Posto minha última mensagem sobre 1 Samuel 1. Não que o assunto se esgote aqui, mas sempre é interessante deixar espaços em aberto para que os leitores contribuam com suas interpretações.
Foco neste post a questão dos conflitos presentes no texto. Eles se manifestam no desenvolvimento do enredo conforme descrevo abaixo.
O versículo 5 introduz o primeiro conflito. Ele já está em germe no versículo 2 quando o narrador informa que Penina possuía filhos e Ana não. Mas a tensão propriamente dita será construída a partir do bloco de versículos 5-8. Todas as tensões giram em torno da questão filho x não filho. Ainda no versículo 5 o leitor é introduzido ao conflito mais profundo – entre Deus e Ana.
Outro conflito se configura no versículo 6: Penina x Ana. Há uma espécie de complô entre Deus e Penina contra Ana. O Senhor se opunha a Ana, visto que a havia deixado estéril. Agora Penina se junta ao Senhor para humilhá-la, assumindo, ambos, a posição de antagonistas. Se em um primeiro momento não está claro que Ana é a protagonista, nesta segunda tensão começa a se delinear sua posição central na narrativa.
Ainda outro conflito coloca em oposição Elcana e Ana (v. 8). Tal oposição não se manifestou anteriormente na relação entre eles. Mas já era pressentida. Elcana não consegue dar fim à angústia de Ana, por isso sua pergunta inicialmente não recebe resposta. Indiretamente, sua questão: “Não te sou eu melhor do que dez filhos?”, traz à tona as tensões já existentes entre Ana, o Senhor e Penina. O círculo conspiratório contra Ana se fecha.
A partir do versículo 9 Ana ganha posição de destaque como protagonista. O texto tem seu ponto alto em sua busca por resolução. Devemos lembrar que é justamente nesse ponto que o narrador dá a deixa ao leitor para interagir com a protagonista através do tempo psicológico ao omitir o conteúdo de sua oração. Tal estratégia fará com que o leitor crie a expectativa de, à semelhança de Ana, experimentar a ação transformadora do Senhor em sua própria vida.
Ela come e bebe, se levanta e vai orar – ela busca a resolução. Deus é o responsável por seu sofrimento, por isso deve-se concluir que ele tem a responsabilidade de desfazer o mal causado. Mas Ana não está disposta a esperar passivamente. Ela assume uma postura ativa e sai em busca de ajuda.
Esta é uma resolução parcial, pois não sabemos o que acontecerá. Também, de certo modo, a tensão se intensifica, visto que agora Ana interpela o Senhor para resolver o conflito entre eles. Quando pensaríamos que a partir desse momento os problemas seriam resolvidos, surge outra tensão e uma nova humilhação. O narrador age desse modo para dramatizar a narrativa. Eli a tem por embriagada, pois na intensidade de sua oração ela move os lábios sem emitir som. A oração silenciosa era algo estranho à época. Nesse momento, nem o leitor, nem qualquer outro personagem tem conhecimento do conteúdo da oração. A tensão com Eli é também a tensão com Deus, pois o sacerdote é seu representante.
No versículo 17 se dá a resolução do conflito com Eli. O último a confrontá-la é o primeiro a reatar relacionamento com ela. O sacerdote lhe dá uma palavra de encorajamento, esperançoso de que Deus atenda ao seu pedido. Em função dessa palavra o versículo 18 nos diz que o semblante de Ana já não era triste. No versículo 19 ela já participa da adoração com sua família. O verbo se encontra no plural, ao contrário do versículo 3, quando a adoração era um ato individual de Elcana. Ana demonstra crer na palavra do sacerdote e, pela fé, sua tensão com o Senhor começa a ser resolvida.
A próxima resolução liga-se a Elcana e prossegue paralelamente à resolução da tensão com o Senhor. O filho gerado é a resposta da pergunta: “Não te sou eu melhor do que dez filhos?” (v. 8). Não! É a resposta categórica, embora implícita. Melhor é o presente de Deus a Ana! É interessante notar que Deus apenas se lembra, mas quem concebe é Ana (v. 19-20). A protagonista ainda permanece em primeiro plano.
No final, Ana recusa-se a voltar ao templo antes de poder confirmar a consagração do menino. Sem o menino desmamado, o santuário continuaria a representar humilhação para ela. Nesse sentido, não haveria ainda resolução do conflito entre ela e Deus.
Quando finalmente volta a Siló, com o filho já desmamado, se dá a resolução final. Ana cumpre todo o processo cultual para consagrar a vida de Samuel a Deus. Portanto, o ponto central da narrativa não é a questão de Ana poder ou não conceber e as implicações pessoais que isso poderia gerar. A questão é, sim, a falta de um filho, mas não um filho para ela, e sim um filho para Deus – Ana entrega, como expressão de gratidão, o filho gerado àquele que permitiu que ela concebesse.
Conclui-se, a partir dessa análise, que a mensagem central do texto é o conflito relacional entre Ana e o Senhor demonstrado na esterilidade e solucionado na concepção. Não existe dramaticidade em torno da esterilidade. A ausência de filhos na narrativa não enfatiza as questões sociais que se seguiriam se fosse aplicada uma interpretação unicamente histórica, mas sim o problema no relacionamento com Deus que isso implica. Não ter filhos significava ser esquecida por Deus. Por isso Ana diz que o Senhor se “lembrou” dela. Esse conflito relacional é resolvido porque Deus deixa de se opor a ela e se torna seu aliado. Segundo as próprias palavras de Ana: “Por este menino orava eu; e o SENHOR me concedeu a petição que eu lhe fizera (v. 27)”.
Na conclusão há um momento de adoração envolto por um sentimento de gratidão quando os pais entregam a vida de Samuel ao Senhor. É significativo recordar que existem três momentos de adoração na narrativa, esboçando começo, meio e fim. No versículo 3 a adoração significa humilhação para Ana, quando só Elcana adora; no versículo 19 Ana adora por fé, por causa da palavra do sacerdote; e agora, no versículo 28, ambos adoram com gratidão devido à consagração de Samuel. Nessa adoração Elcana e Ana estão em situação de igualdade. Ir ao templo para adorar, o que antes era um peso para Ana, agora é motivo de gratidão e de identificação com seu esposo.
sábado, 3 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Paixões e Valores em I Sm 1 - de novo
Bem, agora meu interesse recai sobre Elcana, o marido de Ana. Que paixões textuais de Elcana podemos encontrar?
Elcana, como já dito pelo Leonel, é personagem secundário. Está na narrativa para realçar características da personagem principal, Ana. Secundário enquanto personagem, mas primário na sociedade israelita [pelo menos na sociedade de papel] - ele é apresentado (1,1) como efraimita (tribo de importância em Israel naqueles tempos) e quatro gerações de antepassados são nomeadas (sinal de status social elevado naqueles tempos). É, também, apresentado como fiel seguidor de YHWH dos Exércitos (1,3), indo anualmente a Siló para participar da festa de YHWH com as mãos cheias, como ensinava o Deuteronômio. Enfim, é marido de duas esposas, Ana e Penina, a primeira, estéril (provisoriamente), a segunda, mãe de "todos os filhos e filhas" de Elcana. Como fiel adorador, ao sacrificar, comia parte do animal sacrificado na companhia de sua família, distribuindo às esposas e filhos as porções devidas.
Bem, aqui é que o retrato passional de Elcana é manifesto no texto: dele se diz que "amava" a Ana (´ähëb - o verbo está no perfeito qal, indicando que, de fato, ele a amava). Por que ele a amava, dava a Ana uma porção diferenciada da refeição litúrgica (o TM é de difícil tradução. As duas opções são antagônicas - ou ele dava a Ana porção "única", menor do que a dada a Penina, ou ele lhe dava uma porção "dupla". Para efeitos de interpretação, no final das contas, não há dificuldade, na medida em que o que importa semanticamente é que a porção de Ana era diferente da de Penina). O verbo amar não é usado constantemente para se referir à relação entre esposos na BH, de modo que seu uso aqui deve ser destacado. O texto modaliza a relação de Elcana e Ana como relação de amor da parte dele para com ela. É interessante, posto que se esperava dos inferiores que amassem os superiores - este uso do verbo amar é comum na literatura de cunho deuteronomista na BH. Ao descrever Elcana como alguém que ama sua esposa, o texto, de certa forma, inverte os papéis sociais, e subordina Elcana a Ana. O sentimento de Elcana, assim, pode ser descrito como forte, intenso, pois de outra forma ele poderia ter se divorciado da esposa que não lhe dava filhos.
A intensidade do amor de Elcana é explicitada no verso 8, em que pergunta a Ana: "Não te sou eu melhor de que dez filhos?" Pergunta típica de marido excessivamente amoroso. Ana sofre e ele tenta compensar seu sofrimento dando-lhe o melhor de si, chegando ao ponto de tratá-la diferenciadamente de Penina e seus filhos. Excesso de amor, carência de justiça. Ao tentar ajudar Ana, Elcana não vê a situação do ponto de vista dela, mas da dele mesmo. O amor de Elcana é tão intenso que o torna egocêntrico e injusto para com Penina. Tão intenso que o torna idólatra - pois Elcana assume o papel de YHWH e cumula Ana de bênçãos - mas às expensas de Penina.
Amor tão grande que Elcana perde o discernimento e se mete em confusões insolúveis. Pena que a narrativa se afaste do drama familiar e se concentre em Ana e Samuel. Eu gostaria muito de saber como era o dia-a-dia da família adrministrada amorosamente, mas de forma pouco inteligente, por Elcana.
Uma tríplice pergunta: O amor de Elcana era tão afetado pelo patriarcalismo, que se tornou egocêntrico, idólatra e injusto? Ou, o amor de Elcana era tão verdadeiro e intenso, que se tornou egocêntrico, idólatra e injusto? Ou, o amor é uma paixão tão complicada e perigosa que se não for bem dosado (pessoal e socialmente) inevitavelmente se torna egocêntrico, idólatra e injusto? Afinal de contas, como diz a poetisa de Cantares, "o amor é forte como a morte". Se o amor não fosse perigoso, não seria melhor descrevê-lo como "forte como a vida"? ...
Elcana, como já dito pelo Leonel, é personagem secundário. Está na narrativa para realçar características da personagem principal, Ana. Secundário enquanto personagem, mas primário na sociedade israelita [pelo menos na sociedade de papel] - ele é apresentado (1,1) como efraimita (tribo de importância em Israel naqueles tempos) e quatro gerações de antepassados são nomeadas (sinal de status social elevado naqueles tempos). É, também, apresentado como fiel seguidor de YHWH dos Exércitos (1,3), indo anualmente a Siló para participar da festa de YHWH com as mãos cheias, como ensinava o Deuteronômio. Enfim, é marido de duas esposas, Ana e Penina, a primeira, estéril (provisoriamente), a segunda, mãe de "todos os filhos e filhas" de Elcana. Como fiel adorador, ao sacrificar, comia parte do animal sacrificado na companhia de sua família, distribuindo às esposas e filhos as porções devidas.
Bem, aqui é que o retrato passional de Elcana é manifesto no texto: dele se diz que "amava" a Ana (´ähëb - o verbo está no perfeito qal, indicando que, de fato, ele a amava). Por que ele a amava, dava a Ana uma porção diferenciada da refeição litúrgica (o TM é de difícil tradução. As duas opções são antagônicas - ou ele dava a Ana porção "única", menor do que a dada a Penina, ou ele lhe dava uma porção "dupla". Para efeitos de interpretação, no final das contas, não há dificuldade, na medida em que o que importa semanticamente é que a porção de Ana era diferente da de Penina). O verbo amar não é usado constantemente para se referir à relação entre esposos na BH, de modo que seu uso aqui deve ser destacado. O texto modaliza a relação de Elcana e Ana como relação de amor da parte dele para com ela. É interessante, posto que se esperava dos inferiores que amassem os superiores - este uso do verbo amar é comum na literatura de cunho deuteronomista na BH. Ao descrever Elcana como alguém que ama sua esposa, o texto, de certa forma, inverte os papéis sociais, e subordina Elcana a Ana. O sentimento de Elcana, assim, pode ser descrito como forte, intenso, pois de outra forma ele poderia ter se divorciado da esposa que não lhe dava filhos.
A intensidade do amor de Elcana é explicitada no verso 8, em que pergunta a Ana: "Não te sou eu melhor de que dez filhos?" Pergunta típica de marido excessivamente amoroso. Ana sofre e ele tenta compensar seu sofrimento dando-lhe o melhor de si, chegando ao ponto de tratá-la diferenciadamente de Penina e seus filhos. Excesso de amor, carência de justiça. Ao tentar ajudar Ana, Elcana não vê a situação do ponto de vista dela, mas da dele mesmo. O amor de Elcana é tão intenso que o torna egocêntrico e injusto para com Penina. Tão intenso que o torna idólatra - pois Elcana assume o papel de YHWH e cumula Ana de bênçãos - mas às expensas de Penina.
Amor tão grande que Elcana perde o discernimento e se mete em confusões insolúveis. Pena que a narrativa se afaste do drama familiar e se concentre em Ana e Samuel. Eu gostaria muito de saber como era o dia-a-dia da família adrministrada amorosamente, mas de forma pouco inteligente, por Elcana.
Uma tríplice pergunta: O amor de Elcana era tão afetado pelo patriarcalismo, que se tornou egocêntrico, idólatra e injusto? Ou, o amor de Elcana era tão verdadeiro e intenso, que se tornou egocêntrico, idólatra e injusto? Ou, o amor é uma paixão tão complicada e perigosa que se não for bem dosado (pessoal e socialmente) inevitavelmente se torna egocêntrico, idólatra e injusto? Afinal de contas, como diz a poetisa de Cantares, "o amor é forte como a morte". Se o amor não fosse perigoso, não seria melhor descrevê-lo como "forte como a vida"? ...
sábado, 26 de junho de 2010
1 Sm 1. "Personagens"
Os personagens são configurados pelo narrador com objetivos retóricos. Eles exercem a função de protagonistas (herói e anti-herói) ou antagonistas.
O protagonista é o personagem principal. Ele pode ser o herói - aquele que possui características superiores às de seu grupo. Um exemplo clássico de protagonista herói é Jesus Cristo. O personagem protagonista também pode ser anti-herói, aquele que está ocupando a posição central, mas, no entanto, não tem as características esperadas de um herói. Um exemplo: Jonas. Já o antagonista é aquele que se opõe ao protagonista, configurando a tensão dentro da narrativa. Ele é o vilão da história. Exemplos típicos são Acabe e Jezabel, os fariseus etc.
Os personagens também são classificados quanto à caracterização. Eles podem ser redondos ou planos. O personagem plano é aquele descrito com poucas características e sem profundidade, sendo facilmente identificado pelo leitor. Em narrativas bíblicas tais personagens geralmente exercem apenas uma função. Já os personagens chamados redondos são principalmente os protagonistas, embora alguns antagonistas possam ser igualmente inseridos nessa classificação. Tais personagens são bastante desenvolvidos e complexos, podendo receber características físicas, psicológicas, emocionais, morais e espirituais. Exemplos típicos de personagens redondos são Moisés, Davi e Jesus Cristo.
1 Samuel 1 apresenta os seguintes personagens: Elcana, Ana, Penina, Senhor, Eli e Samuel. Quanto à classificação, Elcana, Penina e Eli são personagens secundários e planos, visto que não temos muitas informações a respeito de suas características e eles exercem função secundária na história. Samuel é um personagem, mesmo que não atue ou fale. Segundo Cássio Murilo Dias da Silva, a mera aparição de um personagem já é suficiente para caracterizá-lo na narrativa (SILVA, 2000, p. 70). Samuel é especial e simboliza a transformação que o Senhor efetuou na vida de Ana.
Ana é o personagem principal – a protagonista. Agora, ela é heroína ou anti-heroína? Analisando o contexto da sociedade patriarcal da época, apenas o fato de ser mulher já a colocava em um plano inferior aos homens, sendo considerada somente como um bem do esposo. A principal função da mulher era prover descendentes – aí entra outro fator desqualificante de Ana, uma vez que era estéril. Ela é o típico personagem anti-herói, ou uma heroína às avessas, com características inferiores ao grupo ao qual pertence. Apesar de ser a primeira esposa, ela é a que não pode gerar filhos. É possível que Elcana tenha se casado com Penin somente por que Ana não lhe dera herdeiros. Há uma oposição entre os personagens Elcana, o homem descrito em suas origens nobres (v. 1), e Ana, a mulher estéril que não dará continuidade à família.
Ana é descrita com uma variedade de características físicas, psicológicas, sociais, morais e espirituais. O modo como o narrador apresenta tais dados tem como objetivo produzir interação entre leitor e personagem. Quando a característica é exposta diretamente pelo narrador por meio de comentários, o leitor pode confiar nas informações e não há necessidade de questionamentos. Uma reflexão mais aprofundada é exigida quando o narrador coloca o personagem em primeiro plano, falando e agindo. Nesse caso o leitor recebe a tarefa de elaborar suas conclusões a partir do contato direto com o personagem.
No caso de Ana, o narrador nos informa de sua esterilidade (v. 5, 6), o que configura uma característica social – devido ao fato vergonhoso de uma mulher não poder gerar descendentes em uma sociedade patriarcal. Sabemos de sua angústia mediante seu marido: “Ana, por que choras? E por que não comes? E por que estás de coração triste?” (v. 8); pela voz do narrador: “com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (v. 10); e por intermédio de sua própria fala: “Eu sou mulher atribulada de espírito” (v. 15). Apesar da situação de angústia vivida no início da narrativa, o final demonstrará que a mudança dos fatos a tornará grata.
Assim também ocorre com as características morais. Hannah é boa ou ruim? Honesta ou desonesta? O narrador não a julga, mas existe uma certa tensão sobre o assunto: Eli a julga embriagada, mas Ana defende-se afirmando não ser uma “filha de Belial” – não é ímpia. Nesse caso, o narrador expõe o ponto de vista dos personagens, omitindo-se de opinar. Ao final o leitor deverá, diante da história, definir quem está certo.
A principal característica à espera de definição pelo leitor é a espiritual: Ana é uma pessoa de fé, convicta. Esse é o ponto central do personagem. Na interação do leitor com Ana, essa característica deve ser assumida e encarnada na sua espera não passiva, “lutadora” (v. 26).
Ainda dentro das características espirituais de Ana, percebemos que a maior tensão se dá em sua relação com o Senhor. Como se opõe à protagonista, Deus pode ser entendido inicialmente como o vilão da história. Afinal, ele é a causa da esterilidade de Ana, que é o principal motivo de sua humilhação. E não se deve esquecer que tal fato se passa na Casa do Senhor, de ano em ano. No entanto, essa situação não se manterá. Deus se converterá em aliado de Ana ao final da narrativa, agindo e transformando sua situação.
O protagonista é o personagem principal. Ele pode ser o herói - aquele que possui características superiores às de seu grupo. Um exemplo clássico de protagonista herói é Jesus Cristo. O personagem protagonista também pode ser anti-herói, aquele que está ocupando a posição central, mas, no entanto, não tem as características esperadas de um herói. Um exemplo: Jonas. Já o antagonista é aquele que se opõe ao protagonista, configurando a tensão dentro da narrativa. Ele é o vilão da história. Exemplos típicos são Acabe e Jezabel, os fariseus etc.
Os personagens também são classificados quanto à caracterização. Eles podem ser redondos ou planos. O personagem plano é aquele descrito com poucas características e sem profundidade, sendo facilmente identificado pelo leitor. Em narrativas bíblicas tais personagens geralmente exercem apenas uma função. Já os personagens chamados redondos são principalmente os protagonistas, embora alguns antagonistas possam ser igualmente inseridos nessa classificação. Tais personagens são bastante desenvolvidos e complexos, podendo receber características físicas, psicológicas, emocionais, morais e espirituais. Exemplos típicos de personagens redondos são Moisés, Davi e Jesus Cristo.
1 Samuel 1 apresenta os seguintes personagens: Elcana, Ana, Penina, Senhor, Eli e Samuel. Quanto à classificação, Elcana, Penina e Eli são personagens secundários e planos, visto que não temos muitas informações a respeito de suas características e eles exercem função secundária na história. Samuel é um personagem, mesmo que não atue ou fale. Segundo Cássio Murilo Dias da Silva, a mera aparição de um personagem já é suficiente para caracterizá-lo na narrativa (SILVA, 2000, p. 70). Samuel é especial e simboliza a transformação que o Senhor efetuou na vida de Ana.
Ana é o personagem principal – a protagonista. Agora, ela é heroína ou anti-heroína? Analisando o contexto da sociedade patriarcal da época, apenas o fato de ser mulher já a colocava em um plano inferior aos homens, sendo considerada somente como um bem do esposo. A principal função da mulher era prover descendentes – aí entra outro fator desqualificante de Ana, uma vez que era estéril. Ela é o típico personagem anti-herói, ou uma heroína às avessas, com características inferiores ao grupo ao qual pertence. Apesar de ser a primeira esposa, ela é a que não pode gerar filhos. É possível que Elcana tenha se casado com Penin somente por que Ana não lhe dera herdeiros. Há uma oposição entre os personagens Elcana, o homem descrito em suas origens nobres (v. 1), e Ana, a mulher estéril que não dará continuidade à família.
Ana é descrita com uma variedade de características físicas, psicológicas, sociais, morais e espirituais. O modo como o narrador apresenta tais dados tem como objetivo produzir interação entre leitor e personagem. Quando a característica é exposta diretamente pelo narrador por meio de comentários, o leitor pode confiar nas informações e não há necessidade de questionamentos. Uma reflexão mais aprofundada é exigida quando o narrador coloca o personagem em primeiro plano, falando e agindo. Nesse caso o leitor recebe a tarefa de elaborar suas conclusões a partir do contato direto com o personagem.
No caso de Ana, o narrador nos informa de sua esterilidade (v. 5, 6), o que configura uma característica social – devido ao fato vergonhoso de uma mulher não poder gerar descendentes em uma sociedade patriarcal. Sabemos de sua angústia mediante seu marido: “Ana, por que choras? E por que não comes? E por que estás de coração triste?” (v. 8); pela voz do narrador: “com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (v. 10); e por intermédio de sua própria fala: “Eu sou mulher atribulada de espírito” (v. 15). Apesar da situação de angústia vivida no início da narrativa, o final demonstrará que a mudança dos fatos a tornará grata.
Assim também ocorre com as características morais. Hannah é boa ou ruim? Honesta ou desonesta? O narrador não a julga, mas existe uma certa tensão sobre o assunto: Eli a julga embriagada, mas Ana defende-se afirmando não ser uma “filha de Belial” – não é ímpia. Nesse caso, o narrador expõe o ponto de vista dos personagens, omitindo-se de opinar. Ao final o leitor deverá, diante da história, definir quem está certo.
A principal característica à espera de definição pelo leitor é a espiritual: Ana é uma pessoa de fé, convicta. Esse é o ponto central do personagem. Na interação do leitor com Ana, essa característica deve ser assumida e encarnada na sua espera não passiva, “lutadora” (v. 26).
Ainda dentro das características espirituais de Ana, percebemos que a maior tensão se dá em sua relação com o Senhor. Como se opõe à protagonista, Deus pode ser entendido inicialmente como o vilão da história. Afinal, ele é a causa da esterilidade de Ana, que é o principal motivo de sua humilhação. E não se deve esquecer que tal fato se passa na Casa do Senhor, de ano em ano. No entanto, essa situação não se manterá. Deus se converterá em aliado de Ana ao final da narrativa, agindo e transformando sua situação.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Paixões e Valores em I Sm 1
1. O olhar semiótico possui várias semelhanças com o narrativo – por exemplo, ocupa-se das questões sintáticas e semânticas da temporalização, do enredo, das personagens, etc. Uma das peculiaridades da leitura semiótica dos anos 1990 em diante é o foco sobre as paixões manifestas no texto. Não se trata, é claro, de uma análise psicológica das personagens (o que se pode fazer fora do modo semiótico de ler), mas de uma análise das paixões enquanto objetos semióticos, que configuram (modalizam) os sujeitos e suas ações e relações. Trata-se de examinar, então, as chamadas “paixões de papel”, um componente da estrutura narrativa de todo e qualquer texto (ainda que sua presença seja ocultada na superfície discursiva e textual). Para quem gosta do assunto, as duas obras indispensáveis são: Semiótica das Paixões (A. J. Greimas & J. Fontanille) e Tensão e Significação (C. Zilberberg & J. Fontanille).
2. Vamos ao texto. Ana é uma das personagens principais do texto, apresentada com riqueza de detalhes, inclusive em seu percurso passional. Quero olhar para uma de suas paixões, explícitas, no trecho, que é assim traduzida em português “Por que teu coração está triste?” (BJ, ARA, Almeida 21) ou “por que te afliges?” (BP). O texto hebraico tem o imperfeito qal yëra` que é quase sempre traduzido por “fazer mal”, “ser maligno” – no léxico mais recente e amplo, somente 4 vezes o termo é traduzido por tristeza ou similar. Não vejo com bons olhos (um trocadilho, posto que em Dt 15,10 temos a frase “não seja maligno teu olho” – que no léxico é traduzido por “triste”!) essa tradução. A meu ver ela reduz o turbilhão passional vivenciado por Ana. Senão vejamos: Ana é a primeira esposa de Elcana (na ordem textual), mas não tem filhos, “porque YHWH havia fechado seu útero” (1,5b.6b). Sendo estéril, Ana não participava plenamente do sacrifício anual e era humilhada pela segunda esposa, Fenena, mãe dos filhos de Elcana.
3. O que está em jogo não é apenas tristeza, embora Elcana talvez olhasse para Ana desse modo, pois perguntara: “Será que eu não valho para ti mais do que dez filhos?” (Deixemos de lado a paixão de Elcana – soberba? arrogância?). Não. Não se trata de mera tristeza, mas de algo muito mais profundo. Ana é descrita como tendo o coração cheio de (ou portador de) mal/maldade. Não em sentido ativo, mas em sentido passivo. Ana sentia-se amaldiçoada. De fato, YHWH a amaldiçoara com a esterilidade. O peso da maldição de YHWH sobre seu corpo era tamanho que ela se curvava e encurvava, incapaz de celebrar, incapaz de se alimentar. No verso 10, o TM a descreve como mäºrat näºpeš “interiormente amarga”, vítima do mal e da maldade de YHWH (?), da esposa rival e da sua sociedade. Hoje em dia possivelmente ela seria diagnosticada como uma pessoa deprimida, com grave depressão. Mesmo deprimida, ela se dirige a YHWH em oração e clama a ele para que atente para a sua “opressão” (Bo`ónî é termo usado para o sofrimento dos hebreus no Egito) e lhe dê um filho homem. Deprimida, humilhada, oprimida, incapaz de encontrar um rumo na vida, ela suplica a YHWH que lhe dê um “êxodo” – um filho homem. Pedido estranho. Não radical politicamente. Por que não pedir a YHWH que mudasse a sociedade? Ela pede um filho homem – para que, de posse desse objeto valioso, ela fosse bem-vista (não mais mal-vista) pelas pessoas e pela sociedade ao seu redor. Quem sabe, assim, ela poderia olhar para si mesma também com outros olhos!
4. O sacerdote, observando-a em oração extática (êxtase de sofrimento, não de alegria, é claro!), julga-a embriagada (13-14), ao que Ana retruca: não estou bêbada, estou desgraçada (qüšat-rûªH), literalmente “de espírito arruinado”. Arruinada como fruto da opressão e humilhação que sofria cotidianamente e a deixava envergonhada, vexada, fechada para a vida (Kî|-mëröb SîHî wüka`sî 16b). Do fundo de seu desespero, porém, Ana faz um voto a YHWH: entregará a ele seu filho, fará dele um Isaque vivo (sacrifício vivo, santo e agradável a YHWH!). Voto votado, voto cumprido (1,19-28). Deprimida, amargurada, desesperada, arruinada, mas ainda assim cheia de fé e de esperança – ora, suplica, clama, vota e cumpre seu voto. Tudo na vida de Ana a conduzia para a morte – YHWH, Fenena, a sociedade, mesmo seu marido que a amava mas não a entendia ... Ana foi mais forte do que todos esses poderes mortais, suportou o peso da opressão e não se deixou vencer pelas paixões destrutivas que vivenciava em sua humilhação. OK! Ela não mudou as estruturas da sociedade. Mas que obrigou YHWH a mudar, isso sim! Ana fez com que o sacerdote da nação colocasse o “Deus de Israel” (17) a serviço de uma simples mulher estéril. Êxodo passional. Talvez no século XXI a oração de Ana fosse mais ou menos assim: “Deusa de todas nós, devolve-me a minha soberania sobre meu próprio corpo, reconhece meu direito a um ventre livre” ...
2. Vamos ao texto. Ana é uma das personagens principais do texto, apresentada com riqueza de detalhes, inclusive em seu percurso passional. Quero olhar para uma de suas paixões, explícitas, no trecho, que é assim traduzida em português “Por que teu coração está triste?” (BJ, ARA, Almeida 21) ou “por que te afliges?” (BP). O texto hebraico tem o imperfeito qal yëra` que é quase sempre traduzido por “fazer mal”, “ser maligno” – no léxico mais recente e amplo, somente 4 vezes o termo é traduzido por tristeza ou similar. Não vejo com bons olhos (um trocadilho, posto que em Dt 15,10 temos a frase “não seja maligno teu olho” – que no léxico é traduzido por “triste”!) essa tradução. A meu ver ela reduz o turbilhão passional vivenciado por Ana. Senão vejamos: Ana é a primeira esposa de Elcana (na ordem textual), mas não tem filhos, “porque YHWH havia fechado seu útero” (1,5b.6b). Sendo estéril, Ana não participava plenamente do sacrifício anual e era humilhada pela segunda esposa, Fenena, mãe dos filhos de Elcana.
3. O que está em jogo não é apenas tristeza, embora Elcana talvez olhasse para Ana desse modo, pois perguntara: “Será que eu não valho para ti mais do que dez filhos?” (Deixemos de lado a paixão de Elcana – soberba? arrogância?). Não. Não se trata de mera tristeza, mas de algo muito mais profundo. Ana é descrita como tendo o coração cheio de (ou portador de) mal/maldade. Não em sentido ativo, mas em sentido passivo. Ana sentia-se amaldiçoada. De fato, YHWH a amaldiçoara com a esterilidade. O peso da maldição de YHWH sobre seu corpo era tamanho que ela se curvava e encurvava, incapaz de celebrar, incapaz de se alimentar. No verso 10, o TM a descreve como mäºrat näºpeš “interiormente amarga”, vítima do mal e da maldade de YHWH (?), da esposa rival e da sua sociedade. Hoje em dia possivelmente ela seria diagnosticada como uma pessoa deprimida, com grave depressão. Mesmo deprimida, ela se dirige a YHWH em oração e clama a ele para que atente para a sua “opressão” (Bo`ónî é termo usado para o sofrimento dos hebreus no Egito) e lhe dê um filho homem. Deprimida, humilhada, oprimida, incapaz de encontrar um rumo na vida, ela suplica a YHWH que lhe dê um “êxodo” – um filho homem. Pedido estranho. Não radical politicamente. Por que não pedir a YHWH que mudasse a sociedade? Ela pede um filho homem – para que, de posse desse objeto valioso, ela fosse bem-vista (não mais mal-vista) pelas pessoas e pela sociedade ao seu redor. Quem sabe, assim, ela poderia olhar para si mesma também com outros olhos!
4. O sacerdote, observando-a em oração extática (êxtase de sofrimento, não de alegria, é claro!), julga-a embriagada (13-14), ao que Ana retruca: não estou bêbada, estou desgraçada (qüšat-rûªH), literalmente “de espírito arruinado”. Arruinada como fruto da opressão e humilhação que sofria cotidianamente e a deixava envergonhada, vexada, fechada para a vida (Kî|-mëröb SîHî wüka`sî 16b). Do fundo de seu desespero, porém, Ana faz um voto a YHWH: entregará a ele seu filho, fará dele um Isaque vivo (sacrifício vivo, santo e agradável a YHWH!). Voto votado, voto cumprido (1,19-28). Deprimida, amargurada, desesperada, arruinada, mas ainda assim cheia de fé e de esperança – ora, suplica, clama, vota e cumpre seu voto. Tudo na vida de Ana a conduzia para a morte – YHWH, Fenena, a sociedade, mesmo seu marido que a amava mas não a entendia ... Ana foi mais forte do que todos esses poderes mortais, suportou o peso da opressão e não se deixou vencer pelas paixões destrutivas que vivenciava em sua humilhação. OK! Ela não mudou as estruturas da sociedade. Mas que obrigou YHWH a mudar, isso sim! Ana fez com que o sacerdote da nação colocasse o “Deus de Israel” (17) a serviço de uma simples mulher estéril. Êxodo passional. Talvez no século XXI a oração de Ana fosse mais ou menos assim: “Deusa de todas nós, devolve-me a minha soberania sobre meu próprio corpo, reconhece meu direito a um ventre livre” ...
terça-feira, 22 de junho de 2010
1 Samuel 1. Análise do "tempo"
Continuo a apresentação dos aspectos narrativos de 1 Samuel 1 voltando minha atenção para o elemento "tempo".
É necessário não esquecer o que afirmei na mensagem anterior, que os dados da narrativa devem ser vistos primeiramente como componentes "internos" de sua estruturação.
Após introduzir a história com a descrição dos personagens - Elcana, Penina e Ana -, e a constituição dos cenários - estão em Ramataim-Zofim, mas também se deslocam para o santuário de Silo - o narrador apresenta um dado temporal ao dizer que a família subia para Silo de "ano em ano" (v. 3). Isso é importante por situar temporalmente o que acontecerá a seguir: a humilhação imposta a Ana por Penina. A informação fica ainda mais clara com a afirmação ao término da disputa entre as mulheres: "E assim o fazia ele de ano em ano" (v. 7). Ou seja, a humilhação se repetia anualmente no santuário.
Outro elemento temporal, este com a função de organizar toda a narrativa, surge quando Ana faz voto ao Senhor dizendo que, se ele olhar para sua aflição e lhe conceder um filho, ela o dará ao Senhor (v. 11). Isso significa que o tempo exerce a função de gerar a tensão que se manterá até o nascimento de Samuel. Esse aspecto é ainda mais intensificado quando, após desfazer o equívoco de Eli, que pensava estar Ana embriagada (v. 13), esta recebe a bênção do sacerdote: "Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste" (v. 17). Fica a pergunta: Deus responderá, de fato, a Ana? Quando e como fará isso?
A partir do v. 19 segue-se a descrição da gravidez de Ana e do foco que se coloca em Elcana que segue com sua vida sem mudanças. Novamente, como fazia anualmente, ele sobe para Silo (v. 21). Mas desta vez Ana não o acompanha. Para ela, surge um novo ciclo temporal. O que determina o novo tempo de Ana é seu filho Samuel. Ela irá para Silo somente quando a criança puder acompanhá-la (v. 22). O que determina seu tempo não é mais o sacrifício anual, que podemos denominar "genérico", mas um tempo especial, específico, que é vinculado especialmente a ela: a obtenção de seu pedido e a consequente manifestação de louvor e a entrega da criança a Deus que serão feitos no santuário (v. 24-28).
Portanto, se Silo, como cenário, é o local da humilhação e também da restauração de Ana, o tempo é o configurador da narrativa. Inicialmente ela participa do tempo de Elcana e Penina, tempo de sacrifício anual. Posteriormente surge um tempo próprio, especial, que é o de seu pedido pungente e o cumprimento dele com o nascimento de Samuel, que transforma sua vida.
É necessário não esquecer o que afirmei na mensagem anterior, que os dados da narrativa devem ser vistos primeiramente como componentes "internos" de sua estruturação.
Após introduzir a história com a descrição dos personagens - Elcana, Penina e Ana -, e a constituição dos cenários - estão em Ramataim-Zofim, mas também se deslocam para o santuário de Silo - o narrador apresenta um dado temporal ao dizer que a família subia para Silo de "ano em ano" (v. 3). Isso é importante por situar temporalmente o que acontecerá a seguir: a humilhação imposta a Ana por Penina. A informação fica ainda mais clara com a afirmação ao término da disputa entre as mulheres: "E assim o fazia ele de ano em ano" (v. 7). Ou seja, a humilhação se repetia anualmente no santuário.
Outro elemento temporal, este com a função de organizar toda a narrativa, surge quando Ana faz voto ao Senhor dizendo que, se ele olhar para sua aflição e lhe conceder um filho, ela o dará ao Senhor (v. 11). Isso significa que o tempo exerce a função de gerar a tensão que se manterá até o nascimento de Samuel. Esse aspecto é ainda mais intensificado quando, após desfazer o equívoco de Eli, que pensava estar Ana embriagada (v. 13), esta recebe a bênção do sacerdote: "Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste" (v. 17). Fica a pergunta: Deus responderá, de fato, a Ana? Quando e como fará isso?
A partir do v. 19 segue-se a descrição da gravidez de Ana e do foco que se coloca em Elcana que segue com sua vida sem mudanças. Novamente, como fazia anualmente, ele sobe para Silo (v. 21). Mas desta vez Ana não o acompanha. Para ela, surge um novo ciclo temporal. O que determina o novo tempo de Ana é seu filho Samuel. Ela irá para Silo somente quando a criança puder acompanhá-la (v. 22). O que determina seu tempo não é mais o sacrifício anual, que podemos denominar "genérico", mas um tempo especial, específico, que é vinculado especialmente a ela: a obtenção de seu pedido e a consequente manifestação de louvor e a entrega da criança a Deus que serão feitos no santuário (v. 24-28).
Portanto, se Silo, como cenário, é o local da humilhação e também da restauração de Ana, o tempo é o configurador da narrativa. Inicialmente ela participa do tempo de Elcana e Penina, tempo de sacrifício anual. Posteriormente surge um tempo próprio, especial, que é o de seu pedido pungente e o cumprimento dele com o nascimento de Samuel, que transforma sua vida.
sábado, 19 de junho de 2010
1 Samuel 1. Iniciando uma análise narrativa
A partir deste post proponho a discussão de 1 Samuel capítulo 1 em uma perspectiva literária, que deverá ser complementada por Júlio e Paulo a partir de seus respectivos referenciais de análise.
Como o texto pode ser lido a partir da Bíblia online disponível no blog, me abstenho de transcrever o texto.
Inicio com uma consideração a respeito dos elementos componentes de uma narrativa: tempo, cenário, personagens e narrador. Como fruto da interação desses itens, surge o enredo.
O que é importante dizer neste momento, é que, embora os dados históricos, sociológicos etc sejam importantes, como já discutimos anteriormente, para o entendimento adequado do texto - de qualquer texto - é necessário considerar os itens da narrativa a partir de suas funções internas. Por isso, quando tomo um dado histórico, por exemplo, e como primeira ação interpretativa eu procuro seu sentido e entendimento em uma perspectiva externa, a partir de livros que explicam a origem, desenvolvimentos e outros aspectos desse elemento, corro o risco de perder a perspectiva na qual o autor do texto insere esse dado em sua narrativa. Ou seja, é importante considerar como os aspectos que nos cercam são internalizados pelo narrador em seu texto.
Em 1 Samuel tomo como exemplo a citação do santuário em Silo. Todo ano Elcana com suas duas esposas, Ana e Penina (Fenena, em outra tradução), sobem para o santuário para oferecer sacrifícios. No entanto, como o texto indica, nessa ocasião Ana é humilhada pela rival pelo fato de não dar filhos ao esposo, ao contrário do que fazia Penina. O v. 7 diz que "isso acontecia todo ano", indicando que não apenas os sacrifícios, mas também a humilhação se repetia a cada ano.
Ao final da narrativa, com o nascimento de Samuel, Ana se recusa a ir a Silo com o esposo enquanto o filho não fosse desmamado (v. 21-22). Por quê? Por que ela não queria retornar ao lugar onde sofria humilhação. Voltaria apenas quando sua situação fosse comprovadamente alterada, com a presença do filho.
Isso significa que o santuário em Silo, para além de um lugar que pode ser identificado geográfica e historicamente, é um "elemento" atuante na narrativa. Sua função é indicar o local onde Ana era humilhada e onde, ao final, sua situação é alterada para um quadro de bênção.
Em próximas mensagens apresento outros aspectos da narrativa.
Como o texto pode ser lido a partir da Bíblia online disponível no blog, me abstenho de transcrever o texto.
Inicio com uma consideração a respeito dos elementos componentes de uma narrativa: tempo, cenário, personagens e narrador. Como fruto da interação desses itens, surge o enredo.
O que é importante dizer neste momento, é que, embora os dados históricos, sociológicos etc sejam importantes, como já discutimos anteriormente, para o entendimento adequado do texto - de qualquer texto - é necessário considerar os itens da narrativa a partir de suas funções internas. Por isso, quando tomo um dado histórico, por exemplo, e como primeira ação interpretativa eu procuro seu sentido e entendimento em uma perspectiva externa, a partir de livros que explicam a origem, desenvolvimentos e outros aspectos desse elemento, corro o risco de perder a perspectiva na qual o autor do texto insere esse dado em sua narrativa. Ou seja, é importante considerar como os aspectos que nos cercam são internalizados pelo narrador em seu texto.
Em 1 Samuel tomo como exemplo a citação do santuário em Silo. Todo ano Elcana com suas duas esposas, Ana e Penina (Fenena, em outra tradução), sobem para o santuário para oferecer sacrifícios. No entanto, como o texto indica, nessa ocasião Ana é humilhada pela rival pelo fato de não dar filhos ao esposo, ao contrário do que fazia Penina. O v. 7 diz que "isso acontecia todo ano", indicando que não apenas os sacrifícios, mas também a humilhação se repetia a cada ano.
Ao final da narrativa, com o nascimento de Samuel, Ana se recusa a ir a Silo com o esposo enquanto o filho não fosse desmamado (v. 21-22). Por quê? Por que ela não queria retornar ao lugar onde sofria humilhação. Voltaria apenas quando sua situação fosse comprovadamente alterada, com a presença do filho.
Isso significa que o santuário em Silo, para além de um lugar que pode ser identificado geográfica e historicamente, é um "elemento" atuante na narrativa. Sua função é indicar o local onde Ana era humilhada e onde, ao final, sua situação é alterada para um quadro de bênção.
Em próximas mensagens apresento outros aspectos da narrativa.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Romanos 12.1-2 e uma provocação
Mudo um pouco o tema da discussões a respeito de Romanos não por discordar dos posts de Júlio e Paulo, mas simplesmente por não ter nada a acrescentar àquilo que eles têm dito. A esse respeito, sou acima de tudo leitor de suas mensagens.
Quero abordar Rm 12.1-2 de uma perspectiva provocadora, não no sentido negativo, de querer confrontar posições ortodoxas ou o que o valha pela simples razão da polêmica. Mas prococadora do ponto de vista hermenêutico, proponto um viés interpretativo diferenciado para o texto.
Normalmente o texto é interpretado, principalmente em suas duas questões principais: o "culto racional" e a "renovação da mente", em uma perspectiva individualista/moralista. Explico.
Eu, cristão, preciso desenvolver individualmente uma postura de santificação que resulta em uma entrega total da vida a Deus. Esse é o meu "culto racional", em oposição a um culto irracional, muitas vezes entendido nas igrejas tradicionais como uma oposição ao sentimentalismo, ao emocionalismo, aos dons, vivenciados pelas comunidades pentecostais.
Bem, primeiro é necessário dizer que, pelo que entendo, a melhor tradução não é culto "racional", mas sim "lógico", visto que o termo grego utilizado é "logiken". A oposição, portanto, é entre um culto que é ilógico, sem sentido, contraditório, e um culto que se manifesta coerente, que faz sentido, ou seja, lógico. Para desenvolver o culto lógico será necessário possuir uma "mente renovada".
O que proponho é que vejamos a terminologia cúltica não apenas como uma transposição tomada do culto judaico, de onde provêm os termos "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus", mas sim em seu contexto concreto, de culto mesmo. Em outras palavras, por que razão aceitamos que os termos são originários do culto, portanto uma atividade coletiva, e o aplicamos à conduta individual do cristão? Isso não me parece muito coerente.
Penso, portanto, que Paulo está falando da reunião cristã como o culto a ser desenvolvido de modo lógico. Por quê? Em virtude das disputas e oposições que estavam ocorrendo entre as duas correntes que pertenciam à igreja de Roma: cristãos de origem judaica x cristãos de origem gentílica. E não é por menos que a disputa girava em torno de questões relacionadas à mesa, aos alimentos (cf. todo o capítulo 14), motivo de tensão já testemunhado por Atos dos Apóstolos, 1 Co 8 e Gálatas 2. E, lembremos, as reuniões cristãs eram feitas em casas, em torno da mesa onde a ação de comer simbolizava a comunhão entre todos e de todos com Cristo.
Mas a prática da comunidade romana estava distante daquilo que Paulo esperava. Eles estavam "se conformando com o mundo", agindo, na mesa, a partir de critérios estranhos ao cristianismo. Isso significava que eles precisavam, para vivenciar a comunhão e praticar o culto lógico, renovar a mente, a forma de pensar e conceber tais questões.
Convém, finalmente, destacar que os pontos em discussão em Rm 12.1-2 estão ligados diretamente aos temas do justo/justificação/graça, contrários à vida sob a lei, sob o pecado e, como produto final, sob a morte.
Quero abordar Rm 12.1-2 de uma perspectiva provocadora, não no sentido negativo, de querer confrontar posições ortodoxas ou o que o valha pela simples razão da polêmica. Mas prococadora do ponto de vista hermenêutico, proponto um viés interpretativo diferenciado para o texto.
Normalmente o texto é interpretado, principalmente em suas duas questões principais: o "culto racional" e a "renovação da mente", em uma perspectiva individualista/moralista. Explico.
Eu, cristão, preciso desenvolver individualmente uma postura de santificação que resulta em uma entrega total da vida a Deus. Esse é o meu "culto racional", em oposição a um culto irracional, muitas vezes entendido nas igrejas tradicionais como uma oposição ao sentimentalismo, ao emocionalismo, aos dons, vivenciados pelas comunidades pentecostais.
Bem, primeiro é necessário dizer que, pelo que entendo, a melhor tradução não é culto "racional", mas sim "lógico", visto que o termo grego utilizado é "logiken". A oposição, portanto, é entre um culto que é ilógico, sem sentido, contraditório, e um culto que se manifesta coerente, que faz sentido, ou seja, lógico. Para desenvolver o culto lógico será necessário possuir uma "mente renovada".
O que proponho é que vejamos a terminologia cúltica não apenas como uma transposição tomada do culto judaico, de onde provêm os termos "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus", mas sim em seu contexto concreto, de culto mesmo. Em outras palavras, por que razão aceitamos que os termos são originários do culto, portanto uma atividade coletiva, e o aplicamos à conduta individual do cristão? Isso não me parece muito coerente.
Penso, portanto, que Paulo está falando da reunião cristã como o culto a ser desenvolvido de modo lógico. Por quê? Em virtude das disputas e oposições que estavam ocorrendo entre as duas correntes que pertenciam à igreja de Roma: cristãos de origem judaica x cristãos de origem gentílica. E não é por menos que a disputa girava em torno de questões relacionadas à mesa, aos alimentos (cf. todo o capítulo 14), motivo de tensão já testemunhado por Atos dos Apóstolos, 1 Co 8 e Gálatas 2. E, lembremos, as reuniões cristãs eram feitas em casas, em torno da mesa onde a ação de comer simbolizava a comunhão entre todos e de todos com Cristo.
Mas a prática da comunidade romana estava distante daquilo que Paulo esperava. Eles estavam "se conformando com o mundo", agindo, na mesa, a partir de critérios estranhos ao cristianismo. Isso significava que eles precisavam, para vivenciar a comunhão e praticar o culto lógico, renovar a mente, a forma de pensar e conceber tais questões.
Convém, finalmente, destacar que os pontos em discussão em Rm 12.1-2 estão ligados diretamente aos temas do justo/justificação/graça, contrários à vida sob a lei, sob o pecado e, como produto final, sob a morte.
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