sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quando o amor é o centro...

Belíssimo e dificílimo o texto escolhido pelo Júlio.

Acho que todos sabemos das dificuldades a respeito da canonização de Cantares e de como ele foi recebido a partir de uma leitura alegórica - judeus: Deus e Israel; cristãos - Cristo e a Igreja, que visava desviar o desconforto sentido diante de um livro bíblico que fala sobre amor/sexo.

Há, também, homéricas discussões a respeito da estrutura de Cantares. Temos dois personagens: Salomão e a Sulamita; ou três: Salomão, a Sulamita, e o pastor, sua paixão? Neste segundo caso, Salomão é o vilão que deseja roubar a moça e levá-la para seu harém.

Mas essa leitura pressupõe um enredo bem elaborado. No entanto, outros intérpretes vêem o livro como uma coleção de canções de amor sem maiores nexos.

Portanto, a questão interpretativa é séria e complexa. O que me parece é que não é possível manter a intepretação alegória, seja judaica ou cristã. Desta última entendemos, pelo menos na prática. O viés moralista e puritano de muitos se escandaliza com um texto que fala de amor. Amor, paixão, e nada mais.

Isso é claro. Afinal, em um contexto onde tudo é visto como serviço a Deus e do ponto de vista de uma missão a ser cumprida, onde a própria família tem como "tarefa e missão" propagar o conhecimento de Deus, como fica esse negócio de amor, ou pior, de sexo? E mesmo explícito.

Acho esse livro fantástico por isso mesmo. Ele não opera a partir de uma ótica missiológica ou de uma ética de serviço a Deus. Há aqui uma inversão. O tema é o amor. Desejado, correspondido, não correspondido. Amor carnal, desejo, e outros termos mais quentes...

Muitos se constrangem com isso. E têm uma vida conjugal, sexual, de intimidade detonada. Nessas questãos, o moralismo não adianta nada.

Acho que por isso mesmo o texto escolhido pelo Júlio apresenta uma expressão: "Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira" (8.4), que é meio inigmática, mas que é, ao mesmo tempo, importante, pois se repete em 2.7 e em 3.5.

O amor é fogo e forte como a morte (8.6). O que fazer? Bem, a tradição puritana e moralista tem tentado aplacá-lo com leis e regras. Sem sucesso.

Mais importante do que isso é humildemente ter ciência do seu poder. O poder que faz com que a moça anseie por beijar seu amado, mesmo na rua, e por isso deseja que ele seja seu irmão, única possibilidade de duas pessoas se beijarem em público no antigo Israel. Ela deseja levá-lo para a casa da mãe, deseja um canto para fazer sexo com ele. É isso!

Ela é uma mulher tomada pelo amor, pelo desejo. Isso é errado? Talvez para alguns. Mas, para o livro, é uma realidade. É o amor e o desejo como centro da vida. Isso é errado na ótica cristã? Talvez. Mas é um fato vivido por muitos de nós. E aí compreendemos o que se diz no livro: há tempo certo para despertar o amor. Uma vez desperto, ele é um poder incontrolado.

Isso pode fazer mal? Pode, claro. Mas pode fazer bem, muito bem. Ao coração e ao corpo.

Precisamos ler Cantares. Sem amarras, com coragem, sem medo ou vergonha. Redescobrir os prazeres e a sacralidade do amor.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Amor e Opróbrio - Cantares (7,13-) 8,1-4

"(7,13) As mandrágoras exalam perfume, e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos, novos e velhos; eu os guardei para ti, ó meu amado. Oxalá fosses como meu irmão, que mamou os seios de minha mãe! quando eu te encontrasse lá fora, eu te beijaria e não me desprezariam! Eu te levaria e te introduziria na casa de minha mãe, e tu me instruirias; eu te daria a beber vinho aromático, o mosto das minhas romãs. A sua mão esquerda em minha nuca, e a sua direita me abraçaria. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que não acordeis nem desperteis o amor, até que ele o deseje."

Uma introdução contextualizante. Após algumas semanas de impedimentos não-desejados, retomamos as nossas conversas com um pequeno texto que também trata, dentre outras questões, de impedimentos.

1. Delimitando a perícope. Comecei em 7,13 (7,14 no TM) e terminei em 8,4. Decisão arbitrária, embora não solitária. Boas razões também nos levariam a delimitar a perícope em 8,1-3. Preferi 7,13-8,4 que me parece oferecer uma palavra poética completa. Os verbos no perfeito de 7,13 são complementados pelos verbos no imperfeito de 8,1 (o caminho da realidade para o desejado). O amor impedido nos versos 1-3 clama por sua autonomia no verso 4.

2. Notinhas semióticas greimasianas. Do ponto de vista da narratividade, temos um sujeito buscando entrar em conjunção com o objeto de seu desejo (seu amado). Um anti-sujeito se interpõe no programa de busca e oferece impedimentos, interditando a conjunção. O anti-sujeito tem a seu favor o contrato de veridicção matrimonial na sociedade vétero-israelita. O sujeito da busca questiona esse contrato matrimonial, propondo uma alternativa - o contrato de veridicção da afetividade.

3. Mais notinhas. Do ponto de vista da discursividade. A tensão narrativa é espacializada: a amante (o sujeito abstrato da narratividade é discursivizado como mulher) busca a união com o amado no movimento "para dentro da casa" - começa o encontro amoroso "na rua" e o consuma "em casa". Afinal de contas, é "em casa" que se pode encontrar em estado "terminado" o ambiente amoroso: dentro de casa estão guardadas as frutas, as bebidas, o leito, etc. Na rua o ambiente amoroso está em estado de incoatividade. É lugar de mandrágoras (7,13) fruto cujo cheiro se dizia ser afrodisíaco. É lugar de comércio, com aromas, cores, sabores às portas, convidando, seduzindo ...

4. O impedimento. O contrato de veridicção (pertence ao nível narrativo) matrimonial é o que impede a conjunção de amante-amado. A casa não é espaço privado (como na cultrua brasileira descrita por DaMatta) - a casa é espaço da família e a família é simultaneamente pública e privada, mais pública do que privada. A mulher não pode levar seu amado para casa, pois a casa é "paterna" - precisa do consentimento, mais, precisa do contrato matrimonial - "deixará o homem seu pai e sua mãe...". O amor, experimentado pela amante como força autônoma, está institucionalizado: há de se casar para poder amar. Moralismo? Não creio. Subjugação do amor à sobrevivência econômica. Casar não é mero juntar trapos, mas garantir herança para os mais jovens, futuro para a família, sobrevida aos velhos. O amor, porém, não se submete ao contrato econômico-social. É outro tipo de contrato, é como a relação com o irmão: afeto, fusão no corpo da mãe. Alguns comentaristas que li falaram de um desejo pervertido da amante pelo irmão de sangue! Não entenderam nada. Trata-se de outro contrato: a legitimidade no próprio afeto, no próprio corpo, no próprio desejo.

5. O amor. Sobre amor é melhor falar pouco. Amor é frágil fortaleza. Desejo. Semioticamente falando, desejo é virtual, é busca da realização; mas ainda não realizado. Escatológico, diríamos em linguagem teológica da história da salvação - já inaugurado, mas não consumado. Amor é virtualidade corpórea - corpos, braços, abraços, beijos. Amor é virtualidade pedagógica - o amado instrui a amada - enquanto esta seduz o amado, o dirige, o guia para dentro da casa. Amor é virtualidade erótica, enebriante, intoxicante, vinhos e romãs, mandrágoras e rosas. Como cantou a dama do rock paulistano: "amor é divino, sexo é animal; amor é bossa nova, sexo é carnaval".

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ausências e novidades

Faz algum tempo que não postamos mensagens.

Justificamos a ausência, de certo modo, em função das atividades de cada um de nós. Compromissos/aulas/produção de textos que chegam como grandes ondas e quase nos afogam.

Por outro lado, a falta de mensagens traz, em contrapartida, uma boa notícia. Estamos organizando os posts do blog para serem editados em formato de livro. As negociações estão praticamente certas.

Estamos muito contentes com essa possibilidade. Afinal, temos tido enorme prazer com a experiência de desenvolver juntos este blog e o fato de podermos levar nossas mensagens para outro suporte nos anima.

Manteremos o formato blog no livro, apenas retirando os comentários por questões de direitos autorais. Quando tivermos mais detalhes noticiaremos.

Outra notícia é que estamos estudando iniciar um novo ciclo no blog com um formato diferenciado de interação. Quando estiver definido, avisamos vocês.

É isso. Com o pedido de desculpas seguem as boas notícias que têm nos motivado a continuar com a "Bíblia sob três olhares".

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O mito dá o que falar


"Mito, fantasia e ficção são os motores da vida humana..." (Júlio Zabatiero)

"A compreensão da mitologia equivale a um recordar" (Iuri Lotman)

Muito rico o embate entre a visão de Leonel (crítico literário) e do Júlio (semiólogo). Não sei onde me posicionar. Gosto de Frye porque ele resgata a linguagem mítica e a devolve ao seu devido lugar na cultura ocidental. E neste lugar reconhece um papel de destaque para a Bíblia. Mas não li ainda o seu Anatomy of Criticism onde ele fundamenta sua leitura do mito e das fases evolutivas da linguagem (e da literatura). Não creio que ele tenha compartilhado da visão ingênua (para hoje, não no seu tempo) de Vico. Em todo o caso, concordando com o Júlio, rejeito o evolucionismo. A linguagem humana é constituída de muitas camadas sobrepostas, concomitantes. O mito é a mais profunda delas. E não é a abelhuda da ciência que vem a desbancar a velha e arrogante senhora. Por outro lado, apesar de gostar de semiótica, em especial da semiótica da cultura (Lotman, Uspensky), tenho a impressão de que mito não é a verdadeira praia deles. O livro de Roland Barthes, Mitologias, por exemplo, é mais uma crítica da ideologia na sociedade burguesa que uma análise da constituição e funções da linguagem mítica.

Meu momento atual em relação ao mito é de buscar novos caminhos. Minha formação em teoria de mito é alicerçada em Eliade e Campbell. Rendo tributo aos meus mestres e seguirei indicando sua leitura. Também me impressionou o famoso artigo de Lévi-Strauss: A Estrutura dos Mitos. Mas ele me deixa frustrado pelo fato dele analisar basicamente o seu elemento paradigmático. E mito é narrativa, antes de tudo narrativa, talvez relacionada a um rito. Bem, aqui temos mais um vespeiro. São ambos relacionados? Qual deles tem prioridade lógica e cronológica? Se se relacionam dialeticamente, como isso acontece? Muitos vespeiros...

Como já devo estar aborrecendo os leitores deste blog, que deveria - supostamente - lidar com a Bíblia, farei uma lista de questões que me ocupam a respeito do mito e do roteiro de leituras que tenho seguido.

a) Dei-me conta muito recentemente de que não entendo de mito ao ler duas obras primas de Roberto Calasso: "Ka" e "As núpcias de Cadmo e Harmonia". No primeiro ele narra os mitos da índia clássica, no segundo nos presenteia com uma bela leitura dos mitos gregos. Para ele os mitos só podem ser narrados. Mas na sua narrativa segunda dos mitos ele faz emergir sutilezas, temas recorrentes, variantes desprezadas mas fundamentais, a poesia e os temas ancestrais. 

b) Além do prazer estético com que os mitos nos presenteiam, para nós, teólogos e estudiosos de religião, é uma linguagem fundamental, anterior e mais poderosa que os dogmas, formadora de estruturas imaginárias da sociedade. Ou seja, quem quer estudar religião e seu papel na sociedade tem que estudar os mitos, uma vez que estão nas camadas mais profundas e duradouras de sua cultura e em estrutura psíquica. As ciências da religião começaram no século XIX como uma descoberta e elucidação de crenças e superstições de povos exóticos, mas de interesse por serem colonizados (Max Müller, Frazer e Tylor). Mas curiosamente o tema foi relativamente deixado de lado pelas ciências da religião, voltada, no Brasil, em especial, mais para estudos sociológicos. Quem hoje em dia trabalha com o mito, mantendo a vivacidade de seu estudo, são teóricos da linguagem e historiadores (entre eles os historiadores da religião). Sobre o papel que a mitologia pode ter para os estudos de história deixo como exemplo as obras de Hilário Franco Júnio, A Eva Barbada e Os Três Dedos de Adão, ambas com o sub-título "Ensaios de Mitologia Medieval". 

c) O mito não pertence apenas ao passado. Ele é uma força presente na cultura, que se faz novamente presente em novas narrativas. Quando lemos alguns autores (Kafka, Proust, Joyce, Tolstoi, Dostoievski, Saramago, Guimarães Rosa, Borges, Sábato, entre tantos e tantos outros) sentimos um arrepio que só pode vir do mito. Eles não refletem apenas e profundamente o seu tempo, mas há algo de mapeamento de mundo, de explicação da condição humana, de constatação do demoníaco no mundo, de forças antagonistas de criação e de caos, de reflexão sobre a invencibilidade da morte, de esperanças frágeis e teimosas. Para tentar entender esta estranha continuidade recorri a Eleazar Meletinski (da escola de semiótica Iuri Lotman. um curto circuito!?). Para ele o mito não importa apenas por seu aspecto de narração arcaica,  mas também como força mitopoética, mito-criadora. Desde este ponto de vista o mito está mais vivo do que nunca, em especial na arte. Mas... e na religião?


d) Na religião o mito foi colocado de castigo no cantinho ("tu no teu cantinho e eu no meu..."). Afinal quem envergonharia mais a religião no momento histórico (da modernidade) em que a burguesia quer expressar o evangelho com valores, com visão de mundo positiva e moderna? Os currículos teológicos sistematicamente desprezam a mitologia e a teoria do mito. Me lembro que no seminário estudei lógica formal (hoje estudaria o método ver-julgar-agir), ou seja, "coisas claras e distintas", adjetivos estes que nunca se aplicam ao mito. O lado demoníaco, caótico e nebuloso do cosmo e da existência humana são sistematicamente ocultados. O incosciente se estuda em aulas de teologia prática, mas não como conceito fundamental para entender a cultura. Gilbert Durand então, nem se menciona. Somos pobres bultmanianos dos trópicos.


e) Voltemos à Bíblia (pobre, esquecida neste blog!). Fazemos uma leitura absolutamente ingênua e adocicada da mesma. Cremos que nela encontramos imagens solares, guias certeiros para a vida, valores morais, rotas para a felicidade. Mas o que descobriríamos se exercitássemos uma leitura que permita revelar nas suas narrativas fundamentais tensões irreconciliáveis do cosmo e da existência humana? E se a Bíblia for um grande e complexo código de relações traumatizantes dos homens com sua divindade? Calasso nos ensina que a religião grega é formal e centrada nos rituais uma vez que é perigoso demais estar próximos aos deuses, fonte de todo o poder. Javé seria menos selvagem e perigoso? 

f) Deixemos a Bíblia. Uma negligência de todos nós na área de humanas: Acreditamos que as palavras habitam algum lugar por aí, fora de nossos corpos. Estudamos os diferentes sistemas da linguagem desprezando pesquisas que há mais de 20 anos nos mostram que a linguagem (e o mito, portanto) são funções do corpo. Nossa cognição do mundo se dá por esquemas metafóricos originados em nossas experiências corporais básicas. E há outros autores que vão mais longe, que mostram que nossas mentes são literárias, que criam projeções parabólicas e campos de mistura conceitual. Na metáfora está a origem. Isto não teria nada a dizer sobre a origem da religião e da sua linguagem por excelência, o mito?

Há outros autores na lista: Jean-Pierre Vernant, Marcel Detienne, G. S. Kirk, Eric Csapo, Jonathan Smith, Borges. Mas sobre eles comentaremos em outra ocasião.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Compartilhando óculos, lentes, saberes ...

Respondo à resposta do Leonel à minha resposta à sua resposta ..........

1. De fato, para um tema tão instigante como o do mito, há uma variedade de opções teóricas interessantes e legítimas. Um ponto em que concordamos (os três blogueiros) é o da superação do racionalismo positivista na maneira de avaliar a veracidade do mito. Nesse sentido, faço coro à fala do Leonel sobre o efeito negativo da proposta bultmanniana do mito na discussão teológica;

2. Havia terminado meu último post indicando que uma visão epistêmica do mito não impede que outras visões (também parciais) apresentem suas definições, o que Leonel nos ajudou com sua apresentação da noção de mito em Aristóteles. De fato, a polêmica com relação ao mito na exegese não se dá contra a "literatura", mas contra o racionalismo, ou positivismo, ou qualquer outro ismo que reduza o valor de verdade de outros modos humanos de produzir saber, atribuindo somente à "ciência" o acesso e o domínio da verdade e da validade (dando nome aos bois - a exegese histórico-crítica e a histórico-gramatical);

3. Estou tentando terminar a reescrita do um pequeno livro sobre história cultural de Israel nos tempos bíblicos. Nesse livro lido o tempo todo com a problemática da verdade, pois os fundamentalismos dominam o campo. Por um lado, os fundamentalismos de cunho religioso (judaico ou cristão) que enxergam nos relatos bíblicos descrições "positivistas" de fatos = "se está escrito assim, aconteceu exatamente dessa maneira". Por outro lado, temos os fundamentalistas historicistas que, de antemão, enxergam nos relatos bíblicos descrições míticas de fatos, ou seja = "está escrito assim, então só pode ter acontecido de outro jeito". As Escrituras judaicas não podem ser lidas desse jeito, mesmo quando desejamos reconstruir a história antiga do povo judeu - é preciso muita sutileza hermenêutica e histórica para, do "mito" chegar à "história cientificamente reconstruída";

4. Terminando. Não me sinto capaz de oferecer uma definição de mito. Acho melhor destacar algumas características que ressaltam à luz das discussões acadêmicas sobre o tema: (1) mito é uma forma de construção de saber sobre a vida humana no mundo, cuja veracidade e validade estão subordinadas aos critérios de validação intercultural e intersubjetiva; (2) mito é uma forma de comunicação que, além da qualidade estética e preferência pela forma narrativa, visa constituir identidades, projetos de vida, legitimar modos de exercício de poder, etc., de modo que sua validade não pode ser estabelecida apenas no campo isolado do jogo de linguagem mítico; (3) mito é uma forma de produzir saber que compete com as chamadas formas "modernas" de produção de saber verdadeiro, mas, simultaneamente, está inserida nessas formas modernas de produzir saber, por vezes até estruturando o modo científico ou racional supostamente verdadeiro em oposição ao modo mítico não-verdadeiro; (4) mitos exigem sensibilidade hermenêutica, que começa no "princípio de caridade" (D. Davidson, filósofo da linguagem, define o PC como a 'aceitação da racionalidade da enunciação do outro', independentemente de aceitarmos a validade ou veracidade de seu conteúdo), passa pela crítica e pelo conflito de interpretações, e chega à recriação de textos, saberes, jeitos de viver.

Mitos nos fazem viver a vida. Nem todos os mitos, porém, valem a pena...

sábado, 28 de agosto de 2010

Óculos devolvidos... volto para o Mito e a literatura

Bem, devolvo os óculos para o Júlio. De fato, eles ficam melhor nele do que em mim. Afinal, não sou linguista e em questões ligadas à história da linguagem sou pouco mais que um leigo.

Mas acho que o diálogo que travamos a partir de alguns autores foi bem interessante. Aceito e acho pertinentes as correções que o Júlio propôs à visão do Northrop Frye, mesmo que existam discussões muito complexas e metodologias variadas a respeito da relação língua e texto.

E, é bom que se diga, eu e Júlio concordamos em vários pontos. Daí que a diversidade exposta nas mensagens, com aberturas e fechamentos, é um ponto alto que deve ser prezado neste blog.

Posto isto, quero comentar mesmo que rapidamente a questão do mito e literatura. Acho, sinceramente, que os teólogos, principalmente a partir de biblistas como Bultmann, ao incorporarem o termo “mito” aos estudos bíblicos, sob uma ótica própria à teologia e a conceitos relacionados à concepção da própria Bíblia, geraram bastante confusão.

Penso, inclusive, que é praticamente impossível, diante de posições já definidas a décadas, que alteremos substancialmente a discussão, como os próprios colegas têm colocado.

No entanto, acho que, pelo menos no campo literário, é possível alguma observação a mais. Parto, então, da Poética de Aristóteles, que trabalha o muthos – mito. Para ele, o mito é uma "imitação de ações", conceito vinculado ao de mimesis (=representação). Mas não apenas isso. É mais. É também uma "composição dos atos", uma ordenação da história contada na narrativa. Em outras palavras, o mito pode ser identificado com o “enredo”.

Uma outra observação deve ser apresentada. Para Aristóteles o mito, proposto na análise da tragédia, diferencia-se da história pelo fato de que esta cobre grandes blocos temporais, descritos em sequência cronológica. Já o mito, embora trabalhe questões totalizantes também, está mais restrito e não se prende ao cronos. O mito possui uma lógica interna ligada ao desenvolvimento de uma trama, mas não é necessariamente atrelado e refém da história.

Por isso mesmo o termo mito foi utilizado para classificar relatos de origem de povos antigos, que incluíam elementos sobrenaturais como deuses relacionando-se com seres humanos. Destaque-se que, nesses casos, salvo um engano, a definição de tais relatos como mitológicos se dá a partir de um preconceito racionalista que, por não aceitar a existência de seres celestes e divinos, classifica narrativas a respeito deles como irreais, ou seja, mitológicas.

Por outro lado, o positivo, acho que é possível afirmarmos que a história da humanidade se desenvolve muito mais a partir do conceito de mito do que de história. E que as nossas próprias vidas estão inseridas em uma perspectiva mitológica, entendida como um enredo em desenvolvimento, com variações e relativizações temporais onde, inclusive, seres “sobrenaturais”, para alguns de nós, estão presentes e atuantes.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mito, Linguagem, Óculos

Em resposta à resposta de Leonel ao meu texto em resposta ao dele (hehehehehehe) ...

1. Para deixar mais claro em que discordo do post em que Leonel descreve a concepção de linguagem de Frye (seguindo Vico): não aceito o evolucionismo da linguagem em três fases, penso que é melhor dizer que a linguagem é um conjunto simultâneo de jogos e que as três "fases" de Vico-Frye são apenas "jogos". Discordar do viés evolutivo não é a mesma coisa que afirmar que a linguagem é ahistórica. É afirmar que as variações da linguagem não seguem um padrão evolutivo, mas apenas um padrão histórico. Ou seja, discordo da filosofia de história de Vico, adotada e reinterpretada por Frye. Penso que Frye confunde coisas diferentes: (1) historicidade das línguas, que variam ao longo dos eixos tempo-espaço-pessoa; e (2)evolução dos modos de validação da verdade, que ele acopla à evolução dos modos de funcionamento da linguagem. Discordo, por exemplo, da descrição que Frye faz da era hieroglífica (poética) em que teria havido uma espécie de fusão sujeito-objeto mediante energia divina ou similar - não vemos isso nos textos sapienciais egípcios ou mesopotâmicos, não vemos isso em textos técnicos-agricolas, não vemos em textos "astronômicos", mas vemos em textos religiosos, em textos mágicos e semelhantes.

2. Penso que, dito isto, fica claro que concordo com Leonel quando ele descreve a variação histórica das línguas naturais (variação, mas não evolução, pois este termo tem um registro teleológico, enquanto o termo variação é histórico, mas não teleológico). O vocabulário se altera, o sentido dos vocábulos se altera, etc. - ao longo, mais uma vez, dos eixos de tempo, espaço e pessoa (história, sociedade, cultura...). Também concordo com o novo post do Leonel, quando afirma a preponderância do fator religioso na época do AT. Mas, de novo, isso não corresponde a uma fase evolutiva, mas a um arranjo dos jogos de linguagem, tanto na formulação dos saberes, quanto na validação dos saberes.

3. Concordo, ainda, com as afirmações relativas ao exílio do jogo de linguagem mítico (ou sagrado, ou religioso) na Modernidade, mas concordo apenas e tão somente enquanto exílio do jogo de linguagem, e não enquanto superação evolucionária de um tipo de linguagem. Adorno & Horkheimer, por exemplo, na Dialética da Ilustração, ofereceram um interessante argumento em prol da afirmação do caráter mítico de elementos da meta-narrativa (linguagem pós Adorno...) moderna. Ou seja, o jogo de linguagem mítico continuou sendo jogado na Modernidade, mas camuflado, ocultado sob o manto do jogo da racionalidade. Neste caso, discordo do Leonel quando ele afirma que o homem moderno "negou Deus e abandonou o vocabulário relativo a ele" - o que os modernos fizeram (negando ou não negando a existência de Deus) foi secularizar o vocabulário religioso cristão medieval - salvação se tornou humanização, imagem de Deus se tornou dignidade da pessoa, escatologia se tornou progresso, poder pastoral se tornou poder estatal, etc. Os pós-modernos (afirmando ou não a existência de Deus) ressacralizaram vocábulos secularizados, mas não promoveram um "retorno" aos sentidos pré-modernos. (Lembro: os termos modernos e pós-modernos são usados aqui apenas exemplarmente, posto que há inúmeros modos modernos e pós-modernos em cooperação e conflitividade.)

4. Por fim, não vejo nada de problemático em utilizar o termo mito para nomear uma determinada característica literária - seja um gênero textual, o enredo, etc. Como a linguagem técnica é dependente da língua natural, muita vez somos obrigados a usar a mesma palavra da língua natural para expressar diferentes conceitos na língua artificial da "ciência". Basta apenas que saibamos que o termo é polissêmico.

Ufa! Fico por aqui, e aguardo a resposta do Leonel. Quem sabe também o Paulo mete a colher dele, assim eremos vários posts-respostas-propostas.