sábado, 19 de junho de 2010

1 Samuel 1. Iniciando uma análise narrativa

A partir deste post proponho a discussão de 1 Samuel capítulo 1 em uma perspectiva literária, que deverá ser complementada por Júlio e Paulo a partir de seus respectivos referenciais de análise.

Como o texto pode ser lido a partir da Bíblia online disponível no blog, me abstenho de transcrever o texto.

Inicio com uma consideração a respeito dos elementos componentes de uma narrativa: tempo, cenário, personagens e narrador. Como fruto da interação desses itens, surge o enredo.

O que é importante dizer neste momento, é que, embora os dados históricos, sociológicos etc sejam importantes, como já discutimos anteriormente, para o entendimento adequado do texto - de qualquer texto - é necessário considerar os itens da narrativa a partir de suas funções internas. Por isso, quando tomo um dado histórico, por exemplo, e como primeira ação interpretativa eu procuro seu sentido e entendimento em uma perspectiva externa, a partir de livros que explicam a origem, desenvolvimentos e outros aspectos desse elemento, corro o risco de perder a perspectiva na qual o autor do texto insere esse dado em sua narrativa. Ou seja, é importante considerar como os aspectos que nos cercam são internalizados pelo narrador em seu texto.

Em 1 Samuel tomo como exemplo a citação do santuário em Silo. Todo ano Elcana com suas duas esposas, Ana e Penina (Fenena, em outra tradução), sobem para o santuário para oferecer sacrifícios. No entanto, como o texto indica, nessa ocasião Ana é humilhada pela rival pelo fato de não dar filhos ao esposo, ao contrário do que fazia Penina. O v. 7 diz que "isso acontecia todo ano", indicando que não apenas os sacrifícios, mas também a humilhação se repetia a cada ano.

Ao final da narrativa, com o nascimento de Samuel, Ana se recusa a ir a Silo com o esposo enquanto o filho não fosse desmamado (v. 21-22). Por quê? Por que ela não queria retornar ao lugar onde sofria humilhação. Voltaria apenas quando sua situação fosse comprovadamente alterada, com a presença do filho.

Isso significa que o santuário em Silo, para além de um lugar que pode ser identificado geográfica e historicamente, é um "elemento" atuante na narrativa. Sua função é indicar o local onde Ana era humilhada e onde, ao final, sua situação é alterada para um quadro de bênção.

Em próximas mensagens apresento outros aspectos da narrativa.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Romanos 12.1-2 e uma provocação

Mudo um pouco o tema da discussões a respeito de Romanos não por discordar dos posts de Júlio e Paulo, mas simplesmente por não ter nada a acrescentar àquilo que eles têm dito. A esse respeito, sou acima de tudo leitor de suas mensagens.

Quero abordar Rm 12.1-2 de uma perspectiva provocadora, não no sentido negativo, de querer confrontar posições ortodoxas ou o que o valha pela simples razão da polêmica. Mas prococadora do ponto de vista hermenêutico, proponto um viés interpretativo diferenciado para o texto.

Normalmente o texto é interpretado, principalmente em suas duas questões principais: o "culto racional" e a "renovação da mente", em uma perspectiva individualista/moralista. Explico.

Eu, cristão, preciso desenvolver individualmente uma postura de santificação que resulta em uma entrega total da vida a Deus. Esse é o meu "culto racional", em oposição a um culto irracional, muitas vezes entendido nas igrejas tradicionais como uma oposição ao sentimentalismo, ao emocionalismo, aos dons, vivenciados pelas comunidades pentecostais.

Bem, primeiro é necessário dizer que, pelo que entendo, a melhor tradução não é culto "racional", mas sim "lógico", visto que o termo grego utilizado é "logiken". A oposição, portanto, é entre um culto que é ilógico, sem sentido, contraditório, e um culto que se manifesta coerente, que faz sentido, ou seja, lógico. Para desenvolver o culto lógico será necessário possuir uma "mente renovada".

O que proponho é que vejamos a terminologia cúltica não apenas como uma transposição tomada do culto judaico, de onde provêm os termos "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus", mas sim em seu contexto concreto, de culto mesmo. Em outras palavras, por que razão aceitamos que os termos são originários do culto, portanto uma atividade coletiva, e o aplicamos à conduta individual do cristão? Isso não me parece muito coerente.

Penso, portanto, que Paulo está falando da reunião cristã como o culto a ser desenvolvido de modo lógico. Por quê? Em virtude das disputas e oposições que estavam ocorrendo entre as duas correntes que pertenciam à igreja de Roma: cristãos de origem judaica x cristãos de origem gentílica. E não é por menos que a disputa girava em torno de questões relacionadas à mesa, aos alimentos (cf. todo o capítulo 14), motivo de tensão já testemunhado por Atos dos Apóstolos, 1 Co 8 e Gálatas 2. E, lembremos, as reuniões cristãs eram feitas em casas, em torno da mesa onde a ação de comer simbolizava a comunhão entre todos e de todos com Cristo.

Mas a prática da comunidade romana estava distante daquilo que Paulo esperava. Eles estavam "se conformando com o mundo", agindo, na mesa, a partir de critérios estranhos ao cristianismo. Isso significava que eles precisavam, para vivenciar a comunhão e praticar o culto lógico, renovar a mente, a forma de pensar e conceber tais questões.

Convém, finalmente, destacar que os pontos em discussão em Rm 12.1-2 estão ligados diretamente aos temas do justo/justificação/graça, contrários à vida sob a lei, sob o pecado e, como produto final, sob a morte.

sábado, 5 de junho de 2010

Fidelidade do Messias: a base da libertação

Os especialistas em exegese paulina têm discutido há algum tempo uma questão que me parece fundamental para a compreensão da açao de Deus como Libertador. Essa questão, porém, tem sido colocada em segunda plana por causa da protestantização da interpretação de Paulo (que também os exegetas católicos praticam). Vejam o texto que serve de base para o questionamento, na versão ARA: "justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção". Em negrito o xis da questão: as traduções e comentaristas em geral, aqui e em textos similares na carta aos gálatas, traduzem a expressão dia pistews Iesou Xristou como genitivo objetivo - "fé em" e não como genitivo subjetivo "fidelidade de", até mesmo desconsiderando a redundância que deriva dessa - a meu ver - má tradução: "fé em Cristo para todos os que crêem" - mesma redundância em Gl 2:16 "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado": "temos crido ... justificados pela fé em Cristo".

Se deixarmos o dogma de lado, a tradução mais simples e adequada do texto, segundo as regras gramaticais e semânticas, será ""justiça de Deus mediante a fidelidade de Jesus, o Messias, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção" & "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fidelidade do Messias Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fidelidade do Messias e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado". O contraponto fica bem claro - Paulo sustenta que a base da libertação é a fidelidade do Messias a Deus, cumprindo sua missão como humano, ao invés da obediência dos escravos à vontade (lei) de Deus. Se não entendemos assim os textos, caímos no antropocentrismo que é uma praga no protestantismo, que reduz a graça a uma espécie de ato mágico de Deus que nos considera inocentes, mesmo que sejamos culpados.

Não! "Um morreu por todos", esse um é o Messias que foi fiel a Deus, "logo, todos morreram". A fidelidade do Messias nos livrou da necessidade de agradar a Deus para alcançar a liberdade assim como nos livrou da culpa e da carne - "quem está morto está livre da Lei (da culpa, da carne, do diabo, etc.)". O caminho paulino para a libertação é o caminho da morte solidária, que, por sua vez, é o fim do caminho da vida fiel e solidária. O problema é que preferimos ficar vivos, a fim de garantir nossa salvação...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ainda sobre o justo em Habacuc

Gostaria de adicionar um elemento judaizante à interpretação libertadora do Júlio a respeito do justo que viverá por sua emunah. Segundo o Pesher Habacuc de Qumran o 1QHab Col.VIII, 1-3, o comentário para o verso em questão é: "Sua interpretação se refere a todos os que cumprirem a Torah na Casa de Judá, aos quais livrará Deus do castigo por causa de seus trabalhos e de sua fidelidade (emunah) ao Mestre de Justiça". Para atualizar este comentário podemos fazer algumas alterações. Basta substituir a fidelidade ao Mestre da Justiça, coisa específica de Qumran, pela fidelidade a Deus e ao seu Messias, no nosso caso, de outra seita, Jesus. Se dermos uma pitadinha de "a Escritura é interpretada pela Escritura" podemos juntar: cumprir a "Torah perfeita da liberdade", ao estilo de Tiago. Vejam que bonito: o justo viverá por sua fidelidade, ou seja, no cumprimento da Torah (quantos desafios para nossa sociedade estão ali!) e são fiéis ao seu Messias (o grande intérprete radicalizador da Torah), que cumpriu a vontade de Deus até a morte. Desta forma podemos ter esperança de livramento de nosso merecido castigo.

Exegese heterodoxa, hermenêutica heterodoxa também...

Permitam-me generalizar um pouco o assunto: ainda faz sentido ficarmos apenas remoendo culpa individual, que corresponde a uma moralidade que não existe mais e a uma imagem de deus (el gran castigador) que não faz mais sentido para transformarmos toda a mensagem de Romanos num discurso de que Deus me salva, isto é me perdoa de meus pecados mais íntimos (pensamentos interiores, desejos inexprimíveis, libido incontrolável), para que eu corresponda, por sua graça, a um ideal de justiça vitoriano, assexuado e apolíneo? E dizer que esta salvação divina em resposta à fé (não em lembro da formulação luterana e calvinista precisa: seria por graça mediante fé? Algo assim...) é um livramento individual, suficiente, de toda condenação infernal. Uma vez livre poderia dizer: "Peca forte!" Tua salvação individual é total. Quanto mais pecar, mais funciona. Um bom seguro de saúde ou um bom anti-vírus.
Não chegou o momento de acabarmos com este cinismo espiritual do peca forte? Já aprendemos da defunta Teologia da Libertação (ela morreu, mas deixou sementes lançadas à terra) que pecado é social também. Talvez até mais social. Não seria cinismo das culturas protestantes do Atlântico Norte repetir a desgastada fórmula de Lutero do peca forte? 

Destruição de rios e mares? Peca forte!
Políticas econômicas protecionistas européias e norte-americanas? Peca forte!
Discriminação de árabes e africanos? Peca forte!
Guerra total ao terrorismo? Peca forte!

E nós, seguidores do mesmo cinismo ético nos trópicos?

Corrupção no mundo evangélico? Peca forte!
Jatinhos, helicópteros, dossiês? Peca forte!
Teologia da avidez por dinheiro? Peca forte!

E assim por diante.

Não creio que Paulo pudesse ter imaginado o abismo em que íamos nos lançar. Por isso um pequeno corretivo inspirado em Habacuc, em Qumran e em Tiago. Fidelidade à Torah  (cumprimento da sua vontade, que nos liberta) e ao seu Messias ( que por ela deu a vida)! Esta é a libertação.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Exemplo de justo em Romanos 4

Seguindo as discussões a respeito de justo/justiça em Romanos, apresento considerações a respeito de Romanos 4 e a presença de Abraão nele.

Os capítuolos 1.18 até o final do 3 são utilizados por Paulo para mostrar a situação do ser humano sob pecado, e nesse caso é uma discussão que não gira em torno de questões teóricas, mas concretas. Para o argumento de Paulo, o importante é mostrar que todos são pecadores por praticarem atos pecaminosos.

Dessa forma, em Romanos 3.11 Paulo afirma: "não há justo, nenhum sequer". Mas agora a justiça de Deus se manifesta em Jesus Cristo para todos os que crêem (3.21-22), e o ser humano pode tornar-se justo a partir da graça divina.

Então surge o capítulo 4. Nele, Abraão é apresentado como exemplo de justo. E isso é feito a partir de uma perspectiva prática. Se os seres humanos se afastam de Deus por seus atos, Abraão, respondendo ao chamado divino, constroe uma relação igualmente a partir de uma vida prática.

Abraão creu, e isso lhe foi imputado para justiça (4.3). O contexto concreto de exercício de fé foi a fé de que poderia gerar um filho na velhice (4.17-22). Ele recebe a circuncisão como sinal da justiça que vem dessa fé (4.11). E, por isso, ele se torna o pai de todos os incircuncisos que crêem em Cristo (4.12).

Abraão é tomado como exemplo de modo estratégico. Além de demonstrar que a justiça se evidencia em uma vida justa, de forma prática, o patriarca também revela que isso chegou a ele quando ainda incircunciso e antes da lei, de modo a desarticular os argumentos que afirmavam que a Lei trazia justiça ao judeu, e também para mostrar que é necessário outro caminho, o da fé.

O capítulo 4 é essencial para a argumentação do apóstolo e para o desenvolvimento do capítulo 5.

sábado, 29 de maio de 2010

Justo e justiça em Romanos

Na mensagem anterior, entre outras questões sobre Romanos, escrevi:

"Gostaria apenas de introduzir a discussão. Uma primeira questão é que Romanos trabalha de modo mais enfático o "justo" do que a "justificação", visto que o primeiro termo propõe um aspecto relacional, enquanto o segundo se inclina para um aspecto situacional".

Pretendo contextualizar e justificar a afirmativa. Em nossa teologia, o conceito de justificação está intimamente atrelado ao de lei, principalmente em Romanos. Dessa forma, em uma interpretação que toma como contexto uma cena de julgamento na qual o ser humano pecador está diante de um juiz justo(Deus), ele é justificado pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esse ato é o aspecto legal no qual a justificação está circunstanciada.

Não nego necessariamente esse aspecto, mas o relativizo. Primeiro, por não sabermos exatamente se Paulo tinha em mente (e isso nunca saberemos) o tribunal romano. Depois, pelo fato de que corremos o risco de atribuir ao texto a compreensão moderna de lei, justiça, etc.

Um outro dado a ser considerado, e esse é histórico, provindo da Reforma, é que a justificação, nos moldes reformados, é tomada como um ato de Deus que nos considera justos, sendo que, de fato, não o somos. Claro que tal construção está em oposição aos aspectos soteriológicos da teologia católica romana.

Parece-me que esse aspecto está presente em Romanos, mas não é o mais importante. A ênfase no justo recebe destaque, como está indicado em Rm 1.16-17, e também pelas questões apontadas pelo Júlio na discussão sobre Habacuque.

Um ponto importante a ser considerado, e isso já é proposto a muito tempo (em termos mais recentes, sugiro a leitura do livro de James Dunn. "A teologia do apóstolo Paulo", da Paulus, onde ele constrói a teologia paulina a partir da carta aos Romanos), é que com bastante certeza o contexto no qual Paulo vai buscar o conceito de justo/justiça é o Antigo Testamento. Nele, tais termos estão vinculados à relação com Deus mediante a aliança. Segundo a aliança, quem é o justo? Não é primeiramente quem faz o certo, cumpre a lei, mas aquele que aceita relacionar-se com Deus. Por isso mesmo, a ira de Deus (a partir de 1.18) se manifesta do céu contra os homens que têm rejeitado relacionar-se com ele. Obviamente as exigências e leis estão presentes, mas como elementos que demonstram na prática uma vida vivida em aliança/compromisso com Deus.

Se aceitarmos tal proposição, veremos que o objetivo de Paulo em Romanos é discutir quem, de fato, é o justo, e como é possível viver tal vida.

Paro por aqui. Pretendo conversar um pouco sobre Rm 4 no próximo post.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Uma propaganda, fugindo do tema da semana, mas não do Blog.

Vale a pena ler uma recente publicação da Annablume & FAPESP. MENDES, Mariza B. T. No princípio era o poder. Uma análise semiótica das paixões no discurso do Antigo Testamento. Não tive ainda a chance de ler o livro com a devida atenção. Fiz apenas um vôo panorâmico. Ressalto a ausência de bibliografia especializada em AT que é, simultaneamente, vantagem e desvantagem pois, não submete a pesquisa da autora ao "padrão" da academia bíblica, deixando o seu texto, porém, sem os benefícios de informação contextual preciosa. Que a academia lingüística se interesse pela Bíblia é uma grande notícia. Falta, porém, mais diálogo...