sexta-feira, 20 de maio de 2011

Novo livro - Gálatas

Caros blogueiros,

Terminados os comentários ao livro de Rute, resolvemos abordar um texto do Novo Testamento. A escolha recaiu sobre a carta do apóstolo Paulo aos Gálatas. Pensamos que há nessa epístola importantes questões, tanto do ponto de vista da abordagem metodológica quanto da relevância para os tempos em que vivemos.

Logo começaremos as postagens. Esperamos que gostem!

Os editores.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Momento final. Tempo de avaliação e de gratidão. Rute 4

O último segmento do livro de Rute a ser analisado é pequeno – 4.13-22. No entanto, como final do livro, é de importância fundamental para a compreensão do drama das viúvas e de seu parente resgatador.

Os personagens principais não são sujeitos do discurso no texto. Ou fala-se deles, ou então fala-se sobre eles. Ocorre o mesmo que se deu no início do livro (1.1-7). No primeiro capítulo foi feita uma descrição dos cenários, personagens e dramas vividos para somente depois introduzir os personagens em ação. Agora, no final, há semelhante estratégia. Com exceção do v. 13, que relata a união entre Boaz e Rute, os demais versículos silenciam a respeito das atitudes dos personagens. Suas ações e falas ficam no passado. Agora é tempo de avaliação final.

Para tanto, duas vozes são ouvidas. A do narrador (v. 13, 16, 18-22) e a das mulheres (v. 14-15, 17). De modo alternado elas relatam o resumo final da história. Embora os diálogos se constituam no ponto central do livro, a presença narratorial também tem sua importância e se manifesta no enredo de modo claro e sem grandes envolvimentos pessoais. Quando necessário, ressaltou o sofrimento (1.3-5), e quando a situação foi alterada, relatou os resultados (2.3, 23; 4.13). Quanto a isso, o narrador acompanha o desenvolvimento da história. Não nega, como poderia fazer com pseudoargumentos teológicos, que o sofrimento atinja as protagonistas, mas, ao mesmo tempo, relata a alteração desse quadro. É isso que ocorre no final. De modo sintético o narrador dá a conhecer ao leitor que, de fato, Boaz cumpriu a promessa e tomou Rute como esposa, tiveram um filho (4.13) e ele foi o consolo de Noemi (v. 16). Como última informação, apresenta a descendência de Boaz, cujo ápice é o futuro rei Davi.

Central neste trecho é a voz das mulheres, que já havia aparecido anteriormente (1.19). Naquele momento, demonstrando surpresa e assombro pelo estado em que se encontrava Noemi. Na segunda ocorrência, a situação é inversa. Elas louvam a Deus por trazer à anciã um neto que será, ele mesmo, seu resgatador (4.14) e definem, de modo que não feito ainda, qual foi o papel de Rute para com ela: não apenas aquela que lhe dá um neto e a posteridade da família, como também a realidade inconteste de que isso se acontece porque ela “a ama”, e “é melhor do que sete filhos”. Eis aqui uma revelação feita pelo narrador por intermédio da boca da mulheres.

Não se nega a perda terrível sofrida por Noemi. Isso está claro em todo o livro. Mas o que vai se revelando, inicialmente de modo implícito, mas cada vez mais de forma concreta mediante as ações de Rute é que, embora ela não ocupasse o espaço emotivo daqueles que faltavam, ela não apenas assumiu o papel deles, como sua ação é interpretada pelo coro de mulheres como uma ação ideal (“sete filhos” era tido como o número ideal de filhos. Cf. 1 Sm 2.5 e Jó 1.2). Ou seja, Noemi não ficou desamparada, mas teve, em lugar daqueles que se foram, alguém à altura para substituí-los, como o enredo deixa claro.

Último dado a ser comentado a respeito da participação do coro de mulheres é a designação do nome para o filho de Rute/Boaz (4.17). Isso era incomum em Israel. Ou as mães atribuíam nome aos filhos (cf. Is 7.14) ou os pais (Lc 1.62-63). Por que as mulheres tomam tal iniciativa? Minha hipótese é que essa é uma estratégia do narrador. Ao invés dele mesmo descrever a cena, ou de apresentar os pais nomeando o recém-nascido, ele segue a estratégia de indicar acontecimentos importantes a partir de terceiras pessoas. Isso significa que o nascimento e o nome da criança são autenticados pela constatação daqueles que estão em volta, de que, de fato, esse é um acontecimento especial.

A criança será avô do futuro rei Davi. Esse é o ponto alto. E mostra como uma família sai da desgraça total (sem terra, sem dinheiro, sem descendentes) para se tornar aquela que traria ao mundo o principal e mais importante rei que haveria de nascer em Israel.

Bem, podemos pensar em algumas conclusões.

Uma delas foi estabelecida logo acima. O livro de Rute nos mostra que, para aqueles que creem e confiam em Deus, mesmo quando ele parece ser o inimigo, como julgou inicialmente Noemi, nunca é o fim da linha. Sempre há e haverá uma porta aberta, uma possibilidade de resgate e libertação, um razão pela qual orar e crer.

Outro aspecto muito belo da história é a estratégia de sua apresentação. Os diálogos são centrais, e as avaliações são feitas, não pelos próprios personagens, mas por terceiros. Isso revela que o mais importante não é o que pensamos de nós mesmos ou como nos avaliamos, embora a necessidade de consciência ética e de compromisso com Deus sejam importantes. O que vale é o que fazemos de concreto e que pode ser visto e avaliado pelos que nos veem. É aí, nas situações da vida, que nosso testemunho é avaliado e provado.

Um último dado para reflexão é a importância da família. Não digo isso em uma perspectiva moral, embora ela seja importante, mas de unidade social. Noemi e Rute sobrevivem apenas por que resolvem permanecer juntas. Caso contrário, a história teria acabado no primeiro capítulo, com Rute voltando para casa e Noemi, provavelmente, morrendo. É a família que nos tem e nós a temos. Ao final, esse é o fato mais importante. Mesmo em termos da presença na sociedade. E não falo mais acerca de sobrevivência. Falo de cidadania, de valores, de visão de mundo. Somos nós, famílias, que formamos a base da sociedade. Embora a nossa seja muito diferente daquela em que viveram os personagens do livro de Rute. Eis aí nosso desafio. Não a tentativa de uma volta saudosista de um tempo que não mais existe, mas a vivência de valores cristãos em um mundo em transformação. Mesmo o rei mais importante da história de Israel somente tem sentido se inserido nas lutas e vivências da pequena família de Noemi/Rute/Boaz.

Um questionamento, quase a título de provacação. Não passa imperceptível o papel da mulheres em Rute. Temos duas protagonistas e, embora Boaz também ocupe papel central, ele é quase que manipulado pelas mulheres, embora sua bondade inata sempre esteja presente. E temos o coral de mulheres ressaltando e reafirmando aspectos centrais para a história. E tudo isso em um mundo patriarcal. Vale a pena refletir sobre isso!

sábado, 7 de maio de 2011

Lançado ...

Amigas e amigos,

O lançamento aconteceu. Tivemos um debate muito agradável sobre o livro, além de contarmos também com a presença de Alessandro Rocha, que lançava seu livro sobre Ecumenismo no século XXI. O estímulo de vocês nos motivou a transformar nossos papos em livro. Por isso, agradecemos sinceramente a todas e todos vocês, e esperamos continuar nos divertindo e nos motivando a ler mais e melhor a Bíblia - afinal de contas, a alegria do Senhor é a nossa força.

domingo, 1 de maio de 2011

Lançamento do livro "A Bíblia sob três olhares"

Caros amigos blogeiros.

Fazemos um pequeno intervalo em nossas atividades para comunicar com muita alegria que as mensagens de nosso blog foram transformadas em livro: "A Bíblia sob três olhares", publicado pela Fonte Editorial.

Agradecemos o apoio e o estímulo de vocês, leitores deste blog, por intermédio de mensagens e trocas de informações.

O livro será lançado em São Paulo, no próximo sábado, dia 07/05, às 10h00, na Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras, Alameda Jaú, n. 752, próximo da estação Trianon-Masp do Metrô. Haverá uma bate-papo sobre o livro.

Todos estão convidados e ficaremos felizes em podermos encontrá-los pessoalmente.

Os editores.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

“Trocar o logos da posteridade pelo logo da prosperidade” – Rute 4

O título deste post é extraído de uma canção de Gilberto Gil, cujo título é Logos versus Logo, do disco Dia Dorim, Noite Neon (1985). Nessa canção, Gil faz sua leitura crítica da modernidade capitalista, defendendo sua utopia de um mundo artisticamente reencantado. Não me interessa, porém, interpretar Gil, mas, sim, voltar ao texto de Rute e suas paixões, inspirado pela inspiração do ex-ministro.

Notemos os termos relativos à posteridade no capítulo 4: “para perpetuar o nome do morto sobre seu patrimônio” (v. 5); “para perpetuar o nome do falecido sobre sua herança e para que o nome do falecido não desapareça do meio de seus irmãos nem da porta de sua cidade” (v. 10); “e que graças à posteridade que Iahweh te vai dar desta jovem, tua casa seja semelhante a de Farés” (v. 12); “que seu nome seja célebre em Israel” (v. 14); e “esta é a posteridade/descendência de Farés” (v. 18).

Em um dicionário, a posteridade é descrita primariamente como descendência, ou como um tempo futuro. Enquanto paixão é descrita como “glória futura; celebridade, imortalidade” – ou seja, a posteridade tem a ver com a atitude da pessoa diante da ausência, uma atitude mais marcada pela esperança e segurança do que pela aflição e insegurança. Em culturas nas quais a honra da pessoa vale tanto quanto, ou até mais do que o patrimônio econômico, a possibilidade da extinção do nome é um perigo, uma ameaça constante. Contra a extinção do nome e o fim da honra se erige a expectativa da posteridade, da continuidade do nome, da própria existência. Em outras palavras, a expectativa positiva de descendentes gera a paixão positiva da posteridade, a esperança de ter o nome e o patrimônio perpetuados. A posteridade, tanto econômica como existencial, depende da descendência. Os filhos garantem a continuidade, a permanência do nome e do patrimônio (nos versos 5 e 10 usa-se o verbo qûm, firmar, estabelecer, confirmar, fazer durar); nos versos 2 e 18 trata-se da semente e das gerações futuras e no verso 14 trata-se do verbo “proclamar”, ou seja, trata-se de que o nome de Farés (Peres) continue a ser mencionado, falado em Israel.

Em culturas como a nossa, fortemente marcadas pelo presenteísmo de cunho capitalista, o futuro é intensamente vinculado ao presente, de modo que a expectativa de posteridade é substituída pela ambição (em dicionário descrita como “forte desejo” ou “anseio veemente”), posto que a posteridade é vinculada exclusivamente ao patrimônio – é este que dura, nós, humanos, morremos. Nosso nome somente pode perdurar se a ele estiver associada uma riqueza, uma realização objetiva. É a isto que Gil faz menção com sua frase lapidar “trocar o logos da posteridade, pelo logo da prosperidade”. Uma é paixão solidária, intersubjetiva. Outra é paixão conquistadora, objetiva. Quando a posteridade não é apenas objeto, mas valor cultural, desenvolve a paixão de uma permanência existencial, humana, intersubjetiva. Quando, porém, a posteridade é mero objeto, valor monetário, desenvolve-se a paixão de uma ansiedade objetual, um querer-ter desmesurado que subordina o querer-ser.

Não seria o sucesso da “teologia da prosperidade” um sintoma da negação da posteridade? A ambição no lugar da reputação? O patrimônio no lugar da existência?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Descendência – a bênção final. Rute 4

Até este momento percorremos a saga de Noemi e Rute através da perda de bens e familiares em terra estranha, e o retorno para Belém em total desamparo. A partir daquele momento, principalmente pela estratégia de Noemi e a bondade de Boaz o destino das mulheres começou a ser alterado. Elas conseguiram sustento e a promessa de resgate da parte de Boaz.

O capítulo 4 coloca em prática aquilo que Noemi havia dito de Boaz (3.18). Segundo ela, ele não descansaria até resolver o problema do resgate. O narrador não nos dá a conhecer de onde vem a convicção da anciã a respeito do parente. Mas ela está certa, nesse mesmo dia ele procura resolver a questão do resgate (4.1).

Boaz já havia informado Rute que havia um resgatador mais próximo de Noemi, ao qual caberia o direito do resgate (3.12). Sob ele estaria a responsabilidade de resgatar a terra da parente e de gerar descendência a Rute (Dt 25.5-10). Por isso, Boaz se dirige para a porta da cidade, local onde os relacionamentos sociais dos mais diversos níveis se davam (4.1), chama testemunhas e o resgatador, apresentando-lhes a situação. Este aceita resgatar a terra de Noemi (4.4), possivelmente vendida antes da ida para Moabe, e que agora ela pretendia reaver, mas sem ter condições para tanto. Entretanto, quando é notificado a respeito da responsabilidade de gerar um filho para Rute, ele rejeita sua responsabilidade, alegando que tal atitude prejudicaria sua herança (4.5-6). Possivelmente o que estava em jogo era a legislação mosaica que previa a possibilidade de um parente receber a herança de outro sem descendentes imediatos (Nm 27.1-11). Portanto, receber Rute significava ter sobre si a sombra de ter que dividir suas posses com outra pessoa, o que obviamente geraria problemas familiares.

Para formalizar sua recusa, o resgatador executa um ritual antigo e desconhecido dos leitores/ouvintes, visto que o narrador sente necessidade de explicá-lo (4.7-8). Boaz, então, vê-se liberado para assumir Noemi e Rute. Ele readquire os bens de Noemi e casa-se com Rute para suscitar descendência a Malom (4.9-10).

As testemunhas e o povo, que havia se ajuntado à porta, proclamam uma bênção para a nova família, desejando-lhes felicidade e prosperidade. A introdução desse grupo de expectadores desempenha a função de confirmar e de realçar publicamente o que havia ocorrido. Dessa forma, a imagem inicial de sofrimento que as duas mulheres deram a conhecer aos moradores de Belém (1.19) é substituída, ao final, pela imagem de bênção.

Situação familiar resolvida, descendência prometida, o clímax da história se efetivará no bloco final (4.13-22). Tais versículos serão comentados no próximo post.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A bondade como centro da vida

Caminhando para o final das análises do pequeno livro de Rute, julgo que é conveniente gastar algumas palavras sobre um elemento central em seu enredo: as ações bondosas dos personagens no contexto familiar.

Não que o estímulo para fazer o bem se retrinja aos do nosso próprio sangue, mas é com eles que tal compromisso possui maior concretude de realização e, em geral, é colocado em segundo plano ou mesmo esquecido.

Primeiramente é importante destacar que a bondade assume maior relevância em situações de necessidade. Nem sempre, mas principalmente. É o que se vê no capítulo inicial do livro. A ação bondosa de Rute ocorre quando da morte do esposo e dos filhos de Noemi, momento em que está sozinha e desamparada.

Rute continua amparando e cuidando de Noemi no capítulo dois. Quando as duas mulheres chegam em Belém, ela sai para os campos em busca de alimento. Vai de um campo a outro, até chegar nas terras de Boaz. Ali passa o dia trabalhando incansavelmente.

No capítulo três Rute segue orientações de Noemi e vai até Boaz para estimulá-lo a assumir seu papel de resgatador. Para tanto, ela se submete detalhadamente às indicações da sogra a respeito de como proceder. Não há, da parte dela, nenhuma revolta ou desprezado para com a anciã.

Noemi, por sua vez, amparada e sob os cuidados de Rute, preocupa-se com o destino dela e, desse modo, age bondosamente. Tal postura pode ser vista já no primeiro capítulo. Mesmo sozinha, insta com as noras para que retornem para seu povo e suas famílias. Orfa, compreendendo a situação e que era, de fato, o mais sensato a ser feito, aceita o conselho e retorna para o lar paterno. Isso demonstra que Noemi não estava blefando.

Nos capítulos dois e três Noemi assume o papel de conselheira de Rute. Após esta voltar dos campos e do encontro com Boaz, é a sogra que esclarece quem é aquele homem a orienta a manter contato com ele. O capítulo três inicia com a preocupação de Noemi sobre o futuro de Rute. Não deseja que tenha seu destino: ficar abandonada e só. Assume o compromisso de buscar um lar para ela. É nesse contexto que arquiteta o plano para que Rute se achegue a Boaz.

Boaz, por sua vez, é descrito como o homem bom por excelência. Não apenas permite que Rute recolha espigas em suas terras, o que seria normal, mas também lhe dá gratuitamente espigas, por duas vezes, para que se alimente assim com a sogra. Ele cuida para que ela não seja molestada por nenhum de seus funcionários e assume o compromisso de resgatar as mulheres, caso o parente mais próximo desista.

Bem, todo ato de bondade tem um preço a ser pago. Nesta história não é diferente. Rute deixa os seus, sua terra e a opção de buscar casamento com alguém de sua idade para casar-se com Boaz, homem muito mais velho. Noemi não se permite afundar em depressão e negativismos. Continua firme e coloca Rute em primeiro plano. Boaz, homem de posses e compromissos, não se esquece de seu dever perante a lei e assume os compromissos, inclusive financeiros, do resgate.

Concluindo, é muito bela a forma como o narrador constrói as linhas de relacionamento entre os personagens principais de sua história. A bondade está presente em todos os momentos, nos ensinando que a família é o bem maior que temos e a quem devemos compromissos de cuidado e zelo, mesmo quando, e isso sempre acontece, isso nos seja difícil.

Como a história de bondades múltiplas termina? É o que veremos no capítulo 4.