Até este momento percorremos a saga de Noemi e Rute através da perda de bens e familiares em terra estranha, e o retorno para Belém em total desamparo. A partir daquele momento, principalmente pela estratégia de Noemi e a bondade de Boaz o destino das mulheres começou a ser alterado. Elas conseguiram sustento e a promessa de resgate da parte de Boaz.
O capítulo 4 coloca em prática aquilo que Noemi havia dito de Boaz (3.18). Segundo ela, ele não descansaria até resolver o problema do resgate. O narrador não nos dá a conhecer de onde vem a convicção da anciã a respeito do parente. Mas ela está certa, nesse mesmo dia ele procura resolver a questão do resgate (4.1).
Boaz já havia informado Rute que havia um resgatador mais próximo de Noemi, ao qual caberia o direito do resgate (3.12). Sob ele estaria a responsabilidade de resgatar a terra da parente e de gerar descendência a Rute (Dt 25.5-10). Por isso, Boaz se dirige para a porta da cidade, local onde os relacionamentos sociais dos mais diversos níveis se davam (4.1), chama testemunhas e o resgatador, apresentando-lhes a situação. Este aceita resgatar a terra de Noemi (4.4), possivelmente vendida antes da ida para Moabe, e que agora ela pretendia reaver, mas sem ter condições para tanto. Entretanto, quando é notificado a respeito da responsabilidade de gerar um filho para Rute, ele rejeita sua responsabilidade, alegando que tal atitude prejudicaria sua herança (4.5-6). Possivelmente o que estava em jogo era a legislação mosaica que previa a possibilidade de um parente receber a herança de outro sem descendentes imediatos (Nm 27.1-11). Portanto, receber Rute significava ter sobre si a sombra de ter que dividir suas posses com outra pessoa, o que obviamente geraria problemas familiares.
Para formalizar sua recusa, o resgatador executa um ritual antigo e desconhecido dos leitores/ouvintes, visto que o narrador sente necessidade de explicá-lo (4.7-8). Boaz, então, vê-se liberado para assumir Noemi e Rute. Ele readquire os bens de Noemi e casa-se com Rute para suscitar descendência a Malom (4.9-10).
As testemunhas e o povo, que havia se ajuntado à porta, proclamam uma bênção para a nova família, desejando-lhes felicidade e prosperidade. A introdução desse grupo de expectadores desempenha a função de confirmar e de realçar publicamente o que havia ocorrido. Dessa forma, a imagem inicial de sofrimento que as duas mulheres deram a conhecer aos moradores de Belém (1.19) é substituída, ao final, pela imagem de bênção.
Situação familiar resolvida, descendência prometida, o clímax da história se efetivará no bloco final (4.13-22). Tais versículos serão comentados no próximo post.
terça-feira, 26 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
A bondade como centro da vida
Caminhando para o final das análises do pequeno livro de Rute, julgo que é conveniente gastar algumas palavras sobre um elemento central em seu enredo: as ações bondosas dos personagens no contexto familiar.
Não que o estímulo para fazer o bem se retrinja aos do nosso próprio sangue, mas é com eles que tal compromisso possui maior concretude de realização e, em geral, é colocado em segundo plano ou mesmo esquecido.
Primeiramente é importante destacar que a bondade assume maior relevância em situações de necessidade. Nem sempre, mas principalmente. É o que se vê no capítulo inicial do livro. A ação bondosa de Rute ocorre quando da morte do esposo e dos filhos de Noemi, momento em que está sozinha e desamparada.
Rute continua amparando e cuidando de Noemi no capítulo dois. Quando as duas mulheres chegam em Belém, ela sai para os campos em busca de alimento. Vai de um campo a outro, até chegar nas terras de Boaz. Ali passa o dia trabalhando incansavelmente.
No capítulo três Rute segue orientações de Noemi e vai até Boaz para estimulá-lo a assumir seu papel de resgatador. Para tanto, ela se submete detalhadamente às indicações da sogra a respeito de como proceder. Não há, da parte dela, nenhuma revolta ou desprezado para com a anciã.
Noemi, por sua vez, amparada e sob os cuidados de Rute, preocupa-se com o destino dela e, desse modo, age bondosamente. Tal postura pode ser vista já no primeiro capítulo. Mesmo sozinha, insta com as noras para que retornem para seu povo e suas famílias. Orfa, compreendendo a situação e que era, de fato, o mais sensato a ser feito, aceita o conselho e retorna para o lar paterno. Isso demonstra que Noemi não estava blefando.
Nos capítulos dois e três Noemi assume o papel de conselheira de Rute. Após esta voltar dos campos e do encontro com Boaz, é a sogra que esclarece quem é aquele homem a orienta a manter contato com ele. O capítulo três inicia com a preocupação de Noemi sobre o futuro de Rute. Não deseja que tenha seu destino: ficar abandonada e só. Assume o compromisso de buscar um lar para ela. É nesse contexto que arquiteta o plano para que Rute se achegue a Boaz.
Boaz, por sua vez, é descrito como o homem bom por excelência. Não apenas permite que Rute recolha espigas em suas terras, o que seria normal, mas também lhe dá gratuitamente espigas, por duas vezes, para que se alimente assim com a sogra. Ele cuida para que ela não seja molestada por nenhum de seus funcionários e assume o compromisso de resgatar as mulheres, caso o parente mais próximo desista.
Bem, todo ato de bondade tem um preço a ser pago. Nesta história não é diferente. Rute deixa os seus, sua terra e a opção de buscar casamento com alguém de sua idade para casar-se com Boaz, homem muito mais velho. Noemi não se permite afundar em depressão e negativismos. Continua firme e coloca Rute em primeiro plano. Boaz, homem de posses e compromissos, não se esquece de seu dever perante a lei e assume os compromissos, inclusive financeiros, do resgate.
Concluindo, é muito bela a forma como o narrador constrói as linhas de relacionamento entre os personagens principais de sua história. A bondade está presente em todos os momentos, nos ensinando que a família é o bem maior que temos e a quem devemos compromissos de cuidado e zelo, mesmo quando, e isso sempre acontece, isso nos seja difícil.
Como a história de bondades múltiplas termina? É o que veremos no capítulo 4.
Não que o estímulo para fazer o bem se retrinja aos do nosso próprio sangue, mas é com eles que tal compromisso possui maior concretude de realização e, em geral, é colocado em segundo plano ou mesmo esquecido.
Primeiramente é importante destacar que a bondade assume maior relevância em situações de necessidade. Nem sempre, mas principalmente. É o que se vê no capítulo inicial do livro. A ação bondosa de Rute ocorre quando da morte do esposo e dos filhos de Noemi, momento em que está sozinha e desamparada.
Rute continua amparando e cuidando de Noemi no capítulo dois. Quando as duas mulheres chegam em Belém, ela sai para os campos em busca de alimento. Vai de um campo a outro, até chegar nas terras de Boaz. Ali passa o dia trabalhando incansavelmente.
No capítulo três Rute segue orientações de Noemi e vai até Boaz para estimulá-lo a assumir seu papel de resgatador. Para tanto, ela se submete detalhadamente às indicações da sogra a respeito de como proceder. Não há, da parte dela, nenhuma revolta ou desprezado para com a anciã.
Noemi, por sua vez, amparada e sob os cuidados de Rute, preocupa-se com o destino dela e, desse modo, age bondosamente. Tal postura pode ser vista já no primeiro capítulo. Mesmo sozinha, insta com as noras para que retornem para seu povo e suas famílias. Orfa, compreendendo a situação e que era, de fato, o mais sensato a ser feito, aceita o conselho e retorna para o lar paterno. Isso demonstra que Noemi não estava blefando.
Nos capítulos dois e três Noemi assume o papel de conselheira de Rute. Após esta voltar dos campos e do encontro com Boaz, é a sogra que esclarece quem é aquele homem a orienta a manter contato com ele. O capítulo três inicia com a preocupação de Noemi sobre o futuro de Rute. Não deseja que tenha seu destino: ficar abandonada e só. Assume o compromisso de buscar um lar para ela. É nesse contexto que arquiteta o plano para que Rute se achegue a Boaz.
Boaz, por sua vez, é descrito como o homem bom por excelência. Não apenas permite que Rute recolha espigas em suas terras, o que seria normal, mas também lhe dá gratuitamente espigas, por duas vezes, para que se alimente assim com a sogra. Ele cuida para que ela não seja molestada por nenhum de seus funcionários e assume o compromisso de resgatar as mulheres, caso o parente mais próximo desista.
Bem, todo ato de bondade tem um preço a ser pago. Nesta história não é diferente. Rute deixa os seus, sua terra e a opção de buscar casamento com alguém de sua idade para casar-se com Boaz, homem muito mais velho. Noemi não se permite afundar em depressão e negativismos. Continua firme e coloca Rute em primeiro plano. Boaz, homem de posses e compromissos, não se esquece de seu dever perante a lei e assume os compromissos, inclusive financeiros, do resgate.
Concluindo, é muito bela a forma como o narrador constrói as linhas de relacionamento entre os personagens principais de sua história. A bondade está presente em todos os momentos, nos ensinando que a família é o bem maior que temos e a quem devemos compromissos de cuidado e zelo, mesmo quando, e isso sempre acontece, isso nos seja difícil.
Como a história de bondades múltiplas termina? É o que veremos no capítulo 4.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Em busca da segurança familiar
Se o capítulo 2 resolve o problema da subsistência apresentado no início do livro, este capítulo aborda outra questão não tão imediata, mas igualmente importante: a necessidade de vínculo familiar, que implica, em última instância, em assegurar condições mínimas de sobrevivência.
Convém lembrar que um dos fatores determinantes para que Noemi retornasse para Belém, levando consigo sua nora, era a morte do esposo e filhos, o que as deixava vulneráveis do ponto de vista das relações sociais.
Noemi, mulher sagaz, ao ouvir os relatos de Rute a respeito do modo bondoso como foi tratada por Boaz, assume a iniciativa de desenvolver uma estratégia para fazer com que ele assuma o papel de resgatador de ambas.
O caminho é ligá-lo a Rute. Com isso, Noemi lhe dará um esposo em lugar do filho morto (3.1) e também terá assegurado seu futuro. Para tanto, orienta a nora a preparar-se (v. 3a) e a se encaminhar para o local onde Boaz se encontra trabalhando os frutos da colheita. Ali deve aguardar o momento em que ele se deita e então achegar-se aos seus pés (v. 3b-4). Depois disso, ele assumirá a direção da situação, diz ela. Rute não titubeia. Assume o plano e o coloca em execução (v. 5).
Rute age conforme o combinado. Aproveita que Boaz está um tanto alegre depois de um bom vinho e deita-se a seus pés (v. 6-7). No meio da noite ele acorda assustado ao ver que havia uma mulher ao seu lado. Certamente a escuridão não permite que identifique Rute, visto que já a conhecia. Ela se identifica, dizendo em seguida que ele deve “estender a capa sobre ela” (v. 9). Essa linguagem traz a ideia de um compromisso de casamento, ou mesmo sexual (cf. Ez 16.8), visto que ele é seu resgatador.
Como anteriormente, Boaz é gentil com Rute, exaltando o fato de que, ao invés de procurar jovens para relacionar-se, como era de se esperar, ela cumpre os compromissos familiares de Noemi, procurando-o (v. 10). A Bíblia do Peregrino é mais explícita nesse versículo ao dizer: “[...] pois não procuraste um ‘pretendente’ jovem, pobre ou rico”.
Boaz aceita de bom grado assumir o papel de resgatador (v. 11). No entanto, lembra que existe um impedimento legal, visto que há outro parente mais próximo de Noemi (v. 12). Portanto, ele sugere que ela permaneça por ali durante à noite, até que no dia seguinte a questão do resgate seja decidida.
Rute levanta-se antes do amanhecer para que não seja identificada por outras pessoas, visto que seu procedimento naquela noite havia sido arrojado e poderia comprometer Boaz (v. 14). Antes de sair, entretanto, Boaz, bondosamente, dá a ela seis medidas de cevada para serem levados para Noemi (v. 15).
Como no final do capítulo 2, Noemi novamente indaga a nora a respeito dos acontecimentos (v. 16). Ao ouvir o relato, orienta Rute a aguardar os desdobramentos, convicta de que Boaz resolverá a situação ainda naquele dia (v. 17-18).
Cabe uma reflexão aqui. Talvez decepcione o leitor moderno o modo como Noemi e Rute tratam o problema da falta de amparo masculino. Não vemos aqui nenhum dos elementos românticos tão presentes em nossa cultura. Pelo contrário. A situação é tratada de modo pragmático. O esposo é, antes de tudo, uma necessidade real e imediata.
É claro que existem questões culturais aqui. Não podemos ver o texto como normativo em termos de procedimento amoroso. Ao mesmo tempo, sob outro ângulo, o comportamento de Rute é altamente inspirativo. Assim como ela abandonou sua terra e seu povo para seguir e cuidar de Noemi, agora ela abandona a possibilidade de escolha amorosa para suscitar um resgatador e assim prover amparo para a sogra.
Nesse sentido, mesmo em detrimento da vantagem pessoal e de interesses próprios, Rute coloca em prática o cuidado amoroso para com Noemi. Essa é a proposta do texto e, ao mesmo tempo, seu questionamento para os leitores: até onde estamos dispostos a ir como consequência do amor ao próximo?
Convém lembrar que um dos fatores determinantes para que Noemi retornasse para Belém, levando consigo sua nora, era a morte do esposo e filhos, o que as deixava vulneráveis do ponto de vista das relações sociais.
Noemi, mulher sagaz, ao ouvir os relatos de Rute a respeito do modo bondoso como foi tratada por Boaz, assume a iniciativa de desenvolver uma estratégia para fazer com que ele assuma o papel de resgatador de ambas.
O caminho é ligá-lo a Rute. Com isso, Noemi lhe dará um esposo em lugar do filho morto (3.1) e também terá assegurado seu futuro. Para tanto, orienta a nora a preparar-se (v. 3a) e a se encaminhar para o local onde Boaz se encontra trabalhando os frutos da colheita. Ali deve aguardar o momento em que ele se deita e então achegar-se aos seus pés (v. 3b-4). Depois disso, ele assumirá a direção da situação, diz ela. Rute não titubeia. Assume o plano e o coloca em execução (v. 5).
Rute age conforme o combinado. Aproveita que Boaz está um tanto alegre depois de um bom vinho e deita-se a seus pés (v. 6-7). No meio da noite ele acorda assustado ao ver que havia uma mulher ao seu lado. Certamente a escuridão não permite que identifique Rute, visto que já a conhecia. Ela se identifica, dizendo em seguida que ele deve “estender a capa sobre ela” (v. 9). Essa linguagem traz a ideia de um compromisso de casamento, ou mesmo sexual (cf. Ez 16.8), visto que ele é seu resgatador.
Como anteriormente, Boaz é gentil com Rute, exaltando o fato de que, ao invés de procurar jovens para relacionar-se, como era de se esperar, ela cumpre os compromissos familiares de Noemi, procurando-o (v. 10). A Bíblia do Peregrino é mais explícita nesse versículo ao dizer: “[...] pois não procuraste um ‘pretendente’ jovem, pobre ou rico”.
Boaz aceita de bom grado assumir o papel de resgatador (v. 11). No entanto, lembra que existe um impedimento legal, visto que há outro parente mais próximo de Noemi (v. 12). Portanto, ele sugere que ela permaneça por ali durante à noite, até que no dia seguinte a questão do resgate seja decidida.
Rute levanta-se antes do amanhecer para que não seja identificada por outras pessoas, visto que seu procedimento naquela noite havia sido arrojado e poderia comprometer Boaz (v. 14). Antes de sair, entretanto, Boaz, bondosamente, dá a ela seis medidas de cevada para serem levados para Noemi (v. 15).
Como no final do capítulo 2, Noemi novamente indaga a nora a respeito dos acontecimentos (v. 16). Ao ouvir o relato, orienta Rute a aguardar os desdobramentos, convicta de que Boaz resolverá a situação ainda naquele dia (v. 17-18).
Cabe uma reflexão aqui. Talvez decepcione o leitor moderno o modo como Noemi e Rute tratam o problema da falta de amparo masculino. Não vemos aqui nenhum dos elementos românticos tão presentes em nossa cultura. Pelo contrário. A situação é tratada de modo pragmático. O esposo é, antes de tudo, uma necessidade real e imediata.
É claro que existem questões culturais aqui. Não podemos ver o texto como normativo em termos de procedimento amoroso. Ao mesmo tempo, sob outro ângulo, o comportamento de Rute é altamente inspirativo. Assim como ela abandonou sua terra e seu povo para seguir e cuidar de Noemi, agora ela abandona a possibilidade de escolha amorosa para suscitar um resgatador e assim prover amparo para a sogra.
Nesse sentido, mesmo em detrimento da vantagem pessoal e de interesses próprios, Rute coloca em prática o cuidado amoroso para com Noemi. Essa é a proposta do texto e, ao mesmo tempo, seu questionamento para os leitores: até onde estamos dispostos a ir como consequência do amor ao próximo?
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Competência e Sorte - Rute caps. 2-4
Os capítulos 2-4 de Rute narram uma ampla transformação narrativa centrada na performance da personagem principal do livro – a própria Rute. É ela quem toma a iniciativa: “Rute, a moabita, disse a Noemi: permite que eu vá ao campo respigar atrás daquele que me acolher favoravelmente” (2,2ª). Mesmo estrangeira, Rute havia adquirido a competência necessária para viver no ambiente cultural novo de sua nova família – ela sabia que os pobres tinham o direito de recolher restos da colheita e de aproveitar as esquinas dos campos para conseguir alimentos. Mas ela sabia, também, que quando eram as mulheres que faziam esse trabalho, algo mais poderia acontecer. Porém, esse algo mais, não dependia da competência, e sim, da sorte. Que estranho! Falar em sorte na Bíblia? Pois é, está no verso 3: “Por felicidade (miqréhä), entrou ela na parte do campo pertencente a Boaz”. Ou seja, para a gente se dar bem na vida não basta competência, é preciso ter um pouco de boa sorte. Só que sorte, aqui, não tem a conotação de algo mágico, ou que cai do céu. Sorte é aquilo que acontece sem que seja resultado concreto da ação da pessoa, ou seja, é aquilo que é casual, uma casualidade (e não fruto da causalidade), o que não depende do nosso planejamento e/ou esforço. Assim, uma das características da sabedoria é discernir o que fica por conta de nossa performance e o que fica por conta da sorte, já que, no final das contas, a vida é muito complexa e não conseguimos saber tudo que é necessário para enfrentá-la integralmente.
Na leitura dos dois capítulos, vemos como a competência de Rute é plural e como se manifesta em suas performances: ela conhece os costumes legais, ela sabe como se proteger da exploração masculina (há uma tensão entre a afirmação de que Boaz disse a ela para ficar junto com outras mulheres em 2,8 e o elogio de Noemi em 2,22), ela sabe cozinhar e se portar diante do dono do campo, ela sabe repartir com Noemi o fruto de seu trabalho. Rute, porém, parece ser um tanto quanto tímida. É Noemi quem toma a iniciativa de preparar o ato da sedução (3,1-5). Recebida a orientação, porém, Rute executa a performance sedutora com magistral competência. Por que magistral? O texto narra como Boaz acorda com um tremor (3,8 wayyehérad) – verbo que é usado para se referir ao medo (Ex 19,16-18; Am 3,6; Ez 26,18), ou a uma emoção intensa (Gn 27,33). Por que Boaz tremeu? Use a sua imaginação: uma mulher em seu colo, no meio da noite ... O resto da história é conhecido – Boaz se torna o marido de Rute, ela teve um filho, sua vida e a de Noemi se resolveram. Moral da história, a competência no trabalho, a sorte e a sedução de Rute foram sancionadas positivamente, pela sociedade e por YHWH. Que sorte termos este texto na Bíblia, não é?
Competência, performance, sanção: termos técnicos da semiótica greimasiana, componentes do percurso narrativo, que é um simulacro da ação em sociedade.
Na leitura dos dois capítulos, vemos como a competência de Rute é plural e como se manifesta em suas performances: ela conhece os costumes legais, ela sabe como se proteger da exploração masculina (há uma tensão entre a afirmação de que Boaz disse a ela para ficar junto com outras mulheres em 2,8 e o elogio de Noemi em 2,22), ela sabe cozinhar e se portar diante do dono do campo, ela sabe repartir com Noemi o fruto de seu trabalho. Rute, porém, parece ser um tanto quanto tímida. É Noemi quem toma a iniciativa de preparar o ato da sedução (3,1-5). Recebida a orientação, porém, Rute executa a performance sedutora com magistral competência. Por que magistral? O texto narra como Boaz acorda com um tremor (3,8 wayyehérad) – verbo que é usado para se referir ao medo (Ex 19,16-18; Am 3,6; Ez 26,18), ou a uma emoção intensa (Gn 27,33). Por que Boaz tremeu? Use a sua imaginação: uma mulher em seu colo, no meio da noite ... O resto da história é conhecido – Boaz se torna o marido de Rute, ela teve um filho, sua vida e a de Noemi se resolveram. Moral da história, a competência no trabalho, a sorte e a sedução de Rute foram sancionadas positivamente, pela sociedade e por YHWH. Que sorte termos este texto na Bíblia, não é?
Competência, performance, sanção: termos técnicos da semiótica greimasiana, componentes do percurso narrativo, que é um simulacro da ação em sociedade.
segunda-feira, 28 de março de 2011
O princípio da mudança – a ação dos personagens em Rute 2
Se na mensagem anterior desenvolvi os níveis de conhecimento do narrador e dos personagens e como eles interagiram a partir deles, nesta me deterei na construção dos personagens e como tal estratégia se presta para o desenrolar do capítulo.
Iniciemos por Noemi. Como ela, que é um personagem segundário neste texto, é descrita? Se no primeiro capítulo ela é apresentada como “mulher” de Elimeleque (v. 2), após a morte do marido ela assume identidade própria, relacionando-se com as noras e tomando decisões. No capítulo dois ela torna a ser definida a partir de seus relacionamentos. Por um lado, ela é “parente” de Boaz (2.1, 20b).
Por outro, se o capítulo anterior assentava Noemi com figura central a partir da qual as esposas de seus filhos são definidas como “noras” (1.6-7,22), neste capítulo o foco sofre alteração. Agora Rute assume o centro, e Noemi passa a ser descrita como sua “sogra” (2.11, 18-19, 23). Somente na parte final do capítulo, com o diálogo entre as duas, reaparecerá o designativo “nora” para Rute (2.20, 22).
E Boaz? A princípio sua identidade está vinculada a Noemi. Eles são parentes. Interessante é que, embora Boaz e Noemi estejam em Belém (2.4 e 1.22b, respectivamente), o narrador não se interessa em descrever um possível encontro enre eles na cidade, ou mesmo em levantar essa possibilidade. Eles estão distantes um do outro.
Boaz também é identificado como homem de muitos bens (2.1), que são, no enredo, apresentados na forma de campos em tempos de colheita (v. 3b). A informação a respeito da riqueza de Boaz é introduzida na história para demonstrar sua bondade. O narrador indica que ele é tão bom que essa qualidade é vivenciada mesmo por seus servos. Afinal, antes que Boaz chegasse ao campo, seus empregados haviam permitido que Rute colhesse nele (2.7).
Ao encontrar com Rute, Boaz não apenas sugere que ela permaneça colhendo em seus campos (2.8), como atende às suas necessidades imediatas, fornecendo alimento e bebida a ela (2.14). Sua ação é justificada por ter tomado conhecimento de como Rute foi bondosa para com Noemi (2.11). Além disso, ele orienta seus criados a deixarem algumas espigas sobre o chão para que a jovem as colhesse (2.16).
Agora analisaremos Rute. Como já indiquei, ela é colocada com personagem central, juntamente com Boaz, e isso é indicado pela inversão “nora/sogra”. Agora é Noemi que está em relação com Rute. Por isso a inversão de nora para sogra.
Outro elemento caracterizador de Rute é “moabita” (2.2, 6, 21). O narrador, assim como os personagens, a identificam como tal. O designativo foi introduzido no final do capítulo 1 (v. 22). Essa característica é realçada na fala de Boaz a ela, ao reconhecer que, embora ela fosse de outra terra, amparou Noemi, vindo para Belém e para um povo que não era o dela (v. 11). Como estrangeira, ela não assumiu um papel de arrogância e de oposição para com os da terra, até por que isso seria difícil na situação em que se encontrava, mas submeteu-se humildemente a Boaz e a Noemi.
O fato de Rute ser destacada como estrangeira recebe maior importância por ser ela intermediária entre Boaz e Noemi. Já disse que os parentes não se encontram neste capítulo. Pelo contrário, ele recebe notícias de sua parente (2.6, 11), mas é através de Rute que ele age em favor dela. Do mesmo modo, Noemi sabe de Boaz através de Rute e somente a partir daí orienta a nora a manter-se nos campos do parente (2.22).
Por fim a disposição do personagem Rute é destacado. Já indiquei esse aspecto anteriormente, mas o faço a partir de outro ângulo. Sua iniciativa em procurar os campos para colher e em submeter-se a Boaz como fonte de sua sobrevivência, indica que ela assume o papel de provedora da família em lugar de Elimeleque, seu sogro, e de seu esposo, ambos mortos. Desse modo, a inversão de papéis entre ela e Noemi recebe maior destaque. A estrangeira não apenas assume a terra, o povo e a religião da sogra, como se torna fundamental para que esta sobreviva.
Concluindo, o capítulo 2 se desenvolve a partir da configuração e ação de cada um dos personagens apresentados. Aqui cabe retornar à proposta de estrutura apresenta algumas mensagens atrás. Inicialmente temos Noemi e Rute dialogando, em seguida Rute vai para os campos e encontra-se com Boaz e há um longo diálogo entre eles. Finalmente, Rute volta ao encontro de Noemi e, a partir das informações obtidas, Noemi orienta a ação de Rute.
Parece-me que, dos personagens apresentados, Rute é o de maior densidade por ser o único que é apresentado a partir de um aspecto negativo – é moabita – e mesmo assim consegue suplantar essa dificuldade e agir de modo positivo. Ela impressiona Boaz com sua determinação e força de vontade, e se torna a fonte de subsistência para Noemi.
Iniciemos por Noemi. Como ela, que é um personagem segundário neste texto, é descrita? Se no primeiro capítulo ela é apresentada como “mulher” de Elimeleque (v. 2), após a morte do marido ela assume identidade própria, relacionando-se com as noras e tomando decisões. No capítulo dois ela torna a ser definida a partir de seus relacionamentos. Por um lado, ela é “parente” de Boaz (2.1, 20b).
Por outro, se o capítulo anterior assentava Noemi com figura central a partir da qual as esposas de seus filhos são definidas como “noras” (1.6-7,22), neste capítulo o foco sofre alteração. Agora Rute assume o centro, e Noemi passa a ser descrita como sua “sogra” (2.11, 18-19, 23). Somente na parte final do capítulo, com o diálogo entre as duas, reaparecerá o designativo “nora” para Rute (2.20, 22).
E Boaz? A princípio sua identidade está vinculada a Noemi. Eles são parentes. Interessante é que, embora Boaz e Noemi estejam em Belém (2.4 e 1.22b, respectivamente), o narrador não se interessa em descrever um possível encontro enre eles na cidade, ou mesmo em levantar essa possibilidade. Eles estão distantes um do outro.
Boaz também é identificado como homem de muitos bens (2.1), que são, no enredo, apresentados na forma de campos em tempos de colheita (v. 3b). A informação a respeito da riqueza de Boaz é introduzida na história para demonstrar sua bondade. O narrador indica que ele é tão bom que essa qualidade é vivenciada mesmo por seus servos. Afinal, antes que Boaz chegasse ao campo, seus empregados haviam permitido que Rute colhesse nele (2.7).
Ao encontrar com Rute, Boaz não apenas sugere que ela permaneça colhendo em seus campos (2.8), como atende às suas necessidades imediatas, fornecendo alimento e bebida a ela (2.14). Sua ação é justificada por ter tomado conhecimento de como Rute foi bondosa para com Noemi (2.11). Além disso, ele orienta seus criados a deixarem algumas espigas sobre o chão para que a jovem as colhesse (2.16).
Agora analisaremos Rute. Como já indiquei, ela é colocada com personagem central, juntamente com Boaz, e isso é indicado pela inversão “nora/sogra”. Agora é Noemi que está em relação com Rute. Por isso a inversão de nora para sogra.
Outro elemento caracterizador de Rute é “moabita” (2.2, 6, 21). O narrador, assim como os personagens, a identificam como tal. O designativo foi introduzido no final do capítulo 1 (v. 22). Essa característica é realçada na fala de Boaz a ela, ao reconhecer que, embora ela fosse de outra terra, amparou Noemi, vindo para Belém e para um povo que não era o dela (v. 11). Como estrangeira, ela não assumiu um papel de arrogância e de oposição para com os da terra, até por que isso seria difícil na situação em que se encontrava, mas submeteu-se humildemente a Boaz e a Noemi.
O fato de Rute ser destacada como estrangeira recebe maior importância por ser ela intermediária entre Boaz e Noemi. Já disse que os parentes não se encontram neste capítulo. Pelo contrário, ele recebe notícias de sua parente (2.6, 11), mas é através de Rute que ele age em favor dela. Do mesmo modo, Noemi sabe de Boaz através de Rute e somente a partir daí orienta a nora a manter-se nos campos do parente (2.22).
Por fim a disposição do personagem Rute é destacado. Já indiquei esse aspecto anteriormente, mas o faço a partir de outro ângulo. Sua iniciativa em procurar os campos para colher e em submeter-se a Boaz como fonte de sua sobrevivência, indica que ela assume o papel de provedora da família em lugar de Elimeleque, seu sogro, e de seu esposo, ambos mortos. Desse modo, a inversão de papéis entre ela e Noemi recebe maior destaque. A estrangeira não apenas assume a terra, o povo e a religião da sogra, como se torna fundamental para que esta sobreviva.
Concluindo, o capítulo 2 se desenvolve a partir da configuração e ação de cada um dos personagens apresentados. Aqui cabe retornar à proposta de estrutura apresenta algumas mensagens atrás. Inicialmente temos Noemi e Rute dialogando, em seguida Rute vai para os campos e encontra-se com Boaz e há um longo diálogo entre eles. Finalmente, Rute volta ao encontro de Noemi e, a partir das informações obtidas, Noemi orienta a ação de Rute.
Parece-me que, dos personagens apresentados, Rute é o de maior densidade por ser o único que é apresentado a partir de um aspecto negativo – é moabita – e mesmo assim consegue suplantar essa dificuldade e agir de modo positivo. Ela impressiona Boaz com sua determinação e força de vontade, e se torna a fonte de subsistência para Noemi.
segunda-feira, 21 de março de 2011
O princípio da mudança – narrador e personagens. Rute 2
Nesta mensagem vou me concentrar na descrição do narrador e dos personagens.
Começo com uma observação que é bastante frequente nas narrativas bíblicas: o narrador possui mais informações do que os personagens e as compartilha conosco, os leitores.
Por isso mesmo o capítulo tem início com uma informação do narrador que fica meio solta. Ele apresenta Boaz, parente do marido de Noemi e “senhor de muitos bens”; “homem rico e influente”, segundo a Nova Versão Internacional. Essa informação será útil a partir do v. 3. Ele também compartilha conosco o diálogo ocorrido entre Boaz e seus servos a respeito de Rute (v. 4-7).
Somos informados, igualmente, que Boaz age além do que estava previsto pela lei, que orientava o povo a deixar as sobras das colheitas para que fossem recolhidas pelos pobres e estrangeiros (Lv 23.22). Ele orienta os servos a permitirem que ela colha entre os feixes e que, inclusive, deixem cair algumas espigas dos feixes (v. 15-17).
Boaz, que é o principal personagem do capítulo do ponto de vista da ação, compartilha quase em nível de igualdade o conhecimento do narrador. Ele recebe a informação de quem é aquela moça que colhe em seu campo (v. 6). Ele sabe o que ocorrera com sua parente Noemi em Moabe e o que fizera Rute por ela (v. 11).
As informações que possuem o narrador e Boaz são contrastantes com a desinformação de Rute. Ela sai para os campos sem saber quem permitiria que ela exercesse o direito dos pobres (v. 2). Ela não sabe que o campo em que recolhe as espigas é de Boaz (v. 3). Ela desconhece, inclusive, quem é Boaz (v. 10, 13, 19).
No entanto, no plano da ação, ela iguala-se ao seu benfeitor. Vai para os campos, pede permissão para rebuscar espigas no campo de Boaz (v. 7) e segue as orientações deste (v. 8-14) e as de Noemi (v. 22-23).
Último personagem a ser considerado é Noemi. Fica clara a mudança de status sofrido por ela. Se no primeiro capítulo era foi o personagem principal através do qual a narrativa se desenrolou, aqui ela ocupa o segundo plano, sendo inserida na narrativa apenas no início e no final. Mesmo o papel de orientadora que exercera é minimizado, uma vez que é Rute que toma a iniciativa de sair aos campos, diante do que ela apenas concorda (v. 2b). Somente no final a anciã esclarece a nora sobre quem é Boaz (v. 20b) e a orienta a manter-se nos campos do parente (v. 22).
Dado a ser salientado é que, frente à visão negativa a respeito de Deus e sua ação apresentados no primeiro capítulo, aqui ela interpreta o procedimento de Boaz como uma ação “benevolente” de Deus para com ela (v. 20a.
Qual a consequência desses dados para os leitores? Creio que, de um lado, salientar a bondade de Boaz a partir daquilo que ele sabia. Ou seja, ele usou de modo adequado e piedoso as informações recebidas. Isso desperta em nós empatia para com ele.
Quanto a Rute, suas ações, apesar da falta de informação, fazem com que nos apeguemos cada vez mais a ela. Sua ação corajosa de sair para os campos, ao mesmo tempo humilde ao obedecer Boaz e Noemi, colocam-se como exemplos de fé e coragem para nós.
Na próxima mensagem focarei a descrição dos personagens e como ela influencia a narrativa.
Começo com uma observação que é bastante frequente nas narrativas bíblicas: o narrador possui mais informações do que os personagens e as compartilha conosco, os leitores.
Por isso mesmo o capítulo tem início com uma informação do narrador que fica meio solta. Ele apresenta Boaz, parente do marido de Noemi e “senhor de muitos bens”; “homem rico e influente”, segundo a Nova Versão Internacional. Essa informação será útil a partir do v. 3. Ele também compartilha conosco o diálogo ocorrido entre Boaz e seus servos a respeito de Rute (v. 4-7).
Somos informados, igualmente, que Boaz age além do que estava previsto pela lei, que orientava o povo a deixar as sobras das colheitas para que fossem recolhidas pelos pobres e estrangeiros (Lv 23.22). Ele orienta os servos a permitirem que ela colha entre os feixes e que, inclusive, deixem cair algumas espigas dos feixes (v. 15-17).
Boaz, que é o principal personagem do capítulo do ponto de vista da ação, compartilha quase em nível de igualdade o conhecimento do narrador. Ele recebe a informação de quem é aquela moça que colhe em seu campo (v. 6). Ele sabe o que ocorrera com sua parente Noemi em Moabe e o que fizera Rute por ela (v. 11).
As informações que possuem o narrador e Boaz são contrastantes com a desinformação de Rute. Ela sai para os campos sem saber quem permitiria que ela exercesse o direito dos pobres (v. 2). Ela não sabe que o campo em que recolhe as espigas é de Boaz (v. 3). Ela desconhece, inclusive, quem é Boaz (v. 10, 13, 19).
No entanto, no plano da ação, ela iguala-se ao seu benfeitor. Vai para os campos, pede permissão para rebuscar espigas no campo de Boaz (v. 7) e segue as orientações deste (v. 8-14) e as de Noemi (v. 22-23).
Último personagem a ser considerado é Noemi. Fica clara a mudança de status sofrido por ela. Se no primeiro capítulo era foi o personagem principal através do qual a narrativa se desenrolou, aqui ela ocupa o segundo plano, sendo inserida na narrativa apenas no início e no final. Mesmo o papel de orientadora que exercera é minimizado, uma vez que é Rute que toma a iniciativa de sair aos campos, diante do que ela apenas concorda (v. 2b). Somente no final a anciã esclarece a nora sobre quem é Boaz (v. 20b) e a orienta a manter-se nos campos do parente (v. 22).
Dado a ser salientado é que, frente à visão negativa a respeito de Deus e sua ação apresentados no primeiro capítulo, aqui ela interpreta o procedimento de Boaz como uma ação “benevolente” de Deus para com ela (v. 20a.
Qual a consequência desses dados para os leitores? Creio que, de um lado, salientar a bondade de Boaz a partir daquilo que ele sabia. Ou seja, ele usou de modo adequado e piedoso as informações recebidas. Isso desperta em nós empatia para com ele.
Quanto a Rute, suas ações, apesar da falta de informação, fazem com que nos apeguemos cada vez mais a ela. Sua ação corajosa de sair para os campos, ao mesmo tempo humilde ao obedecer Boaz e Noemi, colocam-se como exemplos de fé e coragem para nós.
Na próxima mensagem focarei a descrição dos personagens e como ela influencia a narrativa.
sexta-feira, 11 de março de 2011
O princípio da mudança – Rute 2
O final do capítulo 1 é profundamente negativo. Noemi, a partir da avaliação de sua experiência com Iahweh, muda de nome, passando a chamar-se Mara (=Amarga), por julgar que esse nome convinha melhor ao que tinha no passado.
O último versículo do capítulo traz uma espécie de nota de rodapé: “[...] e chegaram a Belém no princípio da sega (=colheita) da cevada” (1.22). O final do capítulo 2 conclui retomando essa temática: “[...] até que a sega da cevada e do trigo se acabou” (2.23).
Portanto, todo o capítulo 2 é ambientado na colheita da cevada nos campos próximos de Belém. E aqui convém uma observação. Se o alimento foi o principal problema enfrentado no capítulo inicial, essa dificuldade é resolvida neste bloco.
Chama a atenção o fato de que a cidade fica deslocada no plano narrativo. Belém é citada em 1.1 como o lugar de onde Noemi , esposo e filhos saem para habitar em Moabe. A cidade é mencionada novamente como o local para onde se dirigem Noemi e Rute. Mas enquanto Noemi permanece nela, o enredo se desenvolve nos campos no capítulo 2, assim como se desenrolou no caminho entre Moabe e Belém no capítulo 1. Este tipo de cenário permanecerá central no próximo capítulo.
Central no capítulo 2 é o diálogo entre Boaz e Rute, assim como o foi o diálogo entre Noemi e Rute no capítulo anterior. Como observa as notas da Bíblia do Peregrino (p. 477), o capítulo apresenta uma estrutura concêntrica, cujo centro é o diálogo entre Boaz e Rute:
a. Noemi e Rute (2.1-3);
b. Boaz e os ceifadores (2.4-7);
c. Boaz e Rute (2.8-14);
b’. Boaz e os ceifadores (2.15-17);
a’. Noemi e Rute (2.18-23).
Entretanto, talvez se deva dizer que o diálogo entre as duas mulheres ao final deve receber ênfase também.
Paro por aqui. Na próxima mensagem analisarei a ação do narrador e os discursos dos personagens.
O último versículo do capítulo traz uma espécie de nota de rodapé: “[...] e chegaram a Belém no princípio da sega (=colheita) da cevada” (1.22). O final do capítulo 2 conclui retomando essa temática: “[...] até que a sega da cevada e do trigo se acabou” (2.23).
Portanto, todo o capítulo 2 é ambientado na colheita da cevada nos campos próximos de Belém. E aqui convém uma observação. Se o alimento foi o principal problema enfrentado no capítulo inicial, essa dificuldade é resolvida neste bloco.
Chama a atenção o fato de que a cidade fica deslocada no plano narrativo. Belém é citada em 1.1 como o lugar de onde Noemi , esposo e filhos saem para habitar em Moabe. A cidade é mencionada novamente como o local para onde se dirigem Noemi e Rute. Mas enquanto Noemi permanece nela, o enredo se desenvolve nos campos no capítulo 2, assim como se desenrolou no caminho entre Moabe e Belém no capítulo 1. Este tipo de cenário permanecerá central no próximo capítulo.
Central no capítulo 2 é o diálogo entre Boaz e Rute, assim como o foi o diálogo entre Noemi e Rute no capítulo anterior. Como observa as notas da Bíblia do Peregrino (p. 477), o capítulo apresenta uma estrutura concêntrica, cujo centro é o diálogo entre Boaz e Rute:
a. Noemi e Rute (2.1-3);
b. Boaz e os ceifadores (2.4-7);
c. Boaz e Rute (2.8-14);
b’. Boaz e os ceifadores (2.15-17);
a’. Noemi e Rute (2.18-23).
Entretanto, talvez se deva dizer que o diálogo entre as duas mulheres ao final deve receber ênfase também.
Paro por aqui. Na próxima mensagem analisarei a ação do narrador e os discursos dos personagens.
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