Espero que vocês tenham gostado da experiência de ler imagem. Por meio das imagens nós participamos de leituras feitas e recriadas por outras pessoas, em outro código. O código visual, como vimos, organiza a narrativa em seus elementos básicos - espaço e tempo - de forma diferente do texto. A imagem nos apresenta de uma vez o que o texto faz em sequência. Escreve por meio de registro, alinhamento, perspectiva, luz, cor, etc o que o texto apresenta como sequência de conceitos.
Chagall era um leitor perspicaz do texto bíblico. Tive a oportunidade de ver em 2009 em Belo Horizonte a exposição de obras de Chagall que incluia a sua série bíblica. Realmente impressiona a forma como ele recria os textos em suas imagens. A imagem que apresentei pra vocês é especialmente interessante pois parece que não corresponde a um versículo em especial. O tema do encontro de Rute e Boáz é pressuposto, mas não narrado no texto. Ou melhor, não como imaginaríamos. No texto ele é marcado por um clima que para nós não tem nada de romântico. Boáz, depois de ter notado a moça recolhendo sobras de espigas em seu campo, dá ordens a seus servos para que não a molestem e permitam que ela possa beber água com eles (?!). No mais, no encontro é pedido para que ela não vá colher em outro campo. O texto bíblico é marcado pelos limites de sua cultura. Imaginem como um homem poderoso abordaria nos dias de hoje uma mulher pobre e dependente pela qual ele se apaixona. Boáz não faz a corte, nem esbanja generosidade, pelo menos em nossa perspectiva. Mas o leitor Chagall pressupõe algo que deve estar no texto, algo fundamental: um encontro entre homem e mulher. Neste encontro nada é gratuíto. Boáz já sabe quem é Rute e de seu cuidado com sua sogra. Sua aproximação, por mais fria que pareça para a nossa cultura, é interessada. Da mesma forma agirá Rute nas próximas cenas. Trata-se de um encontro amoroso. A imagem não deixa dúvidas sobre isso.
Vamos à imagem. Há movimentos e cores em destaque. Os braços são marcantes. Ainda que o corpo de Boáz seja (e esteja colocado) mais alto é no de Rute que se observa toda a expressividade. Os gestos dela são mais fortes, digamos: dilacerantes. De Boáz vemos os dois braços, mas em postura claramente defensiva. De Rute vemos apenas um, em movimento de ataque. Ele, mais alto que ela, se defende; mesmo olhando de cima para baixo, se sujeita. O olhar dela é ferino frontal e marcante. Está dado o encontro amoroso. Boáz, o senhor de terras, foi fatalmente ferido pela pobre moabita. Vejamos o jogo de cores na imagem. Temos uma bola vermelha no lado de Boáz. Não saberia dizer o que é isso. Mas podemos interpretar a força da cor com o fato de que em todo o vestido de Rute há manchas semi-circulares vermelhas, no formato de seu braço, ele também manchado de vermelho. O gesto dela parece dilacerar o rosto de Boáz, este também manchado de vermelho. A cor aqui expressa paixão, desejo erótico, em potência ao lado de Boáz, em movimento no corpo e no ataque de Rute sobre Boáz. O olhar dela é carinhoso e sedutor, o dele cheio de temor e sujeição. A imagem ressalta o que não está no texto, mas o que está em nossas expectativas do encontro em homem e mulher e no fato de que a relação entre o senhor e a serva são invertidos neste momento de encontro entre homem e mulher.
Vamos analisar mais duas imagens de Chagall sobre o livro de Rute?

