Já indiquei na última mensagem que o primeiro capítulo do livro de Rute apresenta uma tensão entre as vozes do narrador e de Noemi em relação a Deus. Enquanto aquele é mais objetivo e menos “teológico” em suas avaliações, Noemi não economiza juízos a respeito da forma como Deus a tem tratado negativamente, pesando sobre ela sua mão.
Pretendo nesta mensagem indicar outros aspectos que cooperam para a criação dessa tensão, cujo alvo é sempre o leitor, visando de certa forma desestabilizá-lo no princípio da história. Em outra linguagem o Júlio, assim como as imagens trazidas pelo Paulo, já tem apresentado esses aspectos, inclusive com mais sofisticação do que farei aqui.
Um primeiro dado a ser observado em termos de uma narrativa instável está ligado à força motora do capítulo. Elimeleque, Noemi e os filhos Malom e Quiliom saem de Belém (que em hebraico significa “casa de pão”) em busca de alimento, de pão (entendido como símbolo dos alimento básico para a sobrevivência), visto que na “casa de pão” ele inexistia. Uma vez em Moabe, onde a sobrevivência torna-se cada vez mais difícil com a ausência de esposo e filhos, Noemi houve falar que o pão, outrora inexiste em Belém, volta a ser concedido por Deus naquela cidade. Portanto, para lá de dirigem Noemi e Rute. Em outras palavras, parece que Noemi e os familiares nunca estão no lugar certo. Quando saem, o pão aparece. Quando chegam, o pão desaparece. Parece jogo de esconde-esconde.
Uma ironia se manifesta pelo fato de que, se inicialmente Noemi poderia ter-se considerado sofredora por ter que sair de sua terra em busca de alimento, ao final ela reflete que naqueles tempos ela era “ditosa” (v. 21). Afinal, se anteriormente faltava pão, que parecia ser o elemento mais importante para a vida, ainda havia esposo e filhos. Quando retorna para Belém ainda falta o pão, mas há outras ausências. O marido e os filhos não estão mais presentes. Ela tem como companhia apenas Rute a estrangeira.
Uma última instabilidade textual se dá quando o narrador apresenta os discursos de Noemi e Rute. Noemi, a hebreia, que conhecia Yahweh, o critica fortemente por tê-la castigado (conforme comentei na mensagem anterior). Rute, por sua vez, a moabita estrangeira, não titubeia, mesmo diante do sofrimento da sogra, ao dizer que “[...] o teu Deus é o meu Deus” (v. 16), recusando-se a seguir o conselho de Noemi de voltar para seus deuses (v. 15). Talvez Noemi estivesse pensando que os deuses moabitas seriam mais compreensivos com Rute do que Yahweh fora com ela. Assim, poderíamos dizer que a temente a Deus se afasta dele, enquanto a ímpia o recebe como seu Deus.
Como disse no início, tais aspectos narrativos são estratégias que visam atingir-nos como leitores. Julgo que o objetivo é que não nos apressemos em fazer juízos e comentários a respeito da ação das mulheres. Afinal é fácil, do conforto de nossos empregos, casas e famílias, avaliarmos aqueles que nada têm e tudo perderam. As instabilidades e ironias narrativas aprofundam os sentimentos de perda e ao mesmo tempo as opções de fidelidade. Elas querem nos fazer pensar.
P.S. Com esta mensagem encerro meus comentários ao primeiro capítulo do livro de Rute.
sexta-feira, 4 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Rute 1: uma segunda (e última) leitura das paixões
O trecho de 1,7-19ª tematiza o diálogo entre Noemi e suas duas noras, moabitas (não-israelitas). Noemi, amargurada com sua situação (ela considerava que YHWH pesara a mão sobre ela), oferece uma escapatória às noras – que voltem para “a casa de sua mãe” e “cada uma para seu marido” (esperança patriarcal, pois ambas eram viúvas, e Noemi considera, logicamente, que seria mais fácil para elas se casarem em sua própria terra). Orfa aceita o argumento de Noemi e volta. Rute, porém, rejeita a argumentação de Noemi e apresenta razões passionais: (a) ela se “apegou” a Noemi, verbo cujo uso geográfico indica proximidade, estar em algum lugar, e em uso passional denota fidelidade, “apego”, companheirismo. Em outras palavras, o apego de Rute a Noemi era mais intenso do que seu apego à sua terra e família de origem – dentre duas fidelidades, Rute escolheu a mais recente em sua vida, a fidelidade a Noemi, seu deus e sua cultura; (b) há uma paixão “negativa” “não me instes ... & me obrigues a não ... (só um verbo no hebraico)” – o verbo hebraico tem um uso relativo a uma espécie de pressão benigna, mas também pode ser usado para uma pressão “maligna”, e a tradução de Almeida segue esta possibilidade, com dois verbos em português para dar o sentido da intensidade passional – poderíamos traduzir mais ou menos assim “Noemi, não me atormentes ...”. Rute vê como um “tormento” a possibilidade de se afastar de Noemi a quem se havia apegado e com quem construíra sua nova identidade pessoal; (c) a resoluta fidelidade e apego de Rute a Noemi é descrita magistralmente pela narrativa, com um acúmulo de pares verbais que culmina numa auto-maldição; “16porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 17 Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.” Rute se entrega à YHWH, que poderia pesar a mão sobre ela, como pesara sobre Rute (na interpretação dela mesma, conforme o texto) – ou seja, a intensidade da fidelidade de Rute a Noemi é de tal monta, que ela preferia perder a vida sob o juízo divino do que perder a companhia de sua amiga e sogra; (d) Noemi, enfim, desiste de atormentá-la e se resigna a acolhê-la em sua companhia – uma atitude patética diante da amizade oferecida por Rute. À proposta de “aliança” (berith) de Rute, Noemi consegue apenas responder com resignação, posto que sua visão estava turvada por sua avaliação da desgraça que YHWH colocara sobre ela; (e) enfim, o verso 19ª retrata a fidelidade e o consenso entre ambas – foram juntas a Belém – sem, é claro, negar o relato antecedente do desnível entre a fidelidade de Rute e a resignação de Noemi.
Só para brincar um pouco de "recepção" - não é interessante como o texto retrata o modo pelo qual a crença religiosas e suas paixões afetam as relações entre pessoas? Awui, houve resignação, mas é comum haver a discórdia por causa de doutrinas, crenças, denominações ... como se o apego a Deus fosse uma razão suficiente para se desapegar das pessoas a quem queremos bem.
Só para brincar um pouco de "recepção" - não é interessante como o texto retrata o modo pelo qual a crença religiosas e suas paixões afetam as relações entre pessoas? Awui, houve resignação, mas é comum haver a discórdia por causa de doutrinas, crenças, denominações ... como se o apego a Deus fosse uma razão suficiente para se desapegar das pessoas a quem queremos bem.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Rute 1: uma primeira leitura das paixões
O capítulo 1 de Rute tem, claramente, duas partes principais: (a) 1-5 que descreve o cenário do estado inicial das personagens principais do livro; e (b) 6-22 que descreve o retorno de Rute e Noemi a Judá, com ênfase nos diálogos entre as mulheres-personagens. Vou focar meu post sobre a segunda parte.
1. Notinhas teóricas: (1) “As paixões, neste trabalho, devem, por conseguinte, ser entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito do estado [...] A descrição das paixões se faz, quase exclusivamente, em termos de sintaxe modal, ou seja, de relações modais e de suas combinações sintagmáticas [...] Para explicar as paixões, é preciso, portanto, recorrer às relações actanciais, aos programas e percursos narrativos [...] O sujeito do estado ... mantém laços afetivos ou passionais com o destinador, que o torna sujeito, e com o objeto, a que está relacionado por conjunção ou por disjunção, O estudo das paixões reabilita, no seio da semiótica, o sujeito do estado, posto de lado durante bom tempo.” (BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria do Discurso. Fundamentos Semióticos. São Paulo: Atual, 1988, p. 61.62) [...] “Os ‘estados de alma’ estão relacionados à existência modal do sujeito, ou seja, o sujeito segue um percurso, entendido como uma sucessão de estados passionais, tensos-disfóricos ou relaxados-eufóricos.” (BARROS, 1988:62)
(2) A análise semiótica das paixões também formulou, como dispositivo operacional de análise do nível narrativo, um percurso passional canônico em quatro fases, similares às do percurso narrativo canônico (que é um percurso do fazer):
disposição - sensibilização - emoção - moralização
[manipulação - competência - performance - sanção]
2. Notinhas práticas:
1) O cenário do capítulo aponta para paixões de falta. Noemi sofre a falta de “família, pão, terra” (Carlos Mesters). As paixões de falta podem ser fiduciárias (relativas às relações interpessoais) e/ou objetuais (relativas à falta de um objeto). O trecho de versos 1-5 apenas sugere paixões, deixando a quem lê a tarefa de tornar explícito o que está implícito. Meras sugestões: paixão fiduciária de insegurança (sem marido e filhos, Noemi não vislumbra presente nem futuro para ela na terra de Moab), bem como de saudade. Paixão objetual de ansiedade (ou aflição, ou angústia, ou desespero – a diferença está no grau da paixão, mas como o texto é lacônico, não podemos mais que especular ...).
2) Nos versos 6-7 se diz que as mulheres viúvas, sabendo da condição econômica em Judá, “começaram a voltar”. O percurso passional canônico pode ser assim descrito: (a) o cenário aflitivo de Moab aliado ao conhecimento do cenário não-aflitivo em Judá oferecem a disposição para a ação, modalizando o sujeito (Noemi e noras) da passividade para a atividade – para liquidar a paixão de falta, o sujeito precisa ser modalizado por uma paixão-do-querer; (b) a memória da vida em Judá antes da mudança para Moab (terra, parentes, amigos, familiaridade) e a nova descrição da relação do Senhor com seu povo (v. 6ª) concretizam a sensibilização de Noemi para voltar à terra, em busca da liquidação do que lhe faltava; (c) a performance ou emoção é a de ‘emunah (fé ou esperança) [trata-se de uma paixão fiduciária, pois é a nova percepção da ação de YHWH que faz Noemi voltar. A tradução do hebraico é complicada, pois não é clara a distinção entre fé, fidelidade e esperança nos usos do termo ‘emunah. Minha opção é fidelidade, que possui um tom mais intensamente pessoal do que fé e esperança]; e (d) a sanção está subentendida. A insistência de Rute pode ser um indicativo de que o texto vê a nova paixão de Noemi (e Rute) como positiva. Que, ao final da estória, no capítulo 4, Noemi seja exaltada pelas mulheres (4,14-17), é indicação do caráter positivo atribuído à fidelidade. Ressalto aqui a importância do texto atribuir às mulheres que voltam uma paixão fiduciária (e não uma objetual). Por mais que Noemi buscasse liquidar a falta sentida, sua modalização passional é pessoal – busca conjunção com YHWH para alcançar a conjunção com o sustento necessário. “Pão, família, terra”, sim – mas com e sob YHWH!
Se compararmos esta análise com o post anterior do Leonel, podemos ver como a fidelidade de Noemi para com YHWH é flutuantemente teimosa (persistente) – YHWH teria deixado de “pesar sua mão” sobre ela? Ou, como o verso 6 afirma, Noemi teria percebido que YHWH mudou de atitude para com “o povo”, mesmo que não o tenha mudando em relação a ela mesma? Na crença de Noemi, YHWH é retratado com paixões conflitantes e o modo como o texto faz tal descrição tenta preservar o caráter de YHWH, ao deixar no ar o motivo da Sua mão ter pesado sobre Noemi (Formosa), a tal ponto dela se ver como Mara (Amargurada)? Apesar da má-sorte que pesava sobre ela, Noemi decide voltar e se colocar, mais uma vez, debaixo do alcance da mão de YHWH. Não é à-toa que jamais na Bíblia Hebraica se descreve o ser humano como fiel! Nossa fidelidade é ambivalente.
Vou parando por aqui, para não estender demais o tamanho do post. No próximo quero tratar da paixão fiduciária que une Noemi e Rute. Antes de voltar ao texto, só uma notinha irônica: por que será que as homofóbicas igrejas evangélicas-protestantes (e também a Católica Romana), usam o diálogo entre Rute e Noemi em cerimônias de casamento, para expressar a fidelidade entre marido-mulher? Teriam sido, exegeticamente, Rute e Noemi transformadas em lésbicas avant-la-lettre?
1. Notinhas teóricas: (1) “As paixões, neste trabalho, devem, por conseguinte, ser entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito do estado [...] A descrição das paixões se faz, quase exclusivamente, em termos de sintaxe modal, ou seja, de relações modais e de suas combinações sintagmáticas [...] Para explicar as paixões, é preciso, portanto, recorrer às relações actanciais, aos programas e percursos narrativos [...] O sujeito do estado ... mantém laços afetivos ou passionais com o destinador, que o torna sujeito, e com o objeto, a que está relacionado por conjunção ou por disjunção, O estudo das paixões reabilita, no seio da semiótica, o sujeito do estado, posto de lado durante bom tempo.” (BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria do Discurso. Fundamentos Semióticos. São Paulo: Atual, 1988, p. 61.62) [...] “Os ‘estados de alma’ estão relacionados à existência modal do sujeito, ou seja, o sujeito segue um percurso, entendido como uma sucessão de estados passionais, tensos-disfóricos ou relaxados-eufóricos.” (BARROS, 1988:62)
(2) A análise semiótica das paixões também formulou, como dispositivo operacional de análise do nível narrativo, um percurso passional canônico em quatro fases, similares às do percurso narrativo canônico (que é um percurso do fazer):
disposição - sensibilização - emoção - moralização
[manipulação - competência - performance - sanção]
2. Notinhas práticas:
1) O cenário do capítulo aponta para paixões de falta. Noemi sofre a falta de “família, pão, terra” (Carlos Mesters). As paixões de falta podem ser fiduciárias (relativas às relações interpessoais) e/ou objetuais (relativas à falta de um objeto). O trecho de versos 1-5 apenas sugere paixões, deixando a quem lê a tarefa de tornar explícito o que está implícito. Meras sugestões: paixão fiduciária de insegurança (sem marido e filhos, Noemi não vislumbra presente nem futuro para ela na terra de Moab), bem como de saudade. Paixão objetual de ansiedade (ou aflição, ou angústia, ou desespero – a diferença está no grau da paixão, mas como o texto é lacônico, não podemos mais que especular ...).
2) Nos versos 6-7 se diz que as mulheres viúvas, sabendo da condição econômica em Judá, “começaram a voltar”. O percurso passional canônico pode ser assim descrito: (a) o cenário aflitivo de Moab aliado ao conhecimento do cenário não-aflitivo em Judá oferecem a disposição para a ação, modalizando o sujeito (Noemi e noras) da passividade para a atividade – para liquidar a paixão de falta, o sujeito precisa ser modalizado por uma paixão-do-querer; (b) a memória da vida em Judá antes da mudança para Moab (terra, parentes, amigos, familiaridade) e a nova descrição da relação do Senhor com seu povo (v. 6ª) concretizam a sensibilização de Noemi para voltar à terra, em busca da liquidação do que lhe faltava; (c) a performance ou emoção é a de ‘emunah (fé ou esperança) [trata-se de uma paixão fiduciária, pois é a nova percepção da ação de YHWH que faz Noemi voltar. A tradução do hebraico é complicada, pois não é clara a distinção entre fé, fidelidade e esperança nos usos do termo ‘emunah. Minha opção é fidelidade, que possui um tom mais intensamente pessoal do que fé e esperança]; e (d) a sanção está subentendida. A insistência de Rute pode ser um indicativo de que o texto vê a nova paixão de Noemi (e Rute) como positiva. Que, ao final da estória, no capítulo 4, Noemi seja exaltada pelas mulheres (4,14-17), é indicação do caráter positivo atribuído à fidelidade. Ressalto aqui a importância do texto atribuir às mulheres que voltam uma paixão fiduciária (e não uma objetual). Por mais que Noemi buscasse liquidar a falta sentida, sua modalização passional é pessoal – busca conjunção com YHWH para alcançar a conjunção com o sustento necessário. “Pão, família, terra”, sim – mas com e sob YHWH!
Se compararmos esta análise com o post anterior do Leonel, podemos ver como a fidelidade de Noemi para com YHWH é flutuantemente teimosa (persistente) – YHWH teria deixado de “pesar sua mão” sobre ela? Ou, como o verso 6 afirma, Noemi teria percebido que YHWH mudou de atitude para com “o povo”, mesmo que não o tenha mudando em relação a ela mesma? Na crença de Noemi, YHWH é retratado com paixões conflitantes e o modo como o texto faz tal descrição tenta preservar o caráter de YHWH, ao deixar no ar o motivo da Sua mão ter pesado sobre Noemi (Formosa), a tal ponto dela se ver como Mara (Amargurada)? Apesar da má-sorte que pesava sobre ela, Noemi decide voltar e se colocar, mais uma vez, debaixo do alcance da mão de YHWH. Não é à-toa que jamais na Bíblia Hebraica se descreve o ser humano como fiel! Nossa fidelidade é ambivalente.
Vou parando por aqui, para não estender demais o tamanho do post. No próximo quero tratar da paixão fiduciária que une Noemi e Rute. Antes de voltar ao texto, só uma notinha irônica: por que será que as homofóbicas igrejas evangélicas-protestantes (e também a Católica Romana), usam o diálogo entre Rute e Noemi em cerimônias de casamento, para expressar a fidelidade entre marido-mulher? Teriam sido, exegeticamente, Rute e Noemi transformadas em lésbicas avant-la-lettre?
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Narrador e personagens. A construção de sentido em Rute 1
Retomo a mensagem anterior a respeito do narrador em Rute a partir das perguntas que fiz e também interagindo com as mensagens do Júlio e do Paulo.
Muito instigantes as mensagens do Paulo. De fato, as imagens são elementos concretos que nos levam à abstração, uma vez que somos nós, os leitores (sim, lemos as imagens), que devemos dar sentido ao que vemos. E fazemos isso por intermédio de nossa imaginação. Os textos, por sua vez, também possuem concretude, mas ela é sensível e delicada, uma vez que necessitam da nossa interação para que façam sentido e se mantenham. Isso significa que somos nós, novamente os leitores, que damos um veredito final, pelo menos de forma concreta, ao textos com quem nos relacionamos. A diferença entre textos e imagens é que estas se impõem a nós, e, caso não as decifremos, elas permanecem como estão. Os textos não. Eles são mais frágeis e solicitam a todo instante que os completemos a partir de nossa compreensão. Há uma linha teórica na teoria literária chamada de estética da recepção que trabalha nesse perspectiva, sendo seus principais autores dois alemães: Wofgang Iser e Hans Robert Jauss, aos quais pode ser agregado o norte-americano Stanley Fish, este mais ligado às teorias do reader response.
Quanto ao que escreveu o Júlio, concordo com sua análise das questões de gênero que percorrem o livro. Eu também as noto no primeiro capítulo de Rute. Nele a preponderância das mulheres é apresentada claramente. Os homens, de fato, ficam em segundo plano, ocupando funções de figuração.
Volto às perguntas que fiz no post anterior:
- Qual a importância e o papel das vozes do narrador e dos personagens no texto?
- Como cada uma delas apresenta a ação de Deus?
- Há alguma contradição entre essas duas vozes?
Conforme esquematizei na mensagem anterior, o primeiro capítulo apresenta dois tipos de vozes: a do narrador e a dos personagens, principalmente Noemi. Ambas dão cores para a narrativa e a direcionam. Rute ainda é um personagem secundário, embora sua decisão de seguir terminantemente Noemi já prenuncie seu protagonismo que logo se manifestará.
Como as duas vozes se relacionam? Os autores normalmente atribuem sentido em suas narrativas através da voz do narrador ou quando o narrador cede espaço para a voz dos personagens. É o que acontece aqui. O narrador se manifesta no início (vs. 1-7) e no final (vs. 18-19a) com o objetivo de introduzir as cenas. No primeiro caso, ele prepara a cena do diálogo entre Noemi e as noras (vs. 8-17); e no segundo, a reação dos moradores de Belém, principalmente das mulheres, e a resposta de Noemi a elas (vs. 19b-21). O narrador volta à cena novamente para fechar o capítulo (v. 22).
A segunda pergunta apresenta uma diferença de perspectiva entre a voz do narrador e a de Noemi, principalmente em relação à ação de Deus.
No texto estudado o narrador exerce a função de descrever as situações, sem, no entanto, posicionar-se a respeito delas. Por exemplo, Elimeleque sai de Belém com a esposa em virtude da fome que assolava aquela terra. Não há nenhuma análise do narrador a esse respeito. A ação é apresentada como um dado lógico. A família vai para Moabe procurando sobreviver à penúria que os alcançou. Do mesmo modo, a morte do marido, o casamento dos filhos e a posterior morte deles são descritos de modo objetivo, sem nenhum comentário ou avaliação (apenas no v. 5 o narrador indica que ela "ficou desamparada de seus filhos", mas penso que isso não é uma afirmação de cunho dramático, mas sim concreto. Noemi não gozava mais da proteção dos filhos). De modo lógico o narrador registra que Noemi e as noras resolvem retornar para a terra de Judá (v. 7). Mesmo ao fechar o capítulo, o narrador se omite de registrar qualquer comentário a respeito de Noemi e Rute, e da situação em que se encontravam. Ele apenas informa que elas voltaram para Belém no início da sega da cevada.
É importante reconhecer que o narrador não faz nenhum comentário ou afirmativa a respeito da ação divina na situação vivida pelos personagens. Ele atua no plano da história humana, sem adentrar os céus para nos informar o que Deus fez ou não, o que pensava ou não da situação.
Por outro lado, Noemi é o agente narrativo que apresenta avaliações e decisões. Após a morte do marido ela toma as rédeas dos destinos da família. É ela que decide retornar para Judá. É ela que dispensa as noras para voltarem para suas famílias, argumentando que o futuro delas não seria nada auspicioso ao lado da sogra. É ela que aceita os argumentos de Rute e resolve levá-la consigo. É ela que, ao avaliar a experiência pela qual passava, resolve mudar de nome, tornando-se Mara.
Agora, mais importante do que isso é o fato de que, em oposição ao narrador que silencia a respeito da ação divina, Noemi por várias vezes interpreta os caminhos de Deus. Ela afirma categoricamente que “o Senhor descarregou a sua mão sobre mim” (v. 13), atribuindo a ele seu infortúnio; a alteração de seu nome deve-se à conclusão de que “grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” (v. 20); ela registra que era “ditosa” (feliz, afortunada) quando partiu de Belém, mas que o Senhor a fazia retornar para sua cidade “pobre”; e, finalmente, que “O Senhor se manifestou contra mmim e que o Todo-Poderoso me tem afligido” (v. 21).
Tais observações me levam à terceira pergunta. Há contradição entre as vozes do narrador e de Noemi? A resposta não é muito fácil. Isso explica a complexidade das narrativas bíblicas e, por isso mesmo, a fascinação que exercem no decorrer da História.
Podemos pensar que as duas vozes estão relacionadas em caráter complementar. O narrador apresentando os fatos, e Noemi interpretando-os e vinculando-os à ação divina. Mas isso, por si só, já é diferente do que acontece usualmente. Em geral é o narrador, que se apresenta em terceira pessoa, e por isso mesmo é onisciente, que traz à luz detalhes que são ocultos aos personagens e aos leitores. Aqui o personagem assume o papel de interpretar o que ocorre na narrativa.
Mas acho que há mais a ser dito. Penso que o elemento complementar é suplantado por outro. Pela oposição de posições. Afinal, se o narrador nada afirma sobre o que Deus faz, Noemi não teme em fazê-lo. Mas ela estará correta em sua interpretação? Por exemplo, ela está certa ao dizer que saiu feliz e afortunada de Belém em direção à Moabe e que foi Deus que a fez empobrecer? Estará correta ao dizer que Deus a tem afligido e agido contra ela? Não sei não...
Uma pista para pensar essa questão é um pequeno detalhe. Quando Rute fala também apresenta, de modo rápido, como compreendia a situação. Ela diz: “o teu Deus é o meu Deus” (v. 16) e: “Faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver” (v. 17). Seria lógico, se concordasse com Noemi a respeito da ação divina, querer que esse Deus fosse o Deus dela? E mais, colocar-se-ia nas mãos dele, para que fizesse dela o que bem lhe aprouvesse”, se concordasse com o ponto de vista de Noemi sobre Deus? Parece-me que Rute tem outro ponto de vista em relação a Deus.
Como é perceptível, este primeiro capítulo de Rute possui uma lógica própria, com algumas questões claras e outras não tão claras. É este último elemento que convida o leitor a contribuir com a construção de sentido. Esse é o aspecto ético intrínseco a toda narrativa. Nossas decisões diante dos caminhos propostos para que a história faça algum sentido.
Muito instigantes as mensagens do Paulo. De fato, as imagens são elementos concretos que nos levam à abstração, uma vez que somos nós, os leitores (sim, lemos as imagens), que devemos dar sentido ao que vemos. E fazemos isso por intermédio de nossa imaginação. Os textos, por sua vez, também possuem concretude, mas ela é sensível e delicada, uma vez que necessitam da nossa interação para que façam sentido e se mantenham. Isso significa que somos nós, novamente os leitores, que damos um veredito final, pelo menos de forma concreta, ao textos com quem nos relacionamos. A diferença entre textos e imagens é que estas se impõem a nós, e, caso não as decifremos, elas permanecem como estão. Os textos não. Eles são mais frágeis e solicitam a todo instante que os completemos a partir de nossa compreensão. Há uma linha teórica na teoria literária chamada de estética da recepção que trabalha nesse perspectiva, sendo seus principais autores dois alemães: Wofgang Iser e Hans Robert Jauss, aos quais pode ser agregado o norte-americano Stanley Fish, este mais ligado às teorias do reader response.
Quanto ao que escreveu o Júlio, concordo com sua análise das questões de gênero que percorrem o livro. Eu também as noto no primeiro capítulo de Rute. Nele a preponderância das mulheres é apresentada claramente. Os homens, de fato, ficam em segundo plano, ocupando funções de figuração.
Volto às perguntas que fiz no post anterior:
- Qual a importância e o papel das vozes do narrador e dos personagens no texto?
- Como cada uma delas apresenta a ação de Deus?
- Há alguma contradição entre essas duas vozes?
Conforme esquematizei na mensagem anterior, o primeiro capítulo apresenta dois tipos de vozes: a do narrador e a dos personagens, principalmente Noemi. Ambas dão cores para a narrativa e a direcionam. Rute ainda é um personagem secundário, embora sua decisão de seguir terminantemente Noemi já prenuncie seu protagonismo que logo se manifestará.
Como as duas vozes se relacionam? Os autores normalmente atribuem sentido em suas narrativas através da voz do narrador ou quando o narrador cede espaço para a voz dos personagens. É o que acontece aqui. O narrador se manifesta no início (vs. 1-7) e no final (vs. 18-19a) com o objetivo de introduzir as cenas. No primeiro caso, ele prepara a cena do diálogo entre Noemi e as noras (vs. 8-17); e no segundo, a reação dos moradores de Belém, principalmente das mulheres, e a resposta de Noemi a elas (vs. 19b-21). O narrador volta à cena novamente para fechar o capítulo (v. 22).
A segunda pergunta apresenta uma diferença de perspectiva entre a voz do narrador e a de Noemi, principalmente em relação à ação de Deus.
No texto estudado o narrador exerce a função de descrever as situações, sem, no entanto, posicionar-se a respeito delas. Por exemplo, Elimeleque sai de Belém com a esposa em virtude da fome que assolava aquela terra. Não há nenhuma análise do narrador a esse respeito. A ação é apresentada como um dado lógico. A família vai para Moabe procurando sobreviver à penúria que os alcançou. Do mesmo modo, a morte do marido, o casamento dos filhos e a posterior morte deles são descritos de modo objetivo, sem nenhum comentário ou avaliação (apenas no v. 5 o narrador indica que ela "ficou desamparada de seus filhos", mas penso que isso não é uma afirmação de cunho dramático, mas sim concreto. Noemi não gozava mais da proteção dos filhos). De modo lógico o narrador registra que Noemi e as noras resolvem retornar para a terra de Judá (v. 7). Mesmo ao fechar o capítulo, o narrador se omite de registrar qualquer comentário a respeito de Noemi e Rute, e da situação em que se encontravam. Ele apenas informa que elas voltaram para Belém no início da sega da cevada.
É importante reconhecer que o narrador não faz nenhum comentário ou afirmativa a respeito da ação divina na situação vivida pelos personagens. Ele atua no plano da história humana, sem adentrar os céus para nos informar o que Deus fez ou não, o que pensava ou não da situação.
Por outro lado, Noemi é o agente narrativo que apresenta avaliações e decisões. Após a morte do marido ela toma as rédeas dos destinos da família. É ela que decide retornar para Judá. É ela que dispensa as noras para voltarem para suas famílias, argumentando que o futuro delas não seria nada auspicioso ao lado da sogra. É ela que aceita os argumentos de Rute e resolve levá-la consigo. É ela que, ao avaliar a experiência pela qual passava, resolve mudar de nome, tornando-se Mara.
Agora, mais importante do que isso é o fato de que, em oposição ao narrador que silencia a respeito da ação divina, Noemi por várias vezes interpreta os caminhos de Deus. Ela afirma categoricamente que “o Senhor descarregou a sua mão sobre mim” (v. 13), atribuindo a ele seu infortúnio; a alteração de seu nome deve-se à conclusão de que “grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” (v. 20); ela registra que era “ditosa” (feliz, afortunada) quando partiu de Belém, mas que o Senhor a fazia retornar para sua cidade “pobre”; e, finalmente, que “O Senhor se manifestou contra mmim e que o Todo-Poderoso me tem afligido” (v. 21).
Tais observações me levam à terceira pergunta. Há contradição entre as vozes do narrador e de Noemi? A resposta não é muito fácil. Isso explica a complexidade das narrativas bíblicas e, por isso mesmo, a fascinação que exercem no decorrer da História.
Podemos pensar que as duas vozes estão relacionadas em caráter complementar. O narrador apresentando os fatos, e Noemi interpretando-os e vinculando-os à ação divina. Mas isso, por si só, já é diferente do que acontece usualmente. Em geral é o narrador, que se apresenta em terceira pessoa, e por isso mesmo é onisciente, que traz à luz detalhes que são ocultos aos personagens e aos leitores. Aqui o personagem assume o papel de interpretar o que ocorre na narrativa.
Mas acho que há mais a ser dito. Penso que o elemento complementar é suplantado por outro. Pela oposição de posições. Afinal, se o narrador nada afirma sobre o que Deus faz, Noemi não teme em fazê-lo. Mas ela estará correta em sua interpretação? Por exemplo, ela está certa ao dizer que saiu feliz e afortunada de Belém em direção à Moabe e que foi Deus que a fez empobrecer? Estará correta ao dizer que Deus a tem afligido e agido contra ela? Não sei não...
Uma pista para pensar essa questão é um pequeno detalhe. Quando Rute fala também apresenta, de modo rápido, como compreendia a situação. Ela diz: “o teu Deus é o meu Deus” (v. 16) e: “Faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver” (v. 17). Seria lógico, se concordasse com Noemi a respeito da ação divina, querer que esse Deus fosse o Deus dela? E mais, colocar-se-ia nas mãos dele, para que fizesse dela o que bem lhe aprouvesse”, se concordasse com o ponto de vista de Noemi sobre Deus? Parece-me que Rute tem outro ponto de vista em relação a Deus.
Como é perceptível, este primeiro capítulo de Rute possui uma lógica própria, com algumas questões claras e outras não tão claras. É este último elemento que convida o leitor a contribuir com a construção de sentido. Esse é o aspecto ético intrínseco a toda narrativa. Nossas decisões diante dos caminhos propostos para que a história faça algum sentido.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Transformações Narrativas
Em outra mensagem, descrevi as principais características do conceito semiótico de narratividade. Permitam-me, nesta, analisar aspectos da narratividade do livro de Rute, já dialogando com as leituras de Paulo e Leonel.
O “estado inicial” dos actantes narrativos (Rute e Noemi) é um estado de desalento, desânimo, perda radical (a morte dos homens, em uma sociedade agrícola patriarcal, é a maior desgraça econômica que pode atingir uma mulher – pois ela perde a terra, perde o nome, perde o teto Rute 1,1ss). O “estado final” retrata uma completa inversão do estado inicial: Rute se casa, Noemi ganha um filho, e o gurizinho será o ancestral do mítico rei Davi (“mítico”, no sentido de que ele se torna, para alguns escritos do AT, modelo/padrão de realeza segundo a vontade de YHWH).
Se descrevemos apenas essa transformação, o texto parece ter se tornado banal. Mais uma estorinha sobre mulheres que perderam tudo, mas deram a volta por cima e recuperaram o que haviam perdido. Mais uma estorinha patriarcal que infantiliza as mulheres e as subordina aos maridos. Entretanto, quando prestamos atenção às ações e transformações que fazem o livro sair do estado inicial e chegar ao seu estado final, percebemos que há “algo mais” nessa estorinha.
A primeira característica que me chama a atenção é a de que os actantes narrativos são, na dimensão discursiva do texto (a “narrativa” narrada ...), as mulheres. Os homens são sujeitos subordinados às mulheres na trama textual: os primeiros homens apenas entram na história para morrer; Booz nunca toma a iniciativa, é sempre levado a agir por Rute (e Noemi), e, quando age, age seguindo o costume local. O parente (sem nome) que poderia se casar com Rute, apenas desiste do dever; os conselheiros apenas atestam o negócio entre Booz e o “fulano” (eles também oferecem um voto de sucesso a Booz, sucesso que dependerá dos filhos que Rute lhe der...).
A segunda característica que me chama a atenção é a sagacidade e sabedoria de Rute. Ela é a “cabeça do casal”, mas sempre age de modo que tal fato não seja percebido – é obediente a Noemi, é submissa a Booz. Até mesmo no ato de seduzir a Booz, o texto narra o evento de modo a ocultar a sensualidade da cena. Eu sei que a interpretação do “deitar aos pés” de Booz é contestada e muitos exegetas não aceitam que a expressão tenha conotação sensual. Mas, me pergunto: se Rute só se deitou aos pés (literalmente) de Booz, porque o narrador descreve a cena com requintes de sutileza: ”ela dormiu a seus pés até de manhã, e se levantou quando as pessoas ainda não se reconheciam (pois Booz não queria que soubessem que a mulher tinha ido à eira” (3,14 Bíblia do Peregrino)? Poderíamos comparar o “mistério de Rute 3,14” ao “mistério da mancha vermelha” de Chagall.
[Não consigo resistir à tentação... Preciso citar um Comentário Bíblico: "Y
aunque Boaz no quiere que se divulguen noticias acerca de la visita de una mujer... a la era (vv. 11 y 14), después del diálogo a media noche, él invita a Rut a volverse a acostar a sus pies “hasta la mañana” (v. 13b). Y los dos volvieron a dormir, sin que nada indecoroso pasara. Pareciera que ya habían oído de la verdad que dice: AMAR ES ESPERAR." (Comentário Bíblico Mundo Hispano)]
A terceira característica que me chama a atenção é a moldura “patriarcal” da estória narrada. É tentador dar um jeito nessa moldura mediante a cirurgia crítica – inventar uma narrativa “feminista” de fundo, recoberta por uma editoração “patriarcal” e “monárquica”. Assim, as contradições e tensões da estória desaparecem, e se pode fazer uma classificação simples e segura do gênero textual, do lugar social e da autoria. Simples e segura, mas apenas banal. Classificação que mantém os binarismos fáceis e sem sentido – “feminino” versus “masculino”; “popular” versus “monárquico”; “campo” versus “cidade”; etc. A estorinha de Rute, porém, não se submete a esses binarismos. É tensa, nervosa, contraditória. É como a vida da gente!
O “estado inicial” dos actantes narrativos (Rute e Noemi) é um estado de desalento, desânimo, perda radical (a morte dos homens, em uma sociedade agrícola patriarcal, é a maior desgraça econômica que pode atingir uma mulher – pois ela perde a terra, perde o nome, perde o teto Rute 1,1ss). O “estado final” retrata uma completa inversão do estado inicial: Rute se casa, Noemi ganha um filho, e o gurizinho será o ancestral do mítico rei Davi (“mítico”, no sentido de que ele se torna, para alguns escritos do AT, modelo/padrão de realeza segundo a vontade de YHWH).
Se descrevemos apenas essa transformação, o texto parece ter se tornado banal. Mais uma estorinha sobre mulheres que perderam tudo, mas deram a volta por cima e recuperaram o que haviam perdido. Mais uma estorinha patriarcal que infantiliza as mulheres e as subordina aos maridos. Entretanto, quando prestamos atenção às ações e transformações que fazem o livro sair do estado inicial e chegar ao seu estado final, percebemos que há “algo mais” nessa estorinha.
A primeira característica que me chama a atenção é a de que os actantes narrativos são, na dimensão discursiva do texto (a “narrativa” narrada ...), as mulheres. Os homens são sujeitos subordinados às mulheres na trama textual: os primeiros homens apenas entram na história para morrer; Booz nunca toma a iniciativa, é sempre levado a agir por Rute (e Noemi), e, quando age, age seguindo o costume local. O parente (sem nome) que poderia se casar com Rute, apenas desiste do dever; os conselheiros apenas atestam o negócio entre Booz e o “fulano” (eles também oferecem um voto de sucesso a Booz, sucesso que dependerá dos filhos que Rute lhe der...).
A segunda característica que me chama a atenção é a sagacidade e sabedoria de Rute. Ela é a “cabeça do casal”, mas sempre age de modo que tal fato não seja percebido – é obediente a Noemi, é submissa a Booz. Até mesmo no ato de seduzir a Booz, o texto narra o evento de modo a ocultar a sensualidade da cena. Eu sei que a interpretação do “deitar aos pés” de Booz é contestada e muitos exegetas não aceitam que a expressão tenha conotação sensual. Mas, me pergunto: se Rute só se deitou aos pés (literalmente) de Booz, porque o narrador descreve a cena com requintes de sutileza: ”ela dormiu a seus pés até de manhã, e se levantou quando as pessoas ainda não se reconheciam (pois Booz não queria que soubessem que a mulher tinha ido à eira” (3,14 Bíblia do Peregrino)? Poderíamos comparar o “mistério de Rute 3,14” ao “mistério da mancha vermelha” de Chagall.
[Não consigo resistir à tentação... Preciso citar um Comentário Bíblico: "Y
aunque Boaz no quiere que se divulguen noticias acerca de la visita de una mujer... a la era (vv. 11 y 14), después del diálogo a media noche, él invita a Rut a volverse a acostar a sus pies “hasta la mañana” (v. 13b). Y los dos volvieron a dormir, sin que nada indecoroso pasara. Pareciera que ya habían oído de la verdad que dice: AMAR ES ESPERAR." (Comentário Bíblico Mundo Hispano)]
A terceira característica que me chama a atenção é a moldura “patriarcal” da estória narrada. É tentador dar um jeito nessa moldura mediante a cirurgia crítica – inventar uma narrativa “feminista” de fundo, recoberta por uma editoração “patriarcal” e “monárquica”. Assim, as contradições e tensões da estória desaparecem, e se pode fazer uma classificação simples e segura do gênero textual, do lugar social e da autoria. Simples e segura, mas apenas banal. Classificação que mantém os binarismos fáceis e sem sentido – “feminino” versus “masculino”; “popular” versus “monárquico”; “campo” versus “cidade”; etc. A estorinha de Rute, porém, não se submete a esses binarismos. É tensa, nervosa, contraditória. É como a vida da gente!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
O livro de Rute - quem conta a história?
Depois das mensagens e imagens instigantes, inicio minha análise do livro de Rute com uma questão de base. Quem conta a história?
A pergunta nem sempre é feita, mas é sempre subentendida. Afinal, é necessário que a história chegue a nós pela mediação de uma voz. Essa voz é a do narrador.
Nos livros bíblicos normalmente temos um narrador que apresenta a narrativa em terceira pessoa. Ou seja, é alguém que diz: "fulano morava em tal lugar [...] Ele foi para a cidade [...] Uma pessoa se proximou dele [...]".
Isso quer dizer que esse tipo de narrador narra de fora da história. É como se ele visse o desenrolar do enredo e o apresentasse aos leitores. Uma vantagem desse tipo de narrador é que ele não está preso ao tempo, ao espaço e ausente da intimidade dos personagens. Pelo contrário, ele pode se locomover no tempo (pense no narrador do Gênesis que se desloca em meio a grandes porções temporais), pode estar em vários lugares (como faz o narrador nos evangelhos ao acompanhar Jesus para o deserto, para o pináculo do tempo, e para um alto monte), e pode, inclusive, penetrar na mente e no coração dos personagens para dizer-nos o que pensam e o que sentem (como, por exemplo, no caso de Jesus, quando o narrador nos diz que ele "não confiava naqueles que viam seus sinais" [Jo 2.24], e quando, diante da dureza do coração dos religiosos frente à cura do homem com a mão ressequida, o narrador revela os sentimentos de Jesus: "indignado e condoído" [Mc 3.5].
A característica principal desse narrador é que ele fornece aos leitores informações privilegiadas, que muitas vezes são desconhecidas dos personagens. Isso traz consequências para a interpretação dos textos.
A partir desse momento passo a analisar o narrador no primeiro capítulo de Rute.
Lembro que usarei para este estudo a BÍBLIA Sagrada. Edição revista e atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblia do Brasil, 1999.
O narrador inicia fornecendo a nós, leitores, informações básicas para a compreensão do livro no v. 1:
- contexto histórico em que ocorrem os eventos - "Nos dias em que julgavam os juízes";
- o que move inicialmente o desenvolvimento dos fatos - "houve fome na terra";
- os personagens iniciais - "um homem de Belém de Judá, sua mulher e seus dois filhos";
- a primeira ação dos personagens - "saiu [o homem, sua mulher e seus dois filhos] a habitar a terra de Moabe".
A partir do v. 2 o narrador introduz dados mais específicos em relação ao v. 1:
- define o nome do homem, de sua mulher e de seus dois filhos;
- inicia o desenvolvimento do enredo ao esclarecer que o plano de ir para Moabe em função da fome foi bem sucedido - "vieram à terra de Moabe e ficaram ali".
A partir do v. 3 o ritmo do enredo é acelerado ao introduzir uma série de infortúnios que se sobrepõem às bênçãos:
- Elimeleque morre, ficando a viúva Noemi e seus dois filhos (v. 3);
- Os filhos se casam com moabitas - Orfa e Rute - o que permite uma certa estabilidade à família, uma vez que eles permanecem na terra por mais 10 anos (v. 4);
- Os filhos também morrem e o narrador especifica que Noemi ficou "desamparada" sem o marido e os dois filhos (v. 5);
- O narrador nos informa ainda que Noemi ouvira que Deus havia se lembrado do seu povo, dando-lhe pão em sua terra, e decide voltar para lá com as duas noras (v. 6);
- O narrador explicita que, de fato, elas começaram a viagem de regresso, mas que no caminho Noemi se dirige às noras (v. 7).
Nesse ponto é necessário parar por um instante. Dos vs. 1 ao 7 temos a voz do narrador apresentando e definindo aspectos da história. A partir do v. 8 até 17 temos o diálogo das mulheres, com poucas intromissões do narrador. Vamos analisar esse bloco.
- A fala de Noemi está nos vs. 8 e 9a. Parece que ela alterou sua disposição inicial de levar as noras, visto que diz a elas: "Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe". Afinal, naqueles tempos uma mulher viúva e sem família estava desamparada. Três viúvas apenas intensificava a situação. Ela deseja que as duas sejam abençoadas assim como abençoaram a seus maridos, inclusive que se casem novamente - "sejais felizes, cada uma em casa de seu marido" (v. 9). Casar, nesse contexto, significa reaver a segurança de um lar;
- Nos vs. 9b e 10 há a reação, rápida, das noras, ao dizerem que iriam com Noemi para sua terra;
- Noemi, no entanto, insiste, afirmando que não tinha mais filhos para oferecer a elas, e que sentia-se culpada pela desgraça delas, reconhecendo que o Senhor havia "descarregado contra mim a sua mão" (vs. 11-13);
- Uma delas, Orfa, aceita as palavras da sogra e retorna para seu povo. Rute, contudo, reafirma o propósito de seguir com ela e de assumir o Deus de Noemi como seu Deus, qualquer que fosse o seu propósito (v. 14-17).
Nesse momento volta a voz do narrador afirmando que Noemi reconhece a disposição de Rute e aceita que ela a acompanhe. Ambas chegam em Belém, de onde saíra inicialmente a família de Noemi (v. 18-19). O narrador introduz nova série de falas a partir do final do v. 19.
- Embora toda a cidade se comovesse, é a fala das mulheres que é relatada: "Não é esta Noemi?" Ao que ela responde dizendo que não se chamava mais Noemi, mas sim "Mara", esclarecendo que esse nome significa "grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso" (v. 20);
- No verso seguinte (21) ela explica seu novo nome. Ela partir ditosa, mas Deus a fez voltar pobre. O Todo-Poderoso a tem afligido.
O capítulo finaliza com a voz do narrador. Ele fecha o bloco com um resumo: "Noemi voltou de Moabe para Belém com sua nora". E faz uma ponte com o próximo capítulo: "chegaram a Belém no princípio da sega da cevada".
Este post já está bem grande. Finalizo com algumas perguntas que retomarei na próxima mensagem:
- Qual a importância e o papel das vozes do narrador e dos personagens no texto?
- Como cada uma delas apresenta a ação de Deus?
- Há alguma contradição entre essas duas vozes?
A pergunta nem sempre é feita, mas é sempre subentendida. Afinal, é necessário que a história chegue a nós pela mediação de uma voz. Essa voz é a do narrador.
Nos livros bíblicos normalmente temos um narrador que apresenta a narrativa em terceira pessoa. Ou seja, é alguém que diz: "fulano morava em tal lugar [...] Ele foi para a cidade [...] Uma pessoa se proximou dele [...]".
Isso quer dizer que esse tipo de narrador narra de fora da história. É como se ele visse o desenrolar do enredo e o apresentasse aos leitores. Uma vantagem desse tipo de narrador é que ele não está preso ao tempo, ao espaço e ausente da intimidade dos personagens. Pelo contrário, ele pode se locomover no tempo (pense no narrador do Gênesis que se desloca em meio a grandes porções temporais), pode estar em vários lugares (como faz o narrador nos evangelhos ao acompanhar Jesus para o deserto, para o pináculo do tempo, e para um alto monte), e pode, inclusive, penetrar na mente e no coração dos personagens para dizer-nos o que pensam e o que sentem (como, por exemplo, no caso de Jesus, quando o narrador nos diz que ele "não confiava naqueles que viam seus sinais" [Jo 2.24], e quando, diante da dureza do coração dos religiosos frente à cura do homem com a mão ressequida, o narrador revela os sentimentos de Jesus: "indignado e condoído" [Mc 3.5].
A característica principal desse narrador é que ele fornece aos leitores informações privilegiadas, que muitas vezes são desconhecidas dos personagens. Isso traz consequências para a interpretação dos textos.
A partir desse momento passo a analisar o narrador no primeiro capítulo de Rute.
Lembro que usarei para este estudo a BÍBLIA Sagrada. Edição revista e atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblia do Brasil, 1999.
O narrador inicia fornecendo a nós, leitores, informações básicas para a compreensão do livro no v. 1:
- contexto histórico em que ocorrem os eventos - "Nos dias em que julgavam os juízes";
- o que move inicialmente o desenvolvimento dos fatos - "houve fome na terra";
- os personagens iniciais - "um homem de Belém de Judá, sua mulher e seus dois filhos";
- a primeira ação dos personagens - "saiu [o homem, sua mulher e seus dois filhos] a habitar a terra de Moabe".
A partir do v. 2 o narrador introduz dados mais específicos em relação ao v. 1:
- define o nome do homem, de sua mulher e de seus dois filhos;
- inicia o desenvolvimento do enredo ao esclarecer que o plano de ir para Moabe em função da fome foi bem sucedido - "vieram à terra de Moabe e ficaram ali".
A partir do v. 3 o ritmo do enredo é acelerado ao introduzir uma série de infortúnios que se sobrepõem às bênçãos:
- Elimeleque morre, ficando a viúva Noemi e seus dois filhos (v. 3);
- Os filhos se casam com moabitas - Orfa e Rute - o que permite uma certa estabilidade à família, uma vez que eles permanecem na terra por mais 10 anos (v. 4);
- Os filhos também morrem e o narrador especifica que Noemi ficou "desamparada" sem o marido e os dois filhos (v. 5);
- O narrador nos informa ainda que Noemi ouvira que Deus havia se lembrado do seu povo, dando-lhe pão em sua terra, e decide voltar para lá com as duas noras (v. 6);
- O narrador explicita que, de fato, elas começaram a viagem de regresso, mas que no caminho Noemi se dirige às noras (v. 7).
Nesse ponto é necessário parar por um instante. Dos vs. 1 ao 7 temos a voz do narrador apresentando e definindo aspectos da história. A partir do v. 8 até 17 temos o diálogo das mulheres, com poucas intromissões do narrador. Vamos analisar esse bloco.
- A fala de Noemi está nos vs. 8 e 9a. Parece que ela alterou sua disposição inicial de levar as noras, visto que diz a elas: "Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe". Afinal, naqueles tempos uma mulher viúva e sem família estava desamparada. Três viúvas apenas intensificava a situação. Ela deseja que as duas sejam abençoadas assim como abençoaram a seus maridos, inclusive que se casem novamente - "sejais felizes, cada uma em casa de seu marido" (v. 9). Casar, nesse contexto, significa reaver a segurança de um lar;
- Nos vs. 9b e 10 há a reação, rápida, das noras, ao dizerem que iriam com Noemi para sua terra;
- Noemi, no entanto, insiste, afirmando que não tinha mais filhos para oferecer a elas, e que sentia-se culpada pela desgraça delas, reconhecendo que o Senhor havia "descarregado contra mim a sua mão" (vs. 11-13);
- Uma delas, Orfa, aceita as palavras da sogra e retorna para seu povo. Rute, contudo, reafirma o propósito de seguir com ela e de assumir o Deus de Noemi como seu Deus, qualquer que fosse o seu propósito (v. 14-17).
Nesse momento volta a voz do narrador afirmando que Noemi reconhece a disposição de Rute e aceita que ela a acompanhe. Ambas chegam em Belém, de onde saíra inicialmente a família de Noemi (v. 18-19). O narrador introduz nova série de falas a partir do final do v. 19.
- Embora toda a cidade se comovesse, é a fala das mulheres que é relatada: "Não é esta Noemi?" Ao que ela responde dizendo que não se chamava mais Noemi, mas sim "Mara", esclarecendo que esse nome significa "grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso" (v. 20);
- No verso seguinte (21) ela explica seu novo nome. Ela partir ditosa, mas Deus a fez voltar pobre. O Todo-Poderoso a tem afligido.
O capítulo finaliza com a voz do narrador. Ele fecha o bloco com um resumo: "Noemi voltou de Moabe para Belém com sua nora". E faz uma ponte com o próximo capítulo: "chegaram a Belém no princípio da sega da cevada".
Este post já está bem grande. Finalizo com algumas perguntas que retomarei na próxima mensagem:
- Qual a importância e o papel das vozes do narrador e dos personagens no texto?
- Como cada uma delas apresenta a ação de Deus?
- Há alguma contradição entre essas duas vozes?
domingo, 13 de fevereiro de 2011
O encontro entre Rute e Boáz: cor e movimento
Espero que vocês tenham gostado da experiência de ler imagem. Por meio das imagens nós participamos de leituras feitas e recriadas por outras pessoas, em outro código. O código visual, como vimos, organiza a narrativa em seus elementos básicos - espaço e tempo - de forma diferente do texto. A imagem nos apresenta de uma vez o que o texto faz em sequência. Escreve por meio de registro, alinhamento, perspectiva, luz, cor, etc o que o texto apresenta como sequência de conceitos.
Chagall era um leitor perspicaz do texto bíblico. Tive a oportunidade de ver em 2009 em Belo Horizonte a exposição de obras de Chagall que incluia a sua série bíblica. Realmente impressiona a forma como ele recria os textos em suas imagens. A imagem que apresentei pra vocês é especialmente interessante pois parece que não corresponde a um versículo em especial. O tema do encontro de Rute e Boáz é pressuposto, mas não narrado no texto. Ou melhor, não como imaginaríamos. No texto ele é marcado por um clima que para nós não tem nada de romântico. Boáz, depois de ter notado a moça recolhendo sobras de espigas em seu campo, dá ordens a seus servos para que não a molestem e permitam que ela possa beber água com eles (?!). No mais, no encontro é pedido para que ela não vá colher em outro campo. O texto bíblico é marcado pelos limites de sua cultura. Imaginem como um homem poderoso abordaria nos dias de hoje uma mulher pobre e dependente pela qual ele se apaixona. Boáz não faz a corte, nem esbanja generosidade, pelo menos em nossa perspectiva. Mas o leitor Chagall pressupõe algo que deve estar no texto, algo fundamental: um encontro entre homem e mulher. Neste encontro nada é gratuíto. Boáz já sabe quem é Rute e de seu cuidado com sua sogra. Sua aproximação, por mais fria que pareça para a nossa cultura, é interessada. Da mesma forma agirá Rute nas próximas cenas. Trata-se de um encontro amoroso. A imagem não deixa dúvidas sobre isso.
Vamos à imagem. Há movimentos e cores em destaque. Os braços são marcantes. Ainda que o corpo de Boáz seja (e esteja colocado) mais alto é no de Rute que se observa toda a expressividade. Os gestos dela são mais fortes, digamos: dilacerantes. De Boáz vemos os dois braços, mas em postura claramente defensiva. De Rute vemos apenas um, em movimento de ataque. Ele, mais alto que ela, se defende; mesmo olhando de cima para baixo, se sujeita. O olhar dela é ferino frontal e marcante. Está dado o encontro amoroso. Boáz, o senhor de terras, foi fatalmente ferido pela pobre moabita. Vejamos o jogo de cores na imagem. Temos uma bola vermelha no lado de Boáz. Não saberia dizer o que é isso. Mas podemos interpretar a força da cor com o fato de que em todo o vestido de Rute há manchas semi-circulares vermelhas, no formato de seu braço, ele também manchado de vermelho. O gesto dela parece dilacerar o rosto de Boáz, este também manchado de vermelho. A cor aqui expressa paixão, desejo erótico, em potência ao lado de Boáz, em movimento no corpo e no ataque de Rute sobre Boáz. O olhar dela é carinhoso e sedutor, o dele cheio de temor e sujeição. A imagem ressalta o que não está no texto, mas o que está em nossas expectativas do encontro em homem e mulher e no fato de que a relação entre o senhor e a serva são invertidos neste momento de encontro entre homem e mulher.
Vamos analisar mais duas imagens de Chagall sobre o livro de Rute?
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