Após o pontapé inicial do Leonel, me intrometo no percurso da bola, domino-a e passo adiante, apresentando um dos olhares que molda nosso blog.
O livro de Rute é normalmente classificado entre os livros narrativos da Torá. No meio bíblico, é costumeiro nomear como narrativa os textos que contam alguma estória ou história, têm enredo, personagens, temporalidade e espacialidade explícitas, etc. É uma classificação tradicional também em estudos literários e em lingüística, e não há nada a questionar nesse aspecto. Discussões mais interessantes têm a ver com o gênero textual (expressão melhor do que a famosa “forma literária”, já tradicional na exegese bíblica) e as abordagens possíveis a um texto narrativo.
Em Semiótica greimasiana, porém, a palavra “narrativa” é usada em dois sentidos distintos. Um deles é esse sentido tradicional mencionado acima (daí, nada a acrescentar). O outro sentido, típico da semiótica é mais interessante do ponto de vista metodológico, independentemente de aceitarmos as teses da teoria. Apresentarei, primeiramente, o conceito de narratividade (ou “Percurso narrativo”) em pequenas notas. A seguir, farei uma apropriação do conceito para a leitura de textos bíblicos:
(1) A narratividade é uma categoria da linguagem e da cultura, de modo que toda comunicação humana, todo texto, possui uma dimensão narrativa – independentemente do gênero textual ou gênero oral ou gênero discursivo de tal comunicação;
(2) “Parte-se de duas concepções complementares de narratividade: (a) narratividade como transformação de estados, de situações, operada pelo fazer transformador de um sujeito, que age no e sobre o mundo em busca de certos valores investidos nos objetos; (b) narratividade como sucessão de estabelecimentos e rupturas de contratos entre um destinador e um destinatário, de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a circulação de objetos-valor. Em outros termos, as estruturas narrativas simulam a história da busca de valores, da procura de sentido.” (BARROS, Diana Luz P. Teoria do Discurso. Fundamentos Semióticos. São Paulo: Atual, 1988, p. 28);
(3) Nos anos 1990 em diante, a Semiótica acrescentou um terceiro elemento à sua compreensão de narratividade: ela é também o lugar da construção passional da identidade do sujeito da ação. Assim, além de simular a busca de valores e a procura de sentido, a narratividade semiótica simula a busca-de-si e a busca-do-outro;
(4) Enfim, a narratividade, como conceito, é um simulacro, uma simulação da vida em sociedade. Analisar a narratividade (a dimensão narrativa) oculta em um texto (narrativo, ou não), demanda reimaginar as lutas, os contratos, os acordos, as conflitividades sociais que o texto, por sua vez, também simula – a partir de uma visada (ponto-de-vista, posição ideológica, etc.)
Para citar a mim mesmo (e, subliminarmente, fazer propaganda do meu livro...):
Toda ação é concebida como um fazer-transformador de estados, e pode ser assim analisada. Por exemplo, na sentença “Jesus veio de Nazaré”, o agir de Jesus indicado pelo verbo veio produz uma transformação no sujeito Jesus: antes, ele não estava no rio Jordão; agora, ele está no rio Jordão. Para realizar uma ação, o sujeito necessita de intencionalidade e competência, que são características tanto pessoais quanto sociais. A intencionalidade engloba tanto a motivação para agir, quanto os objetivos da ação, pois quem age sempre o faz em busca de um objetivo, movido por um dever, ou por um querer. Entendendo a motivação como pessoal e social, a semiótica lhe dá o nome de manipulação. Se Jesus foi para o Jordão, é porque ele devia sair de Nazaré para realizar algum objetivo [...]
A intencionalidade, porém, não é suficiente para dar conta da ação. É necessário que o sujeito seja capaz de realizar a ação desejada, é necessário que o sujeito tenha competência para agir. Na linguagem semiótica, a competência se desdobra em saber-fazer e poder-fazer, que sintetizam todas as competências reais de pessoas no mundo. O alvo da ação é denominado de objeto-valor e aquilo que é necessário para alcançar o alvo é denominado de objeto-modal. Dever, querer, poder e saber simulam todas as motivações e competências que, no mundo real, mobilizamos para agir. A busca de objetos-valor representa, sêmio-discursivamente, as buscas pessoais e sociais por realização, os conflitos sócio-econômicos, políticos, etc.
A ação realizada é denominada de performance. A performance se desdobra em um fazer-ser (opera transformação no próprio sujeito da ação) e em um fazer-fazer (opera transformação na relação do sujeito com o objeto-valor). Uma vez realizada, a ação terá sido bem-sucedida ou não, o alvo terá sido alcançado ou não. Ou seja, a ação será avaliada, receberá (na linguagem semiótica) uma sanção, que pode ser positiva ou negativa. Estes quatro elementos compõem o que se chama, então, de percurso narrativo canônico – que é um simulacro (modelo) da ação humana em sociedade. A narratividade, portanto, é esse movimento, esse percurso que vai da intencionalidade (manipulação e objetivo) à sanção, passando pela competência e performance. (ZABATIERO, Júlio P. T. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 20092, p. 105s.)
sábado, 5 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Novo ano, novos rumos - livro de Rute
Iniciamos um novo ano de trabalho agradecendo a Deus por sua misericórdia que se renova sobre nós e orando por sua ação poderosa e libertadora sobre aqueles que sofrem física, psíquica, emocional e espiritualmente no Brasil e no mundo.
Agradecemos também aqueles que nos têm acompanhado neste blog lendo as mensagens, divulgando-o e comentando os posts. Esperamos continuar com a presença de vocês.
E aproveitamos para informar o início de uma nova metodologia. Começaremos a discutir e comentar livros bíblicos. Em lugar de textos específicos que permitiam uma maior liberdade de abordagem, passaremos a nos deter em livros em sua totalidade.
A ideia é comentarmos/discutirmos do início ao fim alguns livros da Bíblia no decorrer do ano. Isso trará novas perspectivas e desafios. Para tanto, queremos manter aquilo que é o diferencial proposto por este blog: a leitura/intepretação da Bíblia a partir de vários ângulos. Nesse novo exercício interpretativo continuamos contando com a participação e sugestões de vocês, nossos leitores.
Resolvemos começar com o livro de Rute.
Antes de iniciar os comentários faremos uma discussão a respeito da metodologia a ser utilizada. Como tem sido comum neste blog, tal discussão será bastante aberta e plural. O objetivo é esclarecer, diante de propostas convencionais de comentários bíblicos, como pretendemos trabalhar. Certamente alguns tópicos já discutidos no ano passado retornarão, agora de forma mais concreta.
Posto isso, começaremos nossa caminhada. Será um prazer e uma alegria tê-los conosco!
Agradecemos também aqueles que nos têm acompanhado neste blog lendo as mensagens, divulgando-o e comentando os posts. Esperamos continuar com a presença de vocês.
E aproveitamos para informar o início de uma nova metodologia. Começaremos a discutir e comentar livros bíblicos. Em lugar de textos específicos que permitiam uma maior liberdade de abordagem, passaremos a nos deter em livros em sua totalidade.
A ideia é comentarmos/discutirmos do início ao fim alguns livros da Bíblia no decorrer do ano. Isso trará novas perspectivas e desafios. Para tanto, queremos manter aquilo que é o diferencial proposto por este blog: a leitura/intepretação da Bíblia a partir de vários ângulos. Nesse novo exercício interpretativo continuamos contando com a participação e sugestões de vocês, nossos leitores.
Resolvemos começar com o livro de Rute.
Antes de iniciar os comentários faremos uma discussão a respeito da metodologia a ser utilizada. Como tem sido comum neste blog, tal discussão será bastante aberta e plural. O objetivo é esclarecer, diante de propostas convencionais de comentários bíblicos, como pretendemos trabalhar. Certamente alguns tópicos já discutidos no ano passado retornarão, agora de forma mais concreta.
Posto isso, começaremos nossa caminhada. Será um prazer e uma alegria tê-los conosco!
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
As chuvas depois do natal
Como tem acontecido em nosso país no decorrer dos anos, após o período de natal e final de ano surgem as chuvas e as tragédias.
Há inúmeros ângulos pelos quais os sofrimentos decorrentes de desmoronamentos, enchentes, destruições e mortes podem ser avaliados. Repetindo o que muitos afirmam a tempos, as instâncias governamentais em vários níveis possuem responsabilidades, assim como as populações que ocupam áreas de risco.
No entanto, o que me incomoda neste momento é pensar sobre a participação cristã em momentos como esses. E pensá-la a partir da proximidade desses acontecimentos com o natal.
A vinda do Filho de Deus ao nosso mundo, encarnado, além da ação divina, envolveu e moveu muitas pessoas. José e Maria, que aceitaram recebê-lo e o acolheram com amor, carinho e proteção, mesmo sob pesados riscos; as variadas pessoas, fossem judeus ou gentios, que o reconheceram como o salvador e o adoraram; aqueles que, mesmo ocultos na história, participaram de seu desenvolvimento desde a infância até a idade adulta; e os discípulos, mesmo ignorantes em muitas questões a respeito do reino de Deus, se constituíram em um grupo de amizade e companheirismo.
De um ponto de vista humano, a partir de sua acolhida e recepção, Jesus respondeu com amor, graça, ensino e ações concretas. De certo modo, houve uma relação de recepção e doação entre Jesus e a humanidade. Podemos pensar que tudo que fez, o fez como decorrência da missão recebida, mas também como evidência e prova de que amava as pessoas, gostava de estar com elas e, mais, era reconhecido por tudo quanto recebeu delas.
É nesse contexto que penso o nosso papel no mundo em momentos de sofrimento. Como Jesus, fomos recebidos por uma família, convivemos com pessoas que nos amaram e amam, fomos cuidados, ensinados e encaminhados na vida. Mais do que isso, o próprio planeta onde vivemos proveu o ambiente necessário para que pudéssemos nos desenvolver.
Como Jesus, penso que temos uma dívida de gratidão para com a humanidade e o universo. E que o amor cristão é, acima de tudo, o reconhecimento de que Jesus Cristo foi sensível o suficiente para se irmanar com aqueles que estavam próximos dele, se alegrando ou chorando com eles. E que esse quadro é um modelo que deve ser assumido por nós, principalmente quando nossos semelhantes sofrem e necessitam de apoio e ações efetivas.
Tenho certeza que muitas comunidades cristãs estão se mobilizando para ajudar aqueles que estão sofrendo em decorrência das chuvas e enchentes. Igrejas devem estar abertas para receber pessoas que perderam bens e teto. Alimentos devem estar sendo disponiblizados para aqueles que não os têm. Roupas esquecidas em armários estão sendo enviadas àqueles que delas precisam para se vestir.
E isso tudo apenas como reconhecimento de que a humanidade tem sido generosa conosco, que a terra onde habitamos tem nos recebido bondosamente. E que a ação cristã nesse momento é uma grande oportunidade para demonstrar a relevância de nossa fé.
Há inúmeros ângulos pelos quais os sofrimentos decorrentes de desmoronamentos, enchentes, destruições e mortes podem ser avaliados. Repetindo o que muitos afirmam a tempos, as instâncias governamentais em vários níveis possuem responsabilidades, assim como as populações que ocupam áreas de risco.
No entanto, o que me incomoda neste momento é pensar sobre a participação cristã em momentos como esses. E pensá-la a partir da proximidade desses acontecimentos com o natal.
A vinda do Filho de Deus ao nosso mundo, encarnado, além da ação divina, envolveu e moveu muitas pessoas. José e Maria, que aceitaram recebê-lo e o acolheram com amor, carinho e proteção, mesmo sob pesados riscos; as variadas pessoas, fossem judeus ou gentios, que o reconheceram como o salvador e o adoraram; aqueles que, mesmo ocultos na história, participaram de seu desenvolvimento desde a infância até a idade adulta; e os discípulos, mesmo ignorantes em muitas questões a respeito do reino de Deus, se constituíram em um grupo de amizade e companheirismo.
De um ponto de vista humano, a partir de sua acolhida e recepção, Jesus respondeu com amor, graça, ensino e ações concretas. De certo modo, houve uma relação de recepção e doação entre Jesus e a humanidade. Podemos pensar que tudo que fez, o fez como decorrência da missão recebida, mas também como evidência e prova de que amava as pessoas, gostava de estar com elas e, mais, era reconhecido por tudo quanto recebeu delas.
É nesse contexto que penso o nosso papel no mundo em momentos de sofrimento. Como Jesus, fomos recebidos por uma família, convivemos com pessoas que nos amaram e amam, fomos cuidados, ensinados e encaminhados na vida. Mais do que isso, o próprio planeta onde vivemos proveu o ambiente necessário para que pudéssemos nos desenvolver.
Como Jesus, penso que temos uma dívida de gratidão para com a humanidade e o universo. E que o amor cristão é, acima de tudo, o reconhecimento de que Jesus Cristo foi sensível o suficiente para se irmanar com aqueles que estavam próximos dele, se alegrando ou chorando com eles. E que esse quadro é um modelo que deve ser assumido por nós, principalmente quando nossos semelhantes sofrem e necessitam de apoio e ações efetivas.
Tenho certeza que muitas comunidades cristãs estão se mobilizando para ajudar aqueles que estão sofrendo em decorrência das chuvas e enchentes. Igrejas devem estar abertas para receber pessoas que perderam bens e teto. Alimentos devem estar sendo disponiblizados para aqueles que não os têm. Roupas esquecidas em armários estão sendo enviadas àqueles que delas precisam para se vestir.
E isso tudo apenas como reconhecimento de que a humanidade tem sido generosa conosco, que a terra onde habitamos tem nos recebido bondosamente. E que a ação cristã nesse momento é uma grande oportunidade para demonstrar a relevância de nossa fé.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Ano Novo e Férias
Caras e caros amigos e amigas deste "blogue". Como vocês já viram, com exceção do Leonel, que não para nunca de trabalhar, o Paulo e eu já estamos um pouco de férias (do blog, pois foi exatamente o acúmulo de atividades burocráticas do fim de ano e de semestre letivo que nos impediu de cumprir nossa prazerosa atividade de blogar biblicamente).
Fica aqui meu desejo a todas e todos vocês que permanentemente se renovem, pois não acredito em "ano novo", apenas em pessoas que se renovam e se deixam renovar por Deus, Pai e Mãe, Irmã, Irmão e Amigo/a, que faz novas todas as coisas.
Fica aqui meu desejo a todas e todos vocês que permanentemente se renovem, pois não acredito em "ano novo", apenas em pessoas que se renovam e se deixam renovar por Deus, Pai e Mãe, Irmã, Irmão e Amigo/a, que faz novas todas as coisas.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Natal!!!
Aproveito a proximidade do natal para deixar uma pequena mensagem.
Em tempos de desesperança...
... Como deixar de crer diante da mensagem natalina?
... Como abandonar a fé, quando o improvável dos improváveis ocorreu?
... Como não amar e crer nas crianças, se o Salvador tornou-se uma delas?
... Como se manter cético se os magos, vindos de lugares distantes, creram?
... Como não ser tocado, se humildes pastores se encheram de alegria e deixaram os campos para adorar o recém-nascido?
... Como olhar para baixo, quando os céus se abriram e anjos desceram para anunciar o nascimento do Salvador?
... Como não amar os familiares, se José e Maria cercaram o recém-nascido de carinho, amor e o livraram de seus inimigos?
... Como ser apenas religioso, se os religiosos se mantiveram indiferentes ao nascimento de Jesus, o Cristo?
... Como não acreditar e lutar pela paz, se a chegada de Jesus aviva a profecia: “a bota com que anda o guerreiro na batalha e as vestes revolvidas em sangue serão queimadas”?
... Como desprezar os idosos, se dois deles, Simeão e Ana, estiveram entre os primeiros a reconhecer a criança nos braços de Maria como o Salvador?
... Como murmurar frente às dificuldades da vida, se o Rei dos Reis repousou sobre uma manjedoura?
... Como desistir, se Deus não virou as costas para nós, mas enviou-nos seu único filho?
... Como, passado o natal, voltar à velha vida, se Jesus é o Emanuel, o Deus eternamente conosco?
Em tempos de desesperança...
... Como deixar de crer diante da mensagem natalina?
... Como abandonar a fé, quando o improvável dos improváveis ocorreu?
... Como não amar e crer nas crianças, se o Salvador tornou-se uma delas?
... Como se manter cético se os magos, vindos de lugares distantes, creram?
... Como não ser tocado, se humildes pastores se encheram de alegria e deixaram os campos para adorar o recém-nascido?
... Como olhar para baixo, quando os céus se abriram e anjos desceram para anunciar o nascimento do Salvador?
... Como não amar os familiares, se José e Maria cercaram o recém-nascido de carinho, amor e o livraram de seus inimigos?
... Como ser apenas religioso, se os religiosos se mantiveram indiferentes ao nascimento de Jesus, o Cristo?
... Como não acreditar e lutar pela paz, se a chegada de Jesus aviva a profecia: “a bota com que anda o guerreiro na batalha e as vestes revolvidas em sangue serão queimadas”?
... Como desprezar os idosos, se dois deles, Simeão e Ana, estiveram entre os primeiros a reconhecer a criança nos braços de Maria como o Salvador?
... Como murmurar frente às dificuldades da vida, se o Rei dos Reis repousou sobre uma manjedoura?
... Como desistir, se Deus não virou as costas para nós, mas enviou-nos seu único filho?
... Como, passado o natal, voltar à velha vida, se Jesus é o Emanuel, o Deus eternamente conosco?
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Filemon, Igreja Primitiva, dinheiro... e nós
Escrevo quase imediatamente após o Júlio para não perder o embalo e as ideias.
Seguindo o raciocínio do Júlio, e acrescentando aquilo que disse anteriormente, é minha vez de perguntar: Por que nos escritos neotestamentários o dízimo é praticamente ausente? Por que, quando se fala em dinheiro, é no contexto de ofertas específicas para fins específicos e não como uma contribuição periódica?
A resposta se encontra, se não na totalidade, pelo menos em grande parte pela estrutura da Igreja Primitiva. Como ela existia a partir da estrutura da casa greco-romana, ela não precisa de quase nada para sua existência. Os pastores/presbíteros viviam de sua profissão. Não havia templo para ser custeado e nem funcionários para serem pagos. Os pobres eram cuidados por suas famílias.
As situações que exigiam ações financeiras específicas eram determinadas missões apostólicas ou missionárias, pobres sem famílias, ou pobres de outras igrejas como a de Jerusalém ajudada pelos crentes gentios. Talvez esqueça alguma coisa, mas nada muito além disso.
Interessante. Como a igreja dos primórdios cresceu mesmo pobre e sem dinheiro. E nós...
Concordo totalmente com o Júlio. E nós, protestantes históricos, não fiquemos apontando o dedo para práticas neopentecostais. Nós vivemos e nos estruturamos em torno do dinheiro.
Uma igreja, para ser organizada, precisa ter recursos, e isso significa, acima de tudo, ter condição para pagar seu pastor, pagar aluguel para ele, manter o templo etc. Observem que nenhum desses tópicos foi central para a Igreja Primitiva.
Gastamos muito do nosso tempo e dinheiro preocupados com reformar/construir/pintar nossos templos.
E o que é pior, muitas igrejas possuem investimentos para tempos piores. Não sei se há nada pior do que isso!!!
Sim, há algo pior do que isso. Uma igreja com dinheiro investido em aplicações convivendo, ao mesmo tempo, com pobres em seu meio que quase não tem dinheiro para comer, para vestir os filhos, para educá-los dignamente, para oferecer-lhes condições mínimas de saúde. Sem falar em lazer.
Parece que os ricos de nossos igrejas assim como seus presbíteros não se preocupam com isso. A preocupação é ver quanto foi arrecado no mês passado. Se a receita aumentou ou não e outras coisas irritantes.
Paro por aqui. O Júlio é o responsável por este desabafo. Mas é difícil viver com um igreja que se secularizou tanto e ao mesmo tempo radicaliza cada vez mais seu discurso conservador.
Que Deus nos ajude!
Seguindo o raciocínio do Júlio, e acrescentando aquilo que disse anteriormente, é minha vez de perguntar: Por que nos escritos neotestamentários o dízimo é praticamente ausente? Por que, quando se fala em dinheiro, é no contexto de ofertas específicas para fins específicos e não como uma contribuição periódica?
A resposta se encontra, se não na totalidade, pelo menos em grande parte pela estrutura da Igreja Primitiva. Como ela existia a partir da estrutura da casa greco-romana, ela não precisa de quase nada para sua existência. Os pastores/presbíteros viviam de sua profissão. Não havia templo para ser custeado e nem funcionários para serem pagos. Os pobres eram cuidados por suas famílias.
As situações que exigiam ações financeiras específicas eram determinadas missões apostólicas ou missionárias, pobres sem famílias, ou pobres de outras igrejas como a de Jerusalém ajudada pelos crentes gentios. Talvez esqueça alguma coisa, mas nada muito além disso.
Interessante. Como a igreja dos primórdios cresceu mesmo pobre e sem dinheiro. E nós...
Concordo totalmente com o Júlio. E nós, protestantes históricos, não fiquemos apontando o dedo para práticas neopentecostais. Nós vivemos e nos estruturamos em torno do dinheiro.
Uma igreja, para ser organizada, precisa ter recursos, e isso significa, acima de tudo, ter condição para pagar seu pastor, pagar aluguel para ele, manter o templo etc. Observem que nenhum desses tópicos foi central para a Igreja Primitiva.
Gastamos muito do nosso tempo e dinheiro preocupados com reformar/construir/pintar nossos templos.
E o que é pior, muitas igrejas possuem investimentos para tempos piores. Não sei se há nada pior do que isso!!!
Sim, há algo pior do que isso. Uma igreja com dinheiro investido em aplicações convivendo, ao mesmo tempo, com pobres em seu meio que quase não tem dinheiro para comer, para vestir os filhos, para educá-los dignamente, para oferecer-lhes condições mínimas de saúde. Sem falar em lazer.
Parece que os ricos de nossos igrejas assim como seus presbíteros não se preocupam com isso. A preocupação é ver quanto foi arrecado no mês passado. Se a receita aumentou ou não e outras coisas irritantes.
Paro por aqui. O Júlio é o responsável por este desabafo. Mas é difícil viver com um igreja que se secularizou tanto e ao mesmo tempo radicaliza cada vez mais seu discurso conservador.
Que Deus nos ajude!
Estruturas e Insucesso Eclesial
O post do Leonel me deu uma deixa para entrar na discussão. Ele afirmou a importância da estrutura familar não-nuclear para o desenvolvimento do cristianismo primitivo, e a ausência de estrutura similar em nossos dias, que seria reponsável pelo insucesso do cristianismo. Não vou discutir com o que o Leonel nos apresentou. Darei um passo a mais na conversa.
Por que igrejas têm fracassado tão redondamente na vivência concreta do Evangelho especialmente nesta primeira década do século XXI? Porque suas estruturas institucionais são cópias descaradas das estruturas excludentes do sistema capitalista. As igrejas se tornaram em postos de arrecadação de fundos - fac-símiles de agências bancárias. Não para a benemerência, mas para a acumulação. Não para a partilha, mas para o lucro. Não para a missão, mas para legitimar a omissão. Os templos não são lugares de comunhão, mas de ajuntamento de invidíduos isolados em si mesmos - todos com os olhos voltados para o poderoso Messias que dirige a coisa que chamamos de culto.
Porque suas estruturas discursivas são arremedos do Evangelho. A boa-nova é tão misturada com a falsidade de Mamom que não se trata mais da mensagem da vida, e sim da mensagem da morte. Esse "evangelho" culpabiliza as vítimas e glorifica os vitimadores. Reduz a fé a uma espécie de obra meritória ou ao esforço sacrificial de dar seu dinheirinho para receber um dinheirão do papai do céu - afinal, não somos todos filhos do rei? Reduz a santidade à moral pequeno-burguesa de ser honesto, trabalhar duro, não fazer mal ao vizinho, não entrar em conflito com ninguém, especialmente com as impessoais estruturas de morte e seus representantes empresariais e pessoais. Reduz a missão à ilusão de "subir na vida" pelo próprio esforço, com Deus como alavanca e consolo em meio ao árduo trabalho de trilhar os caminhos de Mamom, o grande mágico que faz do "dinheiro na mão: solução", escondendo de todos que "dinheiro na mão é vendaval" (Paulinho da Viola "Pecado Capital", 1976).
Por que igrejas têm fracassado tão redondamente na vivência concreta do Evangelho especialmente nesta primeira década do século XXI? Porque suas estruturas institucionais são cópias descaradas das estruturas excludentes do sistema capitalista. As igrejas se tornaram em postos de arrecadação de fundos - fac-símiles de agências bancárias. Não para a benemerência, mas para a acumulação. Não para a partilha, mas para o lucro. Não para a missão, mas para legitimar a omissão. Os templos não são lugares de comunhão, mas de ajuntamento de invidíduos isolados em si mesmos - todos com os olhos voltados para o poderoso Messias que dirige a coisa que chamamos de culto.
Porque suas estruturas discursivas são arremedos do Evangelho. A boa-nova é tão misturada com a falsidade de Mamom que não se trata mais da mensagem da vida, e sim da mensagem da morte. Esse "evangelho" culpabiliza as vítimas e glorifica os vitimadores. Reduz a fé a uma espécie de obra meritória ou ao esforço sacrificial de dar seu dinheirinho para receber um dinheirão do papai do céu - afinal, não somos todos filhos do rei? Reduz a santidade à moral pequeno-burguesa de ser honesto, trabalhar duro, não fazer mal ao vizinho, não entrar em conflito com ninguém, especialmente com as impessoais estruturas de morte e seus representantes empresariais e pessoais. Reduz a missão à ilusão de "subir na vida" pelo próprio esforço, com Deus como alavanca e consolo em meio ao árduo trabalho de trilhar os caminhos de Mamom, o grande mágico que faz do "dinheiro na mão: solução", escondendo de todos que "dinheiro na mão é vendaval" (Paulinho da Viola "Pecado Capital", 1976).
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