partir do encontro de um texto imutável com leitores mutáveis, muito mutáveis. Já discutimos isso no blog.
É esse fato epistemológico que deve nortear não apenas as análises acadêmicas, mas também nossa postura como leitores em busca de fruição e de orientação (norma, segundo o Júlio) em Cantares. Quero dizer que precisamos ter consciência de que quando interpretamos o livro como um libelo ao amor, como uma proclamação de seu poder, essa interpretação só é possível pelo contexto em que vivemos hoje.
Certamente a 80 anos ela seria, se não impossível, pelo menos muito rara. No contexto de casamentos tratados como negócios que visavam a manutenção do poder de dinastias e relações políticas entre famílias, o olhar para Cantares seria outro.
Dentro desse contexto quero entrar no tema de meu post. A revolução sexual dos anos 60 trouxe a discussão e liberação sexual, exemplificadas na descoberta da pílula anticoncepcional. O interessante é que, na contramão, a igreja passou a tratar o sexo quase que exclusivamente como algo privado. Isto é, não era assunto para ser abordado em público. No Brasil, o tema vinha à tona apenas quando se tinha que disciplinar meninas pegas com "barriga grande".
Amor: público ou privado? Essa é a dúvida agônica pela qual a igreja evangélica passa atualmente. Pode-se dizer que a igreja tem tratado do assunto com seus membros mediante classes e encontros de casais. Bem, fora as raras exceções, os temas são os de sempre, e geralmente não atingem os problemas que deveriam. Se não, por que entre os evangélicos continua a aumentar o número de divórcios? E muito provavelmente outros problemas, como o aborto não são tão raros?
O amor e o sexo são tratados publicamente quase como uma brincadeira. Fala-se aquilo que todos sabem, aquilo que é pasteurizado e que não chocará ninguém e não trará denúncias de líderes moralistas, que dirão que seus pastores e lideranças estão falando de obcenidades. Enquanto isso, suas famílias, suas filhas...
O amor, e, principalmente o sexo, são temas públicos na sociedade. Mas de forma banalizada. O Júlio abordou essa questão em seu último post. As sacanagens são exaltadas, as piadas picantes são constantes, e a pureza das meninas do interior é execrada. Além do sexo ser visto como uma fonte imensa de renda através da mídia que nos traz filmes, propagandas, livros etc, etc, etc.
E nós? O amor e o sexto continuam no privado. E, nesse caso, somos parecidos com a sociedade. Há sacanagem e há moralismo. Desculpem a rudeza.
Mas é mais do que hora de trazermos nossas questões à tona. De termos a coragem evangélica (que vem do envangelho) de falarmos a verdade, para que A Verdade, Jesus Cristo, nos liberte de nossos temores, fraquezas e mesmo vícios.
Somos nós, em tese, que temos condições de discutir e praticar o amor/sexo de forma bonita, prazerosa, santa. Se não recuperarmos esse privilégio, continuaremos sendo uma fraca e triste imagem, seremos com o Quixote, "Cavaleiros da Triste Figura", em um mundo semelhante a nós: escuro, triste e doente.
Talvez, contrariando um pouco a proposta de Cantares, seja hora de "despertarmos o amor". Isso é arriscado. Mas é a comunidade de Jesus Cristo, habitada pelo Espírito Santo, que deve assumir esse risco.
Obviamente elas se inserem, antes mesmo de aspectos técnicos de interpretação, como a exegese do texto hebraico, em uma história da leitura e da interpretação do livro. Essa faceta já foi abordada, mas aproveito para destacar apenas um aspecto. O fato de que toda leitura é uma releitura, é uma apropriação que gera sentidos a partir do encontro de um texto imutável com leitores mutáveis, muito mutáveis. Já discutimos isso no blog.
É esse fato epistemológico que deve nortear não apenas as análises acadêmicas, mas também nossa postura como leitores em busca de fruição e de orientação (norma, segundo o Júlio) em Cantares. Quero dizer que precisamos ter consciência de que quando interpretamos o livro como um libelo ao amor, como uma proclamação de seu poder, essa interpretação só é possível pelo contexto em que vivemos hoje.
Certamente a 80 anos ela seria, se não impossível, pelo menos muito rara. No contexto de casamentos tratados como negócios que visavam a manutenção do poder de dinastias e relações políticas entre famílias, o olhar para Cantares seria outro.
Dentro desse contexto quero entrar no tema de meu post. A revolução sexual dos anos 60 trouxe a discussão e liberação sexual, exemplificadas na descoberta da pílula anticoncepcional. O interessante é que, na contramão, a igreja passou a tratar o sexo quase que exclusivamente como algo privado. Isto é, não era assunto para ser abordado em público. No Brasil, o tema vinha à tona apenas quando se tinha que disciplinar meninas pegas com "barriga grande".
Amor: público ou privado? Essa é a dúvida agônica pela qual a igreja evangélica passa atualmente. Pode-se dizer que a igreja tem tratado do assunto com seus membros mediante classes e encontros de casais. Bem, fora as raras exceções, os temas são os de sempre, e geralmente não atingem os problemas que deveriam. Se não, por que entre os evangélicos continua a aumentar o número de divórcios? E muito provavelmente outros problemas, como o aborto não são tão raros?
O amor e o sexo são tratados publicamente quase como uma brincadeira. Fala-se aquilo que todos sabem, aquilo que é pasteurizado e que não chocará ninguém e não trará denúncias de líderes moralistas, que dirão que seus pastores e lideranças estão falando de obcenidades. Enquanto isso, suas famílias, suas filhas...
O amor, e, principalmente o sexo, são temas públicos na sociedade. Mas de forma banalizada. O Júlio abordou essa questão em seu último post. As sacanagens são exaltadas, as piadas picantes são constantes, e a pureza das meninas do interior é execrada. Além do sexo ser visto como uma fonte imensa de renda através da mídia que nos traz filmes, propagandas, livros etc, etc, etc.
E nós? O amor e o sexto continuam no privado. E, nesse caso, somos parecidos com a sociedade. Há sacanagem e há moralismo. Desculpem a rudeza.
Mas é mais do que hora de trazermos nossas questões à tona. De termos a coragem evangélica (que vem do envangelho) de falarmos a verdade, para que A Verdade, Jesus Cristo, nos liberte de nossos temores, fraquezas e mesmo vícios.
Somos nós, em tese, que temos condições de discutir e praticar o amor/sexo de forma bonita, prazerosa, santa. Se não recuperarmos esse privilégio, continuaremos sendo uma fraca e triste imagem, seremos com o Quixote, "Cavaleiros da Triste Figura", em um mundo semelhante a nós: escuro, triste e doente.
Talvez, contrariando um pouco a proposta de Cantares, seja hora de "despertarmos o amor". Isso é arriscado. Mas é a comunidade de Jesus Cristo, habitada pelo Espírito Santo, que deve assumir esse risco.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Cantares: "regra de fé e prática"
O título deste post é, certamente, provocativo. Talvez até abusivo. Mas não o trocarei.
Por quê?
Porque quando a Bíblia diz pra gente que amar é bom, que gozar é bom, que viver é bom - ela tem de ser mesmo a regra da fé e a regra da prática. O problema é que a gente escolhe mal os textos que servirão de regra ...
Mas há outro problema também. A metáfora da "regra" é muito restritiva, excessivamente diretiva. Como usá-la? Desconstrutivamente. Imaginando uma regra que não seja regra, a regra-não-regrada-nem-regradora da fé e da prática. Uma regra-desregrada, diferida derrideanamente - entendida como mera e pálida lei que sonha em ser justiça.
Cantares é regra nesse sentido desconstruído. O amor é para ser praticado segundo a regra - a regra de não-ter-regra, a regra de se deixar surpreender e conduzir pelo amor que está aquém da regra, sob a regra, anterior à regra. O amor cuja regra-desregrada é I Coríntios 13 - tudo pode, tudo espera, tudo crê, tudo suporta ...
Uma regra que desregra as técnicas e as performances "sexuais" dos especialistas em transa, sexo, orgasmo & Cia. Ltda. Uma regra que desregra as interdições, tabus e mandamentos dos especialistas, pseudo-derrideanos, em diferir (sic!) a prática do ato sexual e aprisioná-la ao sagrado-matrimônio-legitimado-pelo-cartório-não-tão-sagrado-assim.
Ou, como poderia ter dito Paulo, "contra estas coisas, não há regra!"
Por quê?
Porque quando a Bíblia diz pra gente que amar é bom, que gozar é bom, que viver é bom - ela tem de ser mesmo a regra da fé e a regra da prática. O problema é que a gente escolhe mal os textos que servirão de regra ...
Mas há outro problema também. A metáfora da "regra" é muito restritiva, excessivamente diretiva. Como usá-la? Desconstrutivamente. Imaginando uma regra que não seja regra, a regra-não-regrada-nem-regradora da fé e da prática. Uma regra-desregrada, diferida derrideanamente - entendida como mera e pálida lei que sonha em ser justiça.
Cantares é regra nesse sentido desconstruído. O amor é para ser praticado segundo a regra - a regra de não-ter-regra, a regra de se deixar surpreender e conduzir pelo amor que está aquém da regra, sob a regra, anterior à regra. O amor cuja regra-desregrada é I Coríntios 13 - tudo pode, tudo espera, tudo crê, tudo suporta ...
Uma regra que desregra as técnicas e as performances "sexuais" dos especialistas em transa, sexo, orgasmo & Cia. Ltda. Uma regra que desregra as interdições, tabus e mandamentos dos especialistas, pseudo-derrideanos, em diferir (sic!) a prática do ato sexual e aprisioná-la ao sagrado-matrimônio-legitimado-pelo-cartório-não-tão-sagrado-assim.
Ou, como poderia ter dito Paulo, "contra estas coisas, não há regra!"
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